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A Sabedoria do Anonimato: Giannetti e a Difícil Arte de Desaparecer

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Há livros que parecem nos procurar. Não chegam até nós por acaso, mas precedidos por uma espécie de aval silencioso — não apenas editorial ou acadêmico, mas humano. Foi assim que Imortalidades entrou no meu horizonte de leitura. Depois da publicação de um artigo que escrevi sobre O Anel de Giges, o colega e amigo César Danilo Ribeiro de Novais — uma das vozes mais respeitadas do Tribunal do Júri brasileiro[i] — perguntou-me, quase casualmente: “Você já leu Imortalidades?”. Respondi que havia percorrido outras estações intelectuais de Eduardo Giannetti — O Valor do Amanhã, Felicidade, Autoengano —, mas ainda não havia chegado a esse livro que, pelo próprio título, parece tocar uma das zonas mais sensíveis da experiência humana. Com o crédito que a sugestão dele merecia, comprei a obra. E confesso: ela começou a me inquietar antes mesmo de o pacote chegar à minha porta.Havia uma expectativa difícil de explicar, um incômodo que era tanto intelectual quanto existencial. Os livros anteriores de Giannetti haviam produzido em mim uma sensação rara — a de encontrar um autor capaz de iluminar certos corredores da consciência sem transformá-los em laboratório acadêmico nem em autoajuda filosófica. Há escritores que acumulam conceitos. Giannetti, não. Ele desloca discretamente o leitor do lugar onde estava. Quando percebi, aguardava a leitura não como quem espera apenas mais um volume na estante, mas quase como quem retorna a uma conversa interrompida.E talvez seja exatamente isso que a obra provoque: a sensação de que alguém resolveu colocar em voz alta perguntas que normalmente administramos em silêncio. Afinal, diga sinceramente, caro leitor: em algum momento da vida – numa madrugada qualquer, diante da perda de alguém próximo, durante o susto de um diagnóstico, depois de um aniversário particularmente simbólico ou até num instante banal de cansaço – quem nunca se perguntou o que significa desaparecer? Não desaparecer da sala ou silenciar o grupo de WhatsApp. Desaparecer mesmo. Apagar-se da história.É precisamente nesse território que Giannetti entra, e entra sem espetáculo. Talvez resida aí uma das maiores qualidades do livro. Imortalidades não possui o tom professoral de certos tratados filosóficos escritos para impressionar departamentos universitários, tampouco cai naquela espiritualidade açucarada que tenta transformar a morte numa palestra motivacional do universo. O autor prefere outro caminho: investiga o assunto como quem examina uma antiga ferida humana que nunca cicatrizou completamente.A estrutura da obra acompanha os passos largos do nosso desespero. Aos poucos, Giannetti vai mostrando as diferentes formas pelas quais tentamos sobreviver ao tempo. Primeiro aparecem as promessas mais antigas: a permanência da alma, a transcendência religiosa, a esperança metafísica de que algo em nós sobreviva ao corpo. Depois surgem as estratégias terrenas: os filhos, a linhagem, a obra, a fama, a memória cultural, a tentativa de permanecer através do rastro que deixamos no mundo. O que torna a leitura poderosa é que o autor jamais desmerece essas tentativas. Ele as compreende como manifestações inevitáveis do drama de sermos a estranha espécie que sabe que vai morrer. Um animal condenado não apenas à morte, mas à consciência dela.Aqui o livro toca silenciosamente em Pascal. O homem, dizia o filósofo francês, é apenas um junco — o mais frágil da natureza. Um sopro pode destruí-lo. Mas é um junco pensante. E toda a sua grandeza nasce justamente da consciência da própria precariedade. Giannetti parece caminhar por essa mesma trilha: a nossa miséria e a nossa grandeza têm exatamente a mesma origem. Há também ecos claros de Miguel de Unamuno e seu “sentimento trágico da vida”. O homem deseja permanecer porque existe algo nele que se recusa a aceitar serenamente o próprio apagamento. A razão suspeita do fim; o afeto insurge-se contra ele. Longe de transformar essa busca por transcendência numa patologia simplória, a obra a trata como consequência estrutural da autoconsciência. São ecos que se juntam a Spinoza, Borges, Machado de Assis e Fernando Pessoa — não como exibição ornamental de erudição, mas como testemunhos históricos de uma inquietação universal.Percebemos que as antigas estratégias de transcendência continuam vivas, apenas trocaram de roupa. Hoje não construímos catedrais; construímos perfis. Alimentamos arquivos digitais, marcas pessoais e projetos de reputação permanente. Armazenamos fotografias compulsivamente no rolo da câmera — o almoço de domingo, o sorriso do filho, o pôr do sol na estrada — como se o acúmulo de bytes pudesse impedir o tempo de concluir o próprio trabalho. Nunca uma civilização produziu tantos registros de si mesma e, talvez por isso, nunca tenha temido tanto o esquecimento.Giannetti percebe essa nossa fome com enorme lucidez. Num dos trechos mais impressionantes, ele resgata Heróstrato, o homem que incendiou o templo de Ártemis apenas para eternizar o próprio nome na história. O episódio é devastador porque parece dolorosamente próximo do século XXI. Mudaram os incêndios; o impulso continua idêntico. Há quem destrua reputações, relações e a própria dignidade apenas para garantir alguns segundos a mais na retina pública. Heróstrato seria um fenômeno de engajamento hoje. Mas a análise recusa a caricatura moral: o desejo de permanência não nasce apenas da vaidade vulgar, mas da dificuldade profunda de aceitar a nossa própria dissolução.Contudo, é após atravessar a religião, a descendência e a posteridade que o livro opera sua virada mais bonita. No capítulo dedicado ao “presente absoluto”, Giannetti sugere algo desconcertante: na tentativa obsessiva de sobreviver ao tempo, frequentemente deixamos de viver dentro dele. Sacrificamos o hoje em nome de um amanhã que nunca chega. Trabalhamos além da conta, adiamos o abraço, arquivamos o afeto e transformamos a existência numa preparação permanente para a vida, como se existisse um momento ideal para finalmente começarmos a existir.A morte, então, deixa de ser apenas a inimiga. Ela passa a ser aquilo que confere peso dramático à existência. Se fôssemos eternos, haveria urgência? Haveria motivo real para escolher, amar ou pedir perdão nesta tarde? A eternidade transformaria tudo em adiamento. A finitude não empobrece a experiência; ela é o que dá forma ao amor, à criação e à coragem. Em vez de nos deixar deprimidos, essa percepção nos devolve ao café que esfria na xícara, ao toque áspero do papel, ao silêncio da casa. Deixa-nos conscientes.Vivemos a era da promessa técnica. Enquanto leio Giannetti, as notícias me lembram que laboratórios pesquisam reprogramação celular, inteligência artificial aplicada à biologia e promessas de “imortalidade digital”. O transumanismo contemporâneo tenta tratar o envelhecimento como um erro de código, um problema técnico e não um destino metafísico. Mas é aqui que precisamos tensionar o autor: o que acontecerá com nossa espessura dramática se a técnica realmente começar a romper a barreira da finitude? O que restará dos nossos afetos se a longevidade for estendida indefinidamente? Talvez a pergunta mais perturbadora não seja mais como aceitar o fim, mas o que restará de nós se escaparmos dele.Mesmo diante da fantasia tecnológica, a suspeita existencial permanece intacta. Continuamos querendo permanecer porque o homem não quer apenas viver; ele quer continuar significando depois de desaparecer. Construímos livros, filhos, cidades e narrativas porque resistimos à ideia de passar pelo mundo como quem jamais esteve aqui. Inclusive este artigo que escrevo agora, e que você lê nesta página, participa da mesma ilusão: é um pequeno rastro de texto flutuando no vazio, tentando capturar um pensamento antes que o tempo o leve. Ele também é mortal.Mas ao fechar o livro, sobra uma última possibilidade, mais silenciosa e difícil. E se existir também uma arte de desaparecer? Não como desistência ou abandono, mas como a aceitação serena de que nem toda existência precisa se transformar em monumento. Há quem atravesse os dias discretamente, mude o mundo de dois ou três indivíduos através do afeto puro, e parta sem alarde. Não serão tema de biografias, não terão estátuas nem páginas eternizadas nos servidores da internet. Ainda assim, a vida deles terá sido plena.Há uma liberdade profunda em desapegar-se da necessidade de ser projetado no olhar futuro dos outros. O homem moderno está exausto de administrar a própria imagem, exausto de transformar a vida em uma autobiografia contínua para consumo alheio. Algumas coisas são belas justamente porque terminam. Desejamos a eternidade, mas é o limite que desenha a ternura. No fundo, a nossa civilização inteira — das pirâmides do Egito aos bancos de dados digitais — parece ser apenas a tentativa contínua e comovente de responder àquela pergunta antiga, que se recusa a sumir: como suportar a consciência da nossa finitude sem deixar de amar a vida?

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*Márcio Florestan Berestinas é promotor de Justiça no Ministério Público do Estado de Mato Grosso.
[i] César Danilo Ribeiro de Novais é Promotor de Justiça no Ministério Público de Mato Grosso e autor de A Defesa da Vida no Tribunal do Júri, obra atualmente em sua quarta edição e considerada uma das mais respeitadas referências contemporâneas sobre o júri popular brasileiro.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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Inquérito apura conduta de operadora na oferta de internet

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A 6ª Promotoria de Justiça Cível de Cuiabá instaurou inquérito civil para apurar possíveis violações aos direitos dos consumidores relacionadas à prestação de serviços de internet pela empresa Telefônica Brasil S.A. (Vivo). A investigação está sob responsabilidade da promotora de Justiça Valnice Silva dos Santos.A instauração do procedimento tem como base informações que apontam possíveis irregularidades na oferta de serviços de internet, incluindo falta de transparência na divulgação das condições contratuais, eventual existência de cláusulas abusivas e restrições indevidas à funcionalidade do serviço contratado.Conforme apurado preliminarmente, a operadora teria vinculado a velocidade da internet ao pagamento imediato da fatura mensal, por meio de um chamado bônus de adimplência que representaria, na prática, grande parte da velocidade anunciada ao consumidor. Dessa forma, em caso de atraso no pagamento, haveria significativa limitação do serviço sem a correspondente redução no valor cobrado.Também foram relatadas alterações na forma de restrição do serviço, passando a empresa a condicionar o funcionamento do Wi-Fi à regularidade do pagamento, o que pode indicar apenas mudança operacional da prática inicialmente questionada, sem afastar eventual abusividade.Informações da Agência Nacional de Telecomunicações indicam a existência de processo administrativo instaurado para apurar condutas semelhantes, com identificação de desconformidades quanto à transparência das informações prestadas aos consumidores e adoção de medidas para adequação da operadora, incluindo notificações e plano de conformidade.De acordo com o Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), os elementos já reunidos indicam possível ofensa a direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor, especialmente quanto à informação clara e adequada, à proteção contra práticas abusivas e ao equilíbrio nas relações de consumo. O caso pode ter repercussão coletiva, uma vez que envolve potencial prejuízo a número indeterminado de consumidores.Com a instauração do inquérito civil, a Promotoria de Justiça dará continuidade à coleta de provas e à realização de diligências para aprofundar a apuração dos fatos e adotar as medidas cabíveis.

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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