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Cuiabá, um revival: uma cidade contra o esquecimento

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No início da semana, chegou-me, por Sedex, gentilmente enviado pelo próprio autor, o livro Cuiabá – um revival, lançado pela renomada Editora Entrelinhas, de João Batista de Almeida. Na dedicatória, o Dr. João Batista escreveu que me oferecia “uma recordação da Cuiabá de outrora”. Senti-me verdadeiramente honrado com o presente. Terminada a leitura, porém, percebi que tinha nas mãos algo maior do que uma lembrança em forma de livro.Há obras que contam a história de uma cidade. Outras descrevem seus monumentos, registram personagens ou procuram salvar do esquecimento tradições ameaçadas. Cuiabá, um revival faz tudo isso ao mesmo tempo, sem transformar a cidade em peça de museu. Cuiabá emerge do livro com movimento, voz, humor, sotaque, música e contradição. É uma cidade habitada, não apenas catalogada.O Dr. João Batista reúne condições raras para essa empreitada. Cuiabano, Procurador de Justiça aposentado, foi Procurador do Estado de Mato Grosso, vereador pela capital, professor e diretor da Escola Superior do Ministério Público. Organizou publicações jurídicas, escreveu o Manual do Tribunal do Júri e integra a Academia Mato-grossense de Letras. No livro, é difícil separar o jurista do professor, e o professor do homem profundamente ligado à terra onde nasceu.Para quem, como eu, integra o Ministério Público de Mato Grosso, a leitura possui ainda uma dimensão afetiva. João Batista deixou sua marca na Instituição e na formação de seus quadros. Ver esse mesmo espírito de professor agora dedicado à memória de Cuiabá mostra que seu legado jamais esteve confinado aos autos de um processo.O escritor Aclyse de Mattos, no prefácio, define bem a obra ao chamá-la de “revoo”. João Batista sobrevoa tempos diversos, pousa em lugares, pessoas e acontecimentos e traz do passado aquilo que considera digno de sobreviver. Não pretende oferecer um mapa exaustivo da cidade. É a Cuiabá que conheceu, estudou e guardou — mas também aquela em que muitos leitores reconhecerão uma rua, um costume, uma expressão ou um personagem quase esquecido.O percurso começa antes da Cuiabá que conhecemos. Passa pelas bandeiras, pela presença indígena, pela mineração e pelo ouro. Reaparecem Pascoal Moreira Cabral e Miguel Sutil, as primeiras povoações, as lavras e a elevação, em 1727, a Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. João Batista, porém, não se limita aos grandes marcos. Segue o córrego da Prainha, entra nas igrejas e praças, recupera construções e espaços que ajudaram a formar a paisagem e a vida social da capital. As fotografias têm papel decisivo. Funcionam como documento, não como ornamento. Casarões, ruas, igrejas, estabelecimentos e edifícios desaparecidos ou transformados permitem colocar lado a lado diferentes Cuiabás. Surge daí uma percepção incômoda: uma cidade muitas vezes perde algo antes de compreender o valor do que perdeu.Nesse sentido, o livro também é uma reflexão sobre patrimônio. João Batista registra a demolição da antiga Catedral, em 1968, e outras mudanças urbanas que apagaram referências importantes. Ao mesmo tempo, lembra instituições e lugares que ainda preservam parte dessa memória. Fica uma pergunta válida para qualquer cidade brasileira: quanto de identidade aceitamos sacrificar em nome da próxima ideia de modernidade?Um dos trechos mais interessantes trata da origem da palavra Cuiabá. O autor percorre hipóteses como o bororo Ikuíapá, relacionado à pesca com flecha-arpão, e o guarani Cuyaverá. Mais do que curiosidade etimológica, a discussão revela povos, línguas e encontros culturais presentes na formação da cidade.Do nome ao sotaque é um passo natural. João Batista trata o falar cuiabano não como desvio de um português “correto”, mas como testemunho histórico. Isolamento geográfico, presença indígena, falar caipira trazido pelos bandeirantes e contato com o castelhano ajudaram a formar uma maneira particular de pronunciar, construir frases e nomear o mundo. Expressões como “malemá tentenó” mostram, com a força que só um exemplo concreto possui, que a língua também guarda memória. Maria Taquara, Jejé de Oyá e Mãe Bonifácia surgem ao lado de lendas como a do Minhocão do Pari. O livro compreende que a memória de uma cidade também se constrói a partir de personagens, histórias e lendas preservados no imaginário popular.Mãe Bonifácia, por exemplo, reaparece no livro em uma dimensão humana que o simples nome do parque já não revela: a mulher negra associada às ervas, às curas e à memória de descendentes de escravizados. Jejé de Oyá ressurge como personagem irreverente, ligado ao colunismo social e ao carnaval. São histórias que devolvem rosto àquilo que o tempo tende a converter apenas em nome.A música ocupa espaço igualmente importante. O rasqueado, seus compositores e intérpretes atravessam as páginas, mostrando como uma expressão musical pode se transformar em sinal de pertencimento. A canção do “pau rodado” exemplifica bem como música, linguagem e identidade podem se fundir. Ao lado da tradição, iniciativas contemporâneas deixam claro que essa história não terminou.Da música às festas populares, a passagem é quase natural. A Festa do Divino, a de São Benedito, o cururu, o siriri, a viola de cocho, a cerâmica e o trabalho dos ribeirinhos formam um patrimônio que existe menos nos conceitos acadêmicos do que na vida cotidiana.Essa mesma vida comunitária reaparece nos antigos carnavais, em seus clubes, corsos e blocos, e nos estabelecimentos que marcaram gerações. João Batista recupera uma sociabilidade construída nas ruas, nos encontros e na convivência — uma forma de viver a cidade que não pode ser reconstruída apenas com concreto e arquitetura.A sociabilidade das ruas encontra outra expressão nos meios pelos quais Cuiabá passou a falar consigo mesma. A comunicação constitui um capítulo precioso dessa memória. O autor retorna ao início da radiofonia cuiabana, acompanha emissoras, programas e locutores e recorda um tempo em que o rádio fazia parte do relógio das famílias. Depois vêm a televisão e a imprensa escrita. É, em certa medida, a história de como Cuiabá aprendeu a conversar consigo mesma.Mas uma cidade não se expressa apenas pela palavra transmitida. Também se reconhece naquilo que encena, pinta, fotografa e filma. Teatro, artes visuais, fotografia e cinema recebem atenção semelhante. Zulmira Canavarros aparece como referência incontornável do teatro cuiabano; nomes como Gervane de Paula, Dalva de Barros e Aline Figueiredo ajudam a revelar a força das artes visuais. O cinema, por sua vez, liga passado e presente: do Cine Teatro Cuiabá, do Cine São Luiz e do Cine Bandeirantes aos realizadores contemporâneos. João Batista mostra, assim, como diferentes gerações fizeram de Cuiabá não apenas cenário, mas matéria de criação.As páginas sobre o Cine Tropical são particularmente evocativas. A arquitetura, o jardim de inverno, os lustres, a atmosfera: o autor não se contenta em dizer que o cinema existiu; quase nos conduz para dentro dele. Ao mesmo tempo, as referências à produção audiovisual contemporânea mostram que esse revival não é despedida, mas ligação entre tempos.Do palco, das telas e das salas de cinema, o olhar se desloca para outra forma de paixão coletiva. O futebol, indispensável à memória da Cuiabá do século XX, também encontra seu lugar. Rivalidades entre clubes, arquibancadas, o velho Dutrinha e a mobilização que resultou no Verdão permitem perceber que um jogo de futebol também pode contar a história de uma comunidade.A cidade que se reúne para torcer é também aquela que ocupa as ruas para celebrar. Entre os registros fotográficos, destacam-se as comemorações dos 250 anos de Cuiabá, em 1969, com procissão, carros alegóricos e o célebre bolo em forma de obelisco. As imagens mostram mais do que uma festa: registram roupas, gestos e maneiras de ocupar o espaço público. Da rua e das grandes celebrações, o livro chega à mesa. A culinária também é memória. Maria-isabel, paçoca de pilão, arroz com pequi, peixes, farofa de banana, bolo de arroz, bolo de queijo, pixé. O que uma comunidade come diz tanto sobre ela quanto aquilo que fala ou canta.Da intimidade da mesa, o olhar se abre novamente para a vida pública. A vida política cuiabana aparece por meio de personagens que atravessaram a história local e nacional. Entre eles, Dante de Oliveira ocupa posição especialmente simbólica por ter levado, a partir de Mato Grosso, seu nome à história democrática brasileira.Em outro plano está Cândido Mariano da Silva Rondon, um dos grandes nomes da história de Mato Grosso. Sua trajetória ultrapassa os limites do Estado e se liga à integração territorial do Brasil, à expansão das comunicações pelo interior do país e à relação com os povos indígenas. Sua presença reforça a amplitude do olhar de João Batista, que parte de Cuiabá para alcançar capítulos relevantes da própria história brasileira.E, se a vida pública registra parte da história visível de uma sociedade, a literatura preserva algo mais íntimo: a maneira como essa terra foi sentida, imaginada e transformada em linguagem. Na literatura, o livro atinge uma de suas dimensões mais ricas. João Batista reúne Tereza Albues, Ricardo Guilherme Dicke, Silva Freire, Manoel de Barros e outros autores que fizeram de Mato Grosso matéria literária sem jamais se deixarem limitar por suas fronteiras. Não se trata de um catálogo de escritores. O autor apresenta trajetórias e excertos que permitem que a própria literatura explique a cidade e o Estado.Tereza Albues mostra uma literatura mato-grossense capaz de atravessar fronteiras; Ricardo Guilherme Dicke demonstra que o universal pode nascer no interior do Brasil; Manoel de Barros transforma o pequeno em território infinito; Silva Freire encontra na própria Cuiabá matéria de poesia, crítica e pertencimento.Entre as figuras destacadas pelo livro está Glória Albues, considerada a primeira documentarista de Mato Grosso. Roteirista e diretora de cinema e televisão, dirigiu o Teatro Universitário e a TV Universidade da UFMT e construiu uma filmografia ligada à cultura, aos personagens e às paisagens de Mato Grosso. Entre seus trabalhos estão PS: Glauber Te Vejo em Cuiabá, O Canavial, A Trama do Olhar, Manoel Chiquitano Brasileiro, Albuesas, Itinerário de Cicatrizes e O olhar de Antonio, alguns deles premiados nacionalmente.E aqui reside, para mim, uma das maiores virtudes da obra. Não nasci em Cuiabá. Para quem nasceu na capital, muitas dessas páginas certamente carregam o sabor do reconhecimento: uma rua frequentada, uma voz ouvida no rádio, um cinema da juventude, uma expressão aprendida em casa. Para quem veio de fora, a experiência é diferente e igualmente valiosa. O livro oferece acesso a uma memória que inicialmente não nos pertencia. Permite compreender de que matéria histórica, linguística, cultural e afetiva foi feita a capital de Mato Grosso.Li muitas dessas histórias não como quem reencontra uma lembrança, mas como quem é apresentado a ela. E talvez seja justamente aí que se revele a dimensão mais generosa de Cuiabá, um revival: João Batista não escreve apenas para aqueles que se lembram. Escreve também para aqueles que precisam conhecer.Há, sem que o autor precise formulá-la, uma ideia que atravessa todo o livro: uma cidade só existe plenamente quando consegue contar uma história sobre si mesma. Prédios caem, cinemas fecham, córregos desaparecem sob avenidas, o rádio muda de frequência, expressões deixam de ser pronunciadas, fotografias amarelecem. Quando ninguém registra essas mudanças, uma parte da cidade desaparece duas vezes: primeiro da paisagem, depois da lembrança.É esse segundo desaparecimento que João Batista de Almeida impede.E o faz sem transformar o passado em paraíso. O livro registra também escravidão, preconceito, destruição do patrimônio e desigualdade. A Cuiabá festiva e musical convive com as cicatrizes de sua formação.A obra funciona, assim, simultaneamente como história, crônica, álbum de família, inventário cultural e antologia literária. Ao final, um desenho do Beco do Candeeiro, de Moacyr Freitas, e uma observação de Manoel de Barros encerram com delicadeza um livro capaz de fazer os mais velhos reencontrarem uma cidade e os mais jovens — ou aqueles que chegaram depois — descobrirem aquela que existiu antes deles.Receber o livro por Sedex, enviado diretamente pelo Dr. João Batista, tornou a leitura ainda mais especial. Há algo bonito no gesto de quem dedicou boa parte da vida ao serviço público e, na aposentadoria, decide entregar às gerações seguintes aquilo que guardou de sua cidade. Cuiabá, um revival é também uma forma de continuar servindo.Considero Cuiabá, um revival uma obra-prima da memória cuiabana, sem receio de exagero. Não pela quantidade de temas, mas pela maneira como demonstra que todos pertencem à mesma história. O falar cuiabano encontra o rasqueado; o rasqueado, o carnaval; o carnaval, o rádio; o rádio, o futebol; e a mesma cidade reaparece nas mãos de seus fotógrafos, artistas e escritores.É Cuiabá explicando Cuiabá.Este livro não deveria interessar apenas a quem nasceu na capital. Interessa a todo mato-grossense e, em sentido mais amplo, a qualquer pessoa que compreenda que a identidade brasileira é feita justamente dessas histórias regionais que o tempo ameaça uniformizar. Preservar a memória de Cuiabá é preservar parte da memória de Mato Grosso; preservar a memória de Mato Grosso é preservar parte da história do Brasil.A leitura de Cuiabá, um revival é, por tudo isso, mais do que recomendável. Diria mesmo obrigatória para quem tem compromisso com a gente mato-grossense — e sabe que um povo só reconhece para onde vai quando ainda é capaz de lembrar de onde veio.

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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Júri condena quatro réus por execução ligada a facção

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O Tribunal do Júri de Sorriso condenou, nesta terça-feira (1º), Alison Antônio Silva Vieira, Max Matos de Sousa, Eduardo Vieira da Conceição e Willian da Silva Soares pelo assassinato de Maurício dos Santos Silva de Araújo, ocorrido em janeiro de 2024.Os quatro foram condenados por homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e corrupção de menores. Alison, Max e Eduardo também foram condenados por integrarem organização criminosa. As penas aplicadas aos quatro réus somam 110 anos de prisão.Segundo a investigação, o crime ocorreu em contexto de atuação do Comando Vermelho (CV) e foi motivado pela suspeita de que Maurício pertencesse ao Primeiro Comando da Capital (PCC), facção rival. A desconfiança surgiu a partir de uma tatuagem no peito da vítima, interpretada pelos envolvidos como indicativo de ligação ao grupo adversário.A partir dessa suspeita, Max, Willian e um adolescente conduziram Maurício à força para uma quitinete. No local, a vítima foi dominada e amarrada, passando a ser interrogada e agredida. Eduardo chegou à quitinete, também interrogou Maurício sobre a suposta ligação com a facção rival e ajudou nas agressões.Na sequência, o grupo levou Maurício para um terreno baldio, onde Alison se juntou aos demais e realizou uma chamada de vídeo com outros integrantes da organização criminosa, enquanto a vítima continuava sendo interrogada sobre sua suposta vinculação ao PCC. Ainda amarrado os faccionados bateram com pedaço de madeira na cabeça de Maurício que veio a óbito. O exame pericial apontou traumatismo craniano provocado por ação contundente como causa da morte.Após o homicídio, o corpo foi transportado e lançado no Rio Lira, em Sorriso, com a finalidade de ocultá-lo. Na manhã seguinte, o cadáver foi localizado preso a galhadas. Maurício estava amordaçado e com os pés amarrados. O Conselho de Sentença reconheceu que o homicídio foi praticado por motivo torpe, com emprego de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. O motivo torpe decorreu do contexto de disputa entre facções criminosas e da suspeita de que Maurício pertencesse a um grupo rival. O meio cruel foi reconhecido em razão da sequência de submissão, interrogatórios e agressões imposta à vítima antes da morte. Já o recurso que dificultou a defesa decorreu das circunstâncias em que Maurício permaneceu amarrado, subjugado e em inferioridade diante do grupo.Os jurados também reconheceram os crimes de ocultação de cadáver, pelo lançamento do corpo no Rio Lira após o homicídio, e de corrupção de menores, em razão da participação de um adolescente na ação criminosa.Alison Antônio Silva Vieira foi condenado a 36 anos de prisão pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, organização criminosa e corrupção de menores.Max Matos de Sousa e Eduardo Vieira da Conceição foram condenados pelos mesmos crimes, cada um à pena de 25 anos e 10 meses de prisão.Willian da Silva Soares foi condenado a 22 anos e quatro meses de prisão por homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e corrupção de menores.Ao comentar o resultado do julgamento, o promotor de Justiça Luiz Fernando Rossi Pipino destacou a importância do enfrentamento institucional às organizações criminosas. “Não vamos admitir que organizações criminosas imponham suas próprias leis, promovam julgamentos clandestinos e decidam quem pode viver ou morrer. O Estado não pode recuar diante das facções. O enfrentamento ao crime organizado será firme, permanente e dentro da lei”, declarou.

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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