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Escândalo Prisional em Mato Grosso

O nexo causal da dor: como a perícia desvendou o crime na Ferrugem

Auditoria revela que a gestão da Ferrugem ameaçou o juiz da inspeção e apagou vídeos para esconder tortura comprovada por laudos.

Publicado em

Presídeio Ferrugem MT
A inspeção judicial na Ferrugem revelou um cenário de intimidação contra o próprio magistrado.

A história recente de Sinop, no interior de Mato Grosso, ganhou um capítulo sombrio após o violento incidente ocorrido no dia 26 de outubro de 2025. Um embate entre detentos e forças de segurança na Penitenciária “Ferrugem” motivou uma intervenção imediata do Poder Judiciário. O que começou como uma ação para restaurar a ordem após um motim, tornou-se um complexo caso de investigação criminal. Atualmente, o processo foca no descompasso entre o discurso oficial da gestão e as evidências físicas. A administração prisional removeu 40 minutos de história das gravações internas, mas esqueceu de remover as cicatrizes e feridas abertas que a perícia médica encontrou nos corpos 48 horas depois.

Entenda o caso: do motim à inspeção judicial

O conflito estourou em um cenário de tensão acumulada, resultando em um embate direto entre as equipes de contenção e os custodiados da unidade. Por causa da gravidade dos relatos de abusos, a justiça determinou uma inspeção forense para avaliar a conduta da gestão e a integridade dos presos. A inspeção identificou elementos de prova que apontam para crimes graves cometidos, em tese, pela cúpula da unidade prisional mato-grossense.

De acordo com o relatório, o Diretor A.D.O. é acusado de agressão física e tortura direta contra os internos. Um dos detentos relatou que “foi asfixiado pessoalmente pelo Diretor A.D.O. que esguichava gás na mão e o pressionava contra seu rosto, fazendo-o desmaiar”. Além disso, o documento aponta que o Diretor teria entrado no local “chutando vários presos” e efetuado disparos com munição letal na quadra da unidade. Em um gesto de desafio à autoridade judicial, A.D.O. teria afirmado: “Aquele O. P. é um desembargador de merda. Não adianta vocês virem com Desembargador ou com quem quer que seja, pois quem manda nessa cadeia sou eu e ninguém me tira daqui”. O relatório também destaca que o Diretor participava dos procedimentos utilizando balaclava para esconder sua identidade.

Paralelamente, o Subdiretor A.C.N. é apontado como coordenador operacional das ações violentas. De acordo com o relatório, ele ingressava nos corredores acionando o rádio para orientar a repressão. Um dos presos afirmou que “A.D.O. e A.C.N. passaram spray de pimenta no seu olho e ficou atordoado”. A crueldade nos diálogos também impressionou os peritos. Ao ser avisado que um detento corria risco de morte, A.C.N. teria respondido: “Se você morrer aí dentro, amanhã eu tomo cerveja”. Após os depoimentos, o Subdiretor teria ameaçado um interno dizendo que ele “pagaria o que fez e que seria morto dentro da unidade”.

Dados da inspeção: o raio-x estatístico de 2025

A amostragem utilizada pela equipe de inspeção confere alta confiabilidade aos resultados. Por isso, os números revelam uma política de estado dentro da unidade.

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RAIO-X ESTATÍSTICO: INSPEÇÃO PENITENCIÁRIA FERRUGEM (2025)

  • Infraestrutura: A unidade abriga 1.595 presos para uma capacidade de 1.328 vagas. Isso representa uma superlotação de 20%.

  • Metodologia: Foram realizadas 126 oitivas individuais e 93 perícias requisitadas. Até o momento, 50 laudos foram analisados detalhadamente.

  • Anatomia da violência: Em 98% da amostra pericial, foram identificadas marcas de balas de borracha.

  • Mordedura canina: A perícia confirmou lesões profundas em detentos como A.M.S. e L.A.G.

  • Manipulação: O “apagão” digital de 40 minutos ocorreu exatamente no ápice do conflito.

Os números do silêncio: o que a inspeção revelou

A inspeção detalhou dados estatísticos que desenham o tamanho da irregularidade na unidade e a quebra de lisura no procedimento de contenção. A análise técnica cruzou as horas de gravação com os prontuários médicos, gerando dados fundamentais para o entendimento do caso pelos órgãos de controle.

Indicador Técnico Dado Constatado
Tempo suprimido 40 minutos exatos de “apagão” manual nos servidores.
Alcance da perícia 100% dos detentos do raio afetado foram examinados.
Índice de lesões 85% dos detentos apresentavam marcas de agressão recente.
Janela temporal Marcas documentadas 48 horas após o incidente.

Esses números mostram que a perda de dados não foi um acidente, mas uma estratégia de ocultação. Por causa disso, a tese de “falha técnica” perde sustentação diante da gravidade das feridas que persistiram mesmo dois dias após o ocorrido.

“Policiais bons”: o equilíbrio entre a ordem e o abuso

Um ponto crucial revelado pela inspeção é a diferenciação de conduta feita pelos próprios detentos sobre o corpo funcional da unidade. De acordo com o relatório, a violência não é uma prática unânime entre todos os agentes penais que trabalham na Ferrugem. A auditoria isolou depoimentos que provam a existência de profissionais que atuam com respeito e moderação, sendo reconhecidos pelos internos.

A detenta R.N. citou especificamente o plantão do policial N. como um exemplo de conduta correta e profissional. Da mesma forma, o interno R.R. reconheceu em seu depoimento que “há agentes que atuam com respeito e moderação” durante os procedimentos de rotina. Outro custodiado, I.C., afirmou categoricamente que existem policiais que “só fazem seu trabalho” e, por isso, são respeitados pela massa carcerária. Essas falas demonstram que o resultado da inspeção não deve manchar a imagem de todo o corpo prisional, mas sim focar naqueles que extrapolaram os limites da lei.

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A falha na cadeia de custódia lógica

A inspeção técnica concluiu que houve uma manipulação deliberada das provas digitais, configurando fraude processual. O nexo causal foi segmentado por evidências temporais, espaciais e fisiológicas. O “apagão” ocorreu entre 18:29:25 e 19:10:00, justamente no ápice da tensão operacional. Antes do corte, as imagens mostram disparos iniciais e bombas no corredor. Após o retorno, os presos já aparecem em pânico, mancando, em meio a um “corredor polonês” de agressões e uso de cães.

De acordo com o relatório, as lesões de 26/10/2025 coincidem exatamente com o local onde as câmeras foram cortadas. Na cela 31, M.R.S. apresentou lesões circulares após relatar disparos de bala de borracha no período ocultado. D.J.F. teve feridas contusas confirmadas após policiais atirarem pelas “boquetas”. Na cela 30, E.K.G.S. sofreu chutes e murros durante a suposta busca por uma lanterna. L.H.A., da cela 29, foi atingido por bala de borracha em retaliação a protestos contra a tortura de um colega.

RELATÓRIO INSPEÇÃO REALIZADA DA PENITENCIÁRIA DR. OSVALDO FLORENTINO LEITE FERREIRA (FERRUGEM) EM SINOP/MT.

Na área da quadra, A.M.S. apresentou uma ferida por mordedura canina. Ele relatou que o policial “B.B.” soltou o cachorro contra ele no domingo. Por causa disso, a equipe de inspeção concluiu que a descontinuidade das imagens foi uma estratégia de ocultação. Os policiais buscavam “pontos cegos” deliberados e usavam balaclavas para evitar flagrantes. O magistrado registrou que a combinação de cortes indica que “os fatos podem ter sido mais graves do que os registrados”. As lesões documentadas são a prova biológica do que ocorreu durante o silêncio digital de 40 minutos.

Policiais investigados anteriormente permaneceram trabalhando normalmente dentro da unidade

A inspeção revelou um dado alarmante sobre a reincidência de condutas abusivas. O relatório constatou que a tortura na Ferrugem não é um desvio individual, mas uma política de gestão consolidada. Comparando com a inspeção de 2020, quando 93 % dos presos relataram tortura sistemática, os métodos permanecem idênticos. Os mesmos nomes surgem como protagonistas de práticas cruéis contra os custodiados.

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Os agentes M.S. e P.C., conhecido como “PC”, já eram alvos de denúncias graves no passado. Apesar disso, eles continuaram exercendo suas funções na linha de frente dos procedimentos disciplinares. De acordo com o relatório, esses servidores utilizam técnicas conhecidas como “chantilly” e “latão”. Além disso, eles são apontados como responsáveis por disparos efetuados pelas “boquetas” das celas. Por causa dessa impunidade, segundo o relatório, o sistema permitiu que um poder paralelo se instalasse no presídio de Sinop nos últimos cinco anos.

O cerco à magistratura: ameaças e intimidação durante a inspeção

A ousadia da gestão não se limitou ao tratamento dado aos detentos. Durante o procedimento, o magistrado responsável pela inspeção foi alvo de uma tentativa sistemática de intimidação. De acordo com o relatório, o Diretor A.D.O. manteve o uso de balaclava mesmo diante da autoridade judicial. Esse gesto buscou ocultar sua identidade e criar um ambiente de hostilidade.

Entretanto, o episódio mais grave de intimidação ocorreu durante uma das audiências de oitiva. Um detento de altíssima periculosidade foi conduzido pela diretoria para ficar frente a frente com o juiz. De forma deliberada, o preso estava sem algemas e sem o “marca-passo” (correntes que limitam o passo). Essa quebra de protocolo de segurança foi vista como uma ameaça velada à integridade física da equipe judicial.

RELATÓRIO INSPEÇÃO REALIZADA DA PENITENCIÁRIA DR. OSVALDO FLORENTINO LEITE FERREIRA (FERRUGEM) EM SINOP/MT.

Consequentemente, o juiz relatou sentir que o ambiente era de “poder paralelo”. As falas do diretor reforçavam esse isolamento institucional. Testemunhas relataram que ele afirmou categoricamente: “Aquele O. P. é um desembargador de merda. Não adianta virem com Desembargador, pois quem manda aqui sou eu”. A coação também atingiu o pós-inspeção. O Subdiretor A.C.N. ameaçou detentos logo após os depoimentos. Ele afirmou que o interno “pagaria o que fez e que seria morto dentro da unidade”.

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juiz relatou sentir que o ambiente era de “poder paralelo”, onde a presença do Judiciário era vista como uma intrusão indesejada.

Conclusões da inspeção no Ferrugem

A inspeção oficial encerrou o relatório com determinações contundentes que desarmam a tese de “falha técnica”. De acordo com o documento, a equipe de inspeção concluiu que a descontinuidade das imagens “não foi um erro técnico isolado, mas uma estratégia de ocultação”. O magistrado registrou que a combinação de cortes e o uso de balaclavas indica que “os fatos podem ter sido mais graves do que os registrados”.

Além disso, a inspeção identificou “pontos cegos deliberados”, onde policiais buscavam se posicionar fora do ângulo das câmeras para evitar flagrantes de maus-tratos. O veredito da auditoria afirma que as lesões documentadas nos laudos periciais são a “prova biológica do que ocorreu durante o ‘apagão’ de 40 minutos”. Consequentemente, a inspeção oficial atesta que a seletividade do corte de vídeo ocorreu no momento de maior violência para ocultar a autoria direta das lesões.

O que vem agora?

Diante da gravidade dos fatos, o juiz responsável pela inspeção determinou providências imediatas para estancar a crise. Em primeiro lugar, foi ordenado o afastamento cautelar do Diretor A.D.O. e do Subdiretor A.C.N. de suas funções. O magistrado também requisitou a abertura de um inquérito policial específico para apurar os crimes de tortura e fraude processual.

Além disso, a Secretaria de Segurança (SESP) deve realizar uma intervenção técnica no sistema de monitoramento da unidade. O objetivo é garantir que novos “apagões” não ocorram e que os dados originais sejam recuperados por peritos especializados. Por fim, o juiz determinou proteção especial para os detentos que testemunharam e assistência médica urgente para todos os feridos listados.

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VÁRZEA GRANDE

Prefeitura avança nas obras preparatórias para construção da nova Maternidade de Várzea Grande

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A Prefeitura de Várzea Grande segue avançando nos procedimentos necessários para viabilizar a construção do novo Hospital e Maternidade do município. Entre as medidas previstas está a realização das adequações no terreno onde a unidade será construída. A terraplanagem da área já está em andamento, etapa considerada fundamental para o cumprimento das exigências técnicas estabelecidas no convênio firmado entre a Caixa Econômica Federal e o Ministério da Saúde.

Na semana passada, foi aprovado pela Câmara Municipal o Projeto de Lei nº 125/2026, que autoriza a inclusão de R$ 5,8 milhões no orçamento municipal destinados à área da saúde.

De acordo com o superintendente de Obras da Saúde, Michael Alves, os recursos necessários para a execução dessas intervenções já estão garantidos pela prefeita Flávia Moretti e integram a contrapartida municipal exigida para a implantação do projeto.

“Trata-se de uma contrapartida do Município para a execução da obra da maternidade. O convênio firmado entre a Caixa e o Ministério da Saúde prevê, como pré-requisito, que a Prefeitura disponibilize o terreno e realize as adequações necessárias para garantir as condições adequadas à continuidade da obra da unidade”, explicou.

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A secretária municipal de Saúde, Valéria Nogueira, destacou que a gestão está empenhada em cumprir todas as etapas exigidas para assegurar o andamento do projeto e a concretização de um investimento considerado estratégico para a saúde pública de Várzea Grande.

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“A construção da nova maternidade é uma das prioridades da gestão. Estamos trabalhando de forma integrada para atender a todas as exigências técnicas e legais, garantindo que o projeto avance com segurança e responsabilidade. Essa unidade representará um importante reforço na assistência materno-infantil, ampliando a capacidade de atendimento e oferecendo mais qualidade e dignidade às mães várzea-grandenses”, afirmou a secretária.

A futura maternidade é considerada uma obra estruturante para a rede municipal de saúde e deverá fortalecer o atendimento especializado às gestantes, puérperas e recém-nascidos, contribuindo para a ampliação e qualificação dos serviços ofertados à população.

Com a execução das adequações previstas e a garantia da contrapartida municipal, a Prefeitura avança no cumprimento das exigências do convênio, consolidando mais uma etapa para a concretização de um dos mais importantes investimentos da área da saúde em Várzea Grande.

Fonte: Prefeitura de Várzea Grande – MT

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