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Cientistas usam planta brasileira e barram 93% do coronavírus em laboratório

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A copaíba-vermelha, árvore que só existe no Brasil, deu origem a um extrato que impediu o vírus da covid-19 de infectar células em teste de bancada. O estudo saiu na revista Scientific Reports.

Um extrato feito com folhas de copaíba-vermelha barrou 93% do coronavírus em testes de laboratório. A planta, cujo nome científico é Copaifera lucens, só existe no Brasil e cresce em áreas de Mata Atlântica. O trabalho foi publicado em 2 de fevereiro na revista científica Scientific Reports e reúne nove pesquisadores do Egito, do Brasil, da Espanha e da República Tcheca.

O teste não foi feito em pessoas nem em animais. Os cientistas trabalharam com células cultivadas em placas de vidro, o primeiro degrau de qualquer pesquisa de medicamento. Nessas placas, o vírus deixa marcas visíveis onde destrói as células. Contar essas marcas antes e depois do tratamento é a forma clássica de medir se uma substância funciona contra o vírus. Foi assim que apareceu o número: onde havia cem marcas, sobraram sete.

A substância testada é um grupo de compostos chamados ácidos galoilquínicos. Eles estão nas folhas da árvore e vêm sendo estudados há mais de dez anos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, da USP, que é referência no país em plantas do gênero Copaifera. As folhas usadas no experimento saíram do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Segurança para a célula

O resultado que mais chamou atenção não foi só a queda no número de vírus. Foi a distância entre a dose que combate o vírus e a dose que começa a fazer mal à célula.

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O extrato passou a atacar o coronavírus a partir de 3,81 microgramas por mililitro, uma quantidade muito pequena. Só a partir de 387,7 microgramas por mililitro é que ele começou a matar as células saudáveis. A diferença é de cerca de cem vezes. Em pesquisa de medicamento, essa margem é o que separa um candidato promissor de uma substância que mata o vírus e o paciente junto.

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Os cientistas também separaram o momento em que o extrato age. Em um dos testes, trataram as células antes de colocar o vírus: a entrada do coronavírus caiu 80%. Em outro, deixaram o vírus entrar primeiro e só depois aplicaram o extrato: a multiplicação dentro da célula caiu 85,6%. Em um terceiro, misturaram extrato e vírus fora da célula: 87,8% das partículas virais perderam a capacidade de infectar.

Atacar em várias frentes é o argumento central do estudo. “Um aspecto importante é o mecanismo multialvo do composto, o que reduz a probabilidade de desenvolvimento de resistência. Isso porque muitos antivirais atuais agem apenas sobre uma proteína viral, o que favorece esse efeito”, afirmou o farmacêutico Jairo Kenupp Bastos, professor da faculdade da USP e coautor do trabalho, em texto divulgado pela Agência FAPESP.

A lógica é a seguinte: quando um remédio ataca um único ponto do vírus, basta uma mutação naquele ponto para o remédio deixar de funcionar. Se o ataque vem de três lados, o vírus precisaria mudar em três lugares ao mesmo tempo.

O que o estudo ainda não mostrou

O título do artigo científico promete duas travas contra o vírus: uma na espinha da proteína que o coronavírus usa para grudar na célula, a Spike, e outra na enzima que ele usa para copiar o próprio material genético lá dentro. Só a primeira foi medida em bancada.

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Sobre a Spike, houve teste: o extrato reduziu em quase 40% o encaixe entre a proteína do vírus e a porta de entrada da célula humana. A trava na enzima copiadora, por outro lado, saiu de simulação de computador. O programa calculou que a molécula se encaixa no ponto certo da enzima e obteve uma pontuação alta, mas ninguém testou a enzima em tubo de ensaio. A previsão combina com a queda de 85,6% na multiplicação do vírus observada nas células, e é só isso que se pode afirmar até aqui.

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O vírus usado também merece atenção. Trata-se de uma amostra isolada em 2020, antes da chegada da variante Ômicron e das linhagens que circulam hoje. Como essas versões mais novas acumulam mutações justamente na Spike, o efeito medido pode não se repetir contra o coronavírus atual. Os próprios autores reconhecem isso no artigo.

E há uma comparação que não fecha dentro do próprio texto científico. Em uma parte, os pesquisadores apresentam a margem de segurança do extrato como superior à do remdesivir, o antiviral usado em hospitais. Páginas depois, citam um estudo de 2020 em que o remdesivir aparece com margem quase três vezes maior e potência seis vezes superior à do extrato. Os autores avisam que essas comparações servem apenas como indicação.

O papel brasileiro e o caminho à frente

A parte experimental do trabalho foi feita no Egito. Rasha El-Morsi, da Delta University for Science and Technology, e Lamiaa Al-Madboly, chefe do Departamento de Microbiologia da Universidade de Tanta, desenharam e conduziram os testes. A extração e a identificação química dos compostos ficaram com Mohamed Abd El-Salam, que fez doutorado na USP e hoje trabalha entre a universidade egípcia e a Pompeu Fabra, em Barcelona.

O Brasil entrou com a matéria-prima, com o conhecimento acumulado sobre a planta em Ribeirão Preto e com o financiamento, por meio de um auxílio da FAPESP concedido em 2011 para estudar extratos de Copaifera.

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“A abordagem integrada nos permitiu compreender não apenas como os compostos funcionam, mas também como atuam em nível molecular”, disse Abd El-Salam à Agência FAPESP.

Entre o resultado de placa de vidro e um remédio de farmácia há uma sequência longa: testes em animais, avaliação de toxicidade, definição de dose e formulação, e três fases de ensaios em seres humanos. Nada disso foi feito. O que existe hoje é um ponto de partida químico extraído de uma árvore que só nasce no Brasil.

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