Orçamento Público
PTA 2026: O mapa do déficit bilionário na Saúde de Mato Grosso
Análise detalhada do PTA 2026 da Saúde de MT revela déficits bilionários. Gestão hospitalar, regulação e saúde mental dependem de verba extra incerta. Conselho classifica situação de remédios como “escândalo”.
Documentos oficiais do Conselho Estadual obtidos com exclusividade pelo conexaomt, revelam que o governo montou o orçamento sabendo que o dinheiro não cobre a despesa real. De hospitais regionais à ouvidoria, técnicos apostam na “sorte” da arrecadação futura enquanto conselheiros temem colapso nos serviços.
O roteiro financeiro da Saúde Pública de Mato Grosso para 2026 foi desenhado sob uma premissa alarmante: a conta, deliberadamente, não fecha. Uma análise exaustiva das planilhas do Plano de Trabalho Anual (PTA), cruzada com as atas de reuniões tensas entre a equipe técnica da Secretaria de Estado de Saúde (SES) e o Conselho Estadual de Saúde (CES), expõe um abismo entre o que é necessário para manter o sistema de pé e o que está, de fato, garantido no papel.
Não se trata apenas de “ajustes”. A gestão estadual trabalha com a lógica do Déficit Recorrente. A Secretaria de Fazenda (Sefaz) repassa um teto baseado em 12% da receita prevista, mas a Saúde consome, na prática, mais de 14,5% para operar. O resultado é um orçamento que nasce fictício em sua suficiência, dependendo vitalmente de “suplementações” — dinheiro extra vindo do excesso de arrecadação — que só costumam se confirmar no segundo semestre.
Até lá, setores vitais, da alta complexidade hospitalar à distribuição de remédios, operam no fio da navalha. Para os técnicos, é metodologia. Para os conselheiros, é uma roleta russa institucional.
O abismo da gestão hospitalar e ambulatorial
O maior volume financeiro — e o maior buraco — reside na estrutura que sustenta os hospitais. A entrada em cena do novo Hospital Central e a contratualização de novas unidades inflacionaram as despesas, mas o orçamento base não acompanhou o ritmo.
Os dados do PTA 2026 são frios e assustadores:
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Ação 2515 (Gestão Hospitalar do SUS): Com um orçamento previsto de R$ 933 milhões, a área já projeta um déficit de R$ 331 milhões.
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Ação 2728 (Serviços Ambulatorial e Hospitalar): A situação aqui é de insolvência técnica. O orçamento é de aproximadamente R$ 592 milhões, mas o déficit identificado chega a R$ 482,4 milhões.
Na prática, a Ação 2728 tem um “rombo” quase do tamanho de seu orçamento total. A equipe técnica, liderada por Claudete na área orçamentária, admitiu a disparidade durante os debates:
“O incremento de orçamento para 2026 ele foi também, embora tenha aumentado, aquém do aumento da despesa da saúde”, justificou.
Isso significa que, sem a injeção de dinheiro novo ao longo do ano, a capacidade de custeio dessas unidades colapsaria em poucos meses.
Regulação: o risco de “entrar o ano sem nada”
Se os hospitais preocupam, a porta de entrada e a logística de pacientes geram pânico. A Ação 2540 (Gestão da Regulação), responsável por gerenciar quem vai para onde, apresenta uma distorção contábil grave.
O orçamento disponibilizado é de R$ 235,5 milhões. O déficit identificado? R$ 290,6 milhões. O valor que falta é superior ao valor que existe.
A conselheira Josied, que atua na área, expôs a gravidade da situação com uma pergunta retórica que silenciou a sala:
“Nós vamos entrar o ano sem nada?”.
Essa linha orçamentária não paga apenas burocracia. Ela custeia:
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Home Care (Internação Domiciliar): Custo médio de R$ 20 milhões/mês.
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TFD (Tratamento Fora de Domicílio): Custo de R$ 7 milhões/mês.
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Transporte Aéreo: Vital para um estado com as dimensões de Mato Grosso.
Josied alertou que, em 2025, a suplementação foi necessária já em abril. Para 2026, com o déficit superando o orçamento, a margem de manobra é inexistente.
Ponto crítico: assistência farmacêutica
A Ação 2732, que garante medicamentos de alto custo e atende demandas judiciais, é outro ponto nevrálgico. Com um orçamento aprovado de R$ 107,7 milhões, a área técnica aponta uma necessidade adicional (déficit) de R$ 42 milhões.
O conselheiro Bazan não mediu palavras ao analisar os números, classificando o déficit como “um escândalo” e “inaceitável”, especialmente por ser a área que mais gera reclamações da população.
“Assistência Farmacêutica a gente entre o ano e 2016 com toda tranquilidade, sem déficit”, cobrou Bazan, exigindo que a primeira suplementação do ano tape esse buraco.
A técnica Laura, da Farmácia, tentou contemporizar, afirmando que o problema muitas vezes é de licitação, não de dinheiro, mas confirmou que o teto imposto pela Secretaria de Planejamento (SEPLAG) forçou esse corte inicial.
O descaso com a saúde mental e especializada
Ao analisar as “linhas finas” da tabela orçamentária, descobre-se que o estrangulamento financeiro é ainda mais cruel nas unidades especializadas. O planejamento sugere uma quase inviabilidade operacional em setores que atendem populações vulneráveis.
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CIAPS Adalto Botelho (Ação 2450): A principal referência psiquiátrica do estado tem orçamento de R$ 18 milhões e um déficit de R$ 15,8 milhões. O dinheiro garantido mal cobre o básico. A unidade vive um drama duplo: obras arrastadas e a superlotação por pacientes judiciais. Claudete descreveu o local como “praticamente manicômio judiciário”, devido às ordens de internação de inimputáveis. Sobre a reforma, a promessa é entregar a ala masculina em março, mas a ala feminina segue indefinida. Uma conselheira desabafou: “Não, não, não termina, não termina, gente, me desculpe, mas nesse ritmo não termina”.
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CRDAC (Pessoa com Deficiência – Ação 2970): Com R$ 17 milhões em caixa, faltam outros **R$ 11,6 milhões**. Isso impacta diretamente a fila de órteses, próteses e o atendimento a crianças autistas, que, segundo relatos, ficam “perdidas dentro do sistema” entre a reabilitação e a saúde mental.
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Hemocentro (Ação 2513): Opera com déficit de **R$ 3,5 milhões** sobre um orçamento de R$ 29,5 milhões, comprometendo a modernização da frota de coleta de sangue.
O apagão da ouvidoria
Em meio a cifras bilionárias, a ausência de recursos para fiscalização chamou a atenção pela gravidade política. A Ação 2518, que mantém o Conselho Estadual, apresentou R$ 0,00 para as subações específicas da Ouvidoria — setor que recebe as denúncias de falta de remédios e atendimento.
Bazan denunciou a invisibilidade do setor nas planilhas:
“Então não existe ouvidoria aqui, tá bem claro… Isso é muito grave”.
Sem rubrica própria, a Ouvidoria fica impedida de comprar materiais básicos ou viajar aos municípios. “Tudo que a gente solicita não conseguimos”, reclamou o conselheiro. Diante da pressão, a técnica Claudete improvisou uma solução na mesa:
“É, entende a gente pode pegar de 900 corrigir ele, tá? Para colocar nessa ação aí que é encaminhada denúncias”.
O paradoxal aumento em obras e TI
Enquanto a assistência básica sangra, a Ação 3745 (Construção e Reformas) viu seu orçamento saltar para R$ 253,8 milhões em ano eleitoral. Ainda assim, projeta-se um déficit adicional de R$ 148,5 milhões.
Lucas, da Superintendência de Obras, garantiu que “não há nenhuma obra parada por falta de orçamento”, mas admitiu que o remanejamento é constante para atender novas demandas políticas e de gestão.
Na Tecnologia da Informação, a soma dos déficits das ações (2009, 2569, 2862) beira os R$ 51 milhões. Houve questionamentos duros sobre a prioridade: o governo alocou R$ 13 milhões para painéis de monitoramento (“dashboards”) e inteligência, enquanto o serviço direto de Saúde Digital para os municípios ficou com apenas R$ 4 milhões.
Diógenes, responsável pela área, defendeu os gastos citando que a telemedicina já atende 142 municípios e resolve até 70% dos casos na atenção primária, mas o Conselho pediu inclusão no monitoramento para garantir que os dados reflitam a realidade.
Recurso federal parado e a “roleta russa”
O que torna o cenário ainda mais complexo é a existência de dinheiro que não pode ser gasto. O Ministério Público Federal apontou volumes significativos de recursos da União parados nas contas da SES, travados por burocracia e falhas de execução.
A conselheira Ester sugeriu uma manobra junto ao Conselho Nacional de Saúde para destravar essa verba e cobrir os rombos estaduais.
No fim, o PTA 2026 é um documento de fé. Fé de que a arrecadação suba, fé de que a suplementação chegue e fé de que o sistema aguente até lá. A conselheira Maria Luía sintetizou a angústia de quem depende do calendário fiscal para salvar vidas:
“Eu fico me perguntando, ó, eu tenho que esperar sempre setembro, outubro para ver se a arrecadação… foi suficiente para eu poder suplementar”.
DÉFICITS: A CONTA QUE NÃO FECHA
Dados extraídos das tabelas do PTA 2026
| AÇÃO | DESCRIÇÃO | ORÇAMENTO (R$) | DÉFICIT (R$) | STATUS |
| 2540 | Regulação (Home Care/UTI Aérea) | 235.5 milhões | 290.6 milhões | CRÍTICO (Déficit > Orçamento) |
| 2728 | Serviços Ambulatoriais/Hosp. | 592 milhões | 482.4 milhões | COLAPSO IMINENTE |
| 2515 | Gestão Hospitalar SUS | 933 milhões | 331 milhões | ALTO RISCO |
| 3745 | Obras e Reformas | 253.8 milhões | 148.5 milhões | DEPENDENTE DE CAIXA |
| 2732 | Assistência Farmacêutica | 107.7 milhões | 42 milhões | ESCÂNDALO (Segundo CES) |
| 2450 | Adalto Botelho (Saúde Mental) | 18 milhões | 15.8 milhões | PRECARIEDADE EXTREMA |
| 2970 | CRDAC (Pessoa com Deficiência) | 17 milhões | 11.6 milhões | FILAS EM RISCO |
| 206 | Transportes | 13 milhões | 9.4 milhões | SUPLEMENTAÇÃO CEDO |
O outro lado
A redação entrou em contato com o Goverdo do Estado e com a Secretaria de Estado de Saúde (SES), oportunizando sua manifestação. Todas as notas enviadas serão incluídas aqui.
CIDADES
Polícia Civil caça grupo que matou animal doméstico para torturar família em sítio
Polícia Civil de MT deflagra operação contra quadrilha que aterrorizou família em sítio, agrediu vítimas e matou animais domésticos durante roubo.
Operação Sem Livramento cumpre 36 ordens judiciais em Cuiabá, Várzea Grande e Barra do Garças; justiça bloqueou R$ 87 mil dos investigados após noite de terror na zona rural.
Agentes da Polícia Civil deflagraram, nas primeiras horas desta quinta-feira (22), uma ofensiva contra uma organização criminosa especializada em terror rural. A Operação Sem Livramento cumpre 36 ordens judiciais contra suspeitos de roubo, extorsão e tortura psicológica. As equipes vasculham endereços em Cuiabá, Várzea Grande e Barra do Garças.
O alvo é uma rede estruturada que não apenas roubava, mas impunha horas de pânico às vítimas.
A justiça determinou buscas e apreensões em 15 endereços ligados ao bando. Além da devassa nas residências, o Judiciário autorizou a quebra de sigilo de dados e o bloqueio de até R$ 87 mil nas contas dos envolvidos. A ação é coordenada pela Delegacia Especializada de Roubos e Furtos de Veículos (DERFVA).
Noite de terror e crueldade
As investigações começaram após um crime brutal em novembro de 2024. O cenário foi um sítio no município de Nossa Senhora do Livramento.
Naquela noite, uma família inteira acabou rendida.
Os criminosos amarraram adultos e crianças. As vítimas permaneceram sob a mira de armas e agressões físicas por horas. Enquanto mantinham a família em cárcere privado, os assaltantes exigiam transferências bancárias via Pix.
A violência não se restringiu aos humanos. Para demonstrar controle e silenciar o ambiente, o grupo executou um papagaio da família e feriu um cachorro da propriedade. A crueldade serviu como ferramenta de intimidação extrema.
Ao fugirem, os bandidos levaram um Citroën C3, notebooks, celulares e ferramentas de trabalho das vítimas.
Rede organizada
A apuração da DERFVA revelou que o grupo opera com planejamento prévio e divisão clara de tarefas. Há os executores diretos, os responsáveis pela logística e os encarregados de dar destino aos bens roubados.
O delegado Maurício Maciel Pereira Junior, responsável pelo caso, afirma que o mapeamento permitiu identificar não apenas os assaltantes, mas a rota do dinheiro.
“Com o avanço das apurações, foi possível identificar outros integrantes do grupo criminoso, mapear a atuação da organização e identificar eventuais empresas utilizadas para ocultação e lavagem de dinheiro”, explica o delegado.
As ordens foram expedidas pelo Núcleo de Justiça 4.0. A ação integra a operação Inter Partes, braço do programa Tolerância Zero do Governo de Mato Grosso, focado na asfixia financeira e logística de facções.
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