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Ciência

Gel de aranha-armadeira para disfunção erétil poderá substituir Viagra

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Molécula BZ371A atua por via diferente do Viagra e conclui estudo clínico de fase 2 com homens pós-prostatectomia

Uma terapia tópica desenvolvida a partir de um peptídeo sintético da aranha-armadeira brasileira concluiu a fase 2 de testes clínicos para o tratamento da disfunção erétil. A molécula BZ371A, de aplicação local e sem exposição sistêmica relevante, demonstrou resultados iniciais no restabelecimento da função sexual em pacientes submetidos à cirurgia de retirada da próstata.

O medicamento experimental, originado de pesquisas lideradas pela neurocientista Maria Elena de Lima Perez Garcia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e licenciado para a empresa Biozeus, representa a tentativa de converter a biodiversidade nacional em inovação farmacêutica. Embora tenha mecanismo de ação distinto dos inibidores de PDE5, classe de medicamentos que inclui o sildenafil, o produto ainda carece de aprovação sanitária e de comprovação de superioridade terapêutica em populações com risco cardiovascular.

Da biodiversidade nacional à patente

A base científica do BZ371A tem origem em pesquisas conjuntas da UFMG e da Fundação Ezequiel Dias (Funed) sobre as toxinas da Phoneutria nigriventer, conhecida como aranha-armadeira. A partir de fragmentos menos tóxicos associados ao priapismo provocado pelo veneno bruto, a equipe de cientistas desenvolveu o peptídeo sintético PnPP-19. O desenvolvimento alcançou o ambiente regulatório de patentes com depósitos no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) identificados sob as numerações BR1020130205745 e BR1020130205737, além de pedido via Tratado de Cooperação em Matérias de Patentes (PCT) para composição e uso.

O avanço da bancada do laboratório para o setor produtivo ocorreu mediante um contrato de licenciamento da tecnologia, envolvendo UFMG, Funed, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e a empresa Biozeus. Documentação pública da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT) da UFMG registra o ativo como exclusivo e datado de 22 de dezembro de 2016. Um sistema institucional atualizado da universidade em 15 de abril de 2026 lista 22 patentes associadas ao peptídeo PnTx(19) e seus inventores.

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Mecanismo de ação e testes de segurança

A tecnologia patenteada propõe um mecanismo de ação que atua a montante das terapias convencionais para disfunção erétil. Enquanto os inibidores de PDE5 operam reduzindo a degradação do monofosfato de guanosina cíclico (cGMP) para facilitar a ereção, a plataforma BZ371 atua estimulando diretamente a via do óxido nítrico e do cGMP no tecido cavernoso. A administração é local e, de acordo com a empresa licenciada, não apresenta exposição sistêmica.

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O trâmite para testes em humanos iniciou-se formalmente com o registro no Boletim de Pesquisa Clínica nº 23 de 2022 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O protocolo de fase 1, identificado como BZ371CLI003 (NCT05332340), avaliou a segurança clínica e a coleta farmacocinética. O estudo aberto envolveu dose única em 12 participantes saudáveis, sendo seis homens e seis mulheres, mediante aplicação genital de 1,5 mL de gel na concentração de 5 mg/mL.

Eficácia em pacientes pós-prostatectomia e mulheres

A progressão para aferição de eficácia focou inicialmente no grupo de homens com disfunção erétil secundária à cirurgia de prostatectomia. Um resumo científico publicado no Journal of Sexual Medicine em 3 de fevereiro de 2026 descreveu o desenho do estudo de fase 2, que randomizou 72 pacientes, após a triagem de 120 homens. O ensaio dividiu os participantes em três braços de tratamento por 60 dias: BZ371A associado ao tadalafil, BZ371A com placebo oral e placebo tópico com tadalafil. A publicação registra a ausência de eventos adversos graves relacionados ao produto investigacional.

Dados adicionais sobre a eficácia clínica circulam em divulgações empresariais. Relatório da empresa Another Day Pharma, divulgado em 2025, descreve resultados da fase 2 em 74 homens com idades entre 40 e 68 anos. Segundo o documento, a combinação de BZ371A e tadalafil apresentou taxa de sucesso de 38% em 30 dias de uso, contra 4% no grupo que utilizou apenas tadalafil. Em regime de monoterapia, o BZ371A obteve 15% de eficácia em 30 dias, também contra 4% do placebo. O seguimento de 60 dias da combinação registrou 32% contra 13%. O sucesso foi medido pelo aumento superior a quatro pontos no Índice Internacional de Função Erétil (IIEF).

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O desenvolvimento clínico da molécula abrange também o público feminino. Boletim da Anvisa de 2024 formalizou o protocolo BZ371CLI601 (NCT06116045). A página institucional da Biozeus comunica que a fase 2a em mulheres diagnosticadas com transtorno de interesse/excitação sexual feminina (FSIAD) foi concluída, repetindo o status do estudo em homens pós-prostatectomia.

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Restrições cardiovasculares e cenário regulatório

Apesar do avanço clínico, não há base pública ou estudo consolidado que ateste que o BZ371A apresente superioridade de segurança em relação ao Viagra para pessoas com doença cardíaca confirmada. Embora a via tópica evite efeitos sistêmicos e o mecanismo difira dos inibidores de PDE5, os ensaios clínicos realizados excluíram de suas amostras os perfis cardiovasculares de maior risco, a exemplo de pacientes usuários de nitratos ou com histórico recente de problemas cardíacos graves.

O medicamento não possui aprovação comercial no Brasil. Até 30 de maio de 2026, inexistem registros públicos de aprovação sanitária definitiva, publicação de bula, estabelecimento de preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) ou previsão oficial para a chegada do produto às prateleiras.

A mais recente movimentação burocrática rastreável remete a uma atualização em base aberta da Anvisa datada de 27 de abril de 2026, vinculada ao protocolo clínico BZ371CLI004. O documento integral apresentou falha de acesso durante a apuração, configurando-se como indício de continuidade cadastral das pesquisas e não como liberação para consumo no mercado.

 

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