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Astronomia

Eclipse com “lua de sangue” poderá ser visto em Mato Grosso

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O céu de agosto reserva dois eclipses, e apenas um deles interessa a quem vai olhar para cima em Mato Grosso. O eclipse solar total do dia 12 fica restrito ao hemisfério norte, sem qualquer visibilidade no Brasil. Já o eclipse lunar da virada de 27 para 28 de agosto será observável de todo o território nacional, a olho nu, sem equipamento e sem precisar sair da cidade.

Em Cuiabá e nas demais cidades do estado, a fase interessante começa às 22h33 do dia 27, quando a sombra da Terra passa a avançar visivelmente sobre o disco lunar. O ponto máximo ocorre às 0h12 do dia 28, já na madrugada de sexta-feira. Os horários seguem o fuso de Mato Grosso, uma hora atrás de Brasília, onde o mesmo instante marca 23h33 e 1h12. A fase parcial se estende por cerca de três horas e 18 minutos.

Tecnicamente, o fenômeno é um eclipse parcial. Na prática, chega perto do limite. Os cálculos da Nasa apontam magnitude umbral de 0,930, o que significa que 93% do diâmetro da Lua entrará na umbra, a parte central e mais escura da sombra terrestre. A porção encoberta não desaparece: ganha um tom avermelhado, resultado da luz solar que atravessa a atmosfera da Terra e é desviada para a superfície lunar.

“Este eclipse será apenas parcial, mas será quase total, já que 93% da Lua vai entrar na sombra escura da Terra”, afirmou a astrônoma Josina Nascimento, do Observatório Nacional, em entrevista divulgada pela instituição.

A posição da Lua no céu favorece o observador brasileiro. No momento de maior cobertura, o satélite estará alto, o que dispensa a busca por mirantes, morros ou horizontes abertos. Um quintal, uma varanda ou uma rua com pouca iluminação artificial bastam. A duração longa também dá margem a nuvens passageiras sem que a observação se perca.

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Por que a Lua fica vermelha

Dentro da umbra, a Lua não fica no escuro absoluto. Ela continua recebendo luz do Sol, só que filtrada pela atmosfera da Terra. O ar espalha os tons azuis e deixa passar os avermelhados — o mesmo processo que tinge o céu no fim da tarde. Essa luz vermelha é desviada pela borda da atmosfera terrestre e vai parar na superfície lunar, o que dá ao disco eclipsado a cor de cobre.

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A intensidade do tom varia. Quanto mais poeira, fumaça e nuvem houver na atmosfera no momento do eclipse, mais escura fica a Lua. Em anos de grandes erupções vulcânicas, o disco chega a quase sumir da vista.

O eclipse lunar só acontece na Lua cheia, quando Sol, Terra e Lua se alinham nessa ordem. Como a órbita lunar é inclinada cerca de cinco graus em relação ao plano da órbita terrestre, o alinhamento perfeito não se repete todo mês — daí a raridade relativa do fenômeno.

A sombra projetada pela Terra tem duas camadas. A penumbra é uma sombra branda, que escurece a Lua de forma quase imperceptível. A umbra é a região central, onde a luz solar direta fica bloqueada. O eclipse penumbral costuma passar despercebido; o parcial e o total acontecem quando a Lua penetra a umbra.

Segundo o Observatório Nacional, este será o último eclipse lunar de grande magnitude visível de todo o país até o fim da década. Os previstos para 2027 são penumbrais. Em 2028, os dois parciais terão coberturas bem menores, inferiores a 3% e a 33%.

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O eclipse do Sol, e por que ele não chega aqui

O fenômeno do dia 12 é de outra natureza. Nele, a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol e projeta uma sombra estreita sobre a superfície do planeta. Só quem está dentro dessa faixa vê o Sol completamente encoberto.

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A trajetória começa no extremo norte da Sibéria, na Rússia, cruza o Oceano Ártico, passa pela Groenlândia e pela Islândia e atinge a Europa continental no fim da tarde. Na Espanha, a faixa de totalidade se estende da costa norte — com Oviedo, A Coruña e Bilbao — até as Ilhas Baleares, e uma pequena área de Portugal também é alcançada. No ponto de maior eclipse, em águas internacionais, a totalidade dura pouco mais de dois minutos.

Fora dessa faixa, o Sol aparece apenas parcialmente coberto. É o caso da França, de boa parte da Europa, do norte da África e de trechos da América do Norte. O Brasil fica fora de qualquer uma das duas condições.

O eclipse solar total resulta de uma coincidência geométrica. O Sol tem diâmetro cerca de 400 vezes maior que o da Lua, mas está aproximadamente 400 vezes mais distante. Os dois discos, vistos da Terra, acabam com tamanho aparente semelhante.

Proteção só é exigida no eclipse solar

A diferença de segurança entre os dois fenômenos é absoluta. O eclipse lunar não oferece risco algum: pode ser acompanhado a olho nu, com binóculo ou telescópio, do começo ao fim.

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Já o eclipse solar exige filtro certificado pela norma ISO 12312-2 ou máscara de solda com vidro número 14. Óculos escuros comuns, chapas de raio X, filmes fotográficos, vidros escurecidos e telas de celular não protegem a retina. A exposição direta sem filtro adequado pode causar lesão permanente na visão.

Quem quiser acompanhar o eclipse solar de longe encontra transmissões ao vivo. A Agência Espacial Europeia exibe o fenômeno em seu canal no YouTube, e o Observatório Nacional também transmite os dois eventos gratuitamente pela mesma plataforma.

CIÊNCIA

Cientistas usam planta brasileira e barram 93% do coronavírus em laboratório

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A copaíba-vermelha, árvore que só existe no Brasil, deu origem a um extrato que impediu o vírus da covid-19 de infectar células em teste de bancada. O estudo saiu na revista Scientific Reports.

Um extrato feito com folhas de copaíba-vermelha barrou 93% do coronavírus em testes de laboratório. A planta, cujo nome científico é Copaifera lucens, só existe no Brasil e cresce em áreas de Mata Atlântica. O trabalho foi publicado em 2 de fevereiro na revista científica Scientific Reports e reúne nove pesquisadores do Egito, do Brasil, da Espanha e da República Tcheca.

O teste não foi feito em pessoas nem em animais. Os cientistas trabalharam com células cultivadas em placas de vidro, o primeiro degrau de qualquer pesquisa de medicamento. Nessas placas, o vírus deixa marcas visíveis onde destrói as células. Contar essas marcas antes e depois do tratamento é a forma clássica de medir se uma substância funciona contra o vírus. Foi assim que apareceu o número: onde havia cem marcas, sobraram sete.

A substância testada é um grupo de compostos chamados ácidos galoilquínicos. Eles estão nas folhas da árvore e vêm sendo estudados há mais de dez anos pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, da USP, que é referência no país em plantas do gênero Copaifera. As folhas usadas no experimento saíram do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Segurança para a célula

O resultado que mais chamou atenção não foi só a queda no número de vírus. Foi a distância entre a dose que combate o vírus e a dose que começa a fazer mal à célula.

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O extrato passou a atacar o coronavírus a partir de 3,81 microgramas por mililitro, uma quantidade muito pequena. Só a partir de 387,7 microgramas por mililitro é que ele começou a matar as células saudáveis. A diferença é de cerca de cem vezes. Em pesquisa de medicamento, essa margem é o que separa um candidato promissor de uma substância que mata o vírus e o paciente junto.

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Os cientistas também separaram o momento em que o extrato age. Em um dos testes, trataram as células antes de colocar o vírus: a entrada do coronavírus caiu 80%. Em outro, deixaram o vírus entrar primeiro e só depois aplicaram o extrato: a multiplicação dentro da célula caiu 85,6%. Em um terceiro, misturaram extrato e vírus fora da célula: 87,8% das partículas virais perderam a capacidade de infectar.

Atacar em várias frentes é o argumento central do estudo. “Um aspecto importante é o mecanismo multialvo do composto, o que reduz a probabilidade de desenvolvimento de resistência. Isso porque muitos antivirais atuais agem apenas sobre uma proteína viral, o que favorece esse efeito”, afirmou o farmacêutico Jairo Kenupp Bastos, professor da faculdade da USP e coautor do trabalho, em texto divulgado pela Agência FAPESP.

A lógica é a seguinte: quando um remédio ataca um único ponto do vírus, basta uma mutação naquele ponto para o remédio deixar de funcionar. Se o ataque vem de três lados, o vírus precisaria mudar em três lugares ao mesmo tempo.

O que o estudo ainda não mostrou

O título do artigo científico promete duas travas contra o vírus: uma na espinha da proteína que o coronavírus usa para grudar na célula, a Spike, e outra na enzima que ele usa para copiar o próprio material genético lá dentro. Só a primeira foi medida em bancada.

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Sobre a Spike, houve teste: o extrato reduziu em quase 40% o encaixe entre a proteína do vírus e a porta de entrada da célula humana. A trava na enzima copiadora, por outro lado, saiu de simulação de computador. O programa calculou que a molécula se encaixa no ponto certo da enzima e obteve uma pontuação alta, mas ninguém testou a enzima em tubo de ensaio. A previsão combina com a queda de 85,6% na multiplicação do vírus observada nas células, e é só isso que se pode afirmar até aqui.

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O vírus usado também merece atenção. Trata-se de uma amostra isolada em 2020, antes da chegada da variante Ômicron e das linhagens que circulam hoje. Como essas versões mais novas acumulam mutações justamente na Spike, o efeito medido pode não se repetir contra o coronavírus atual. Os próprios autores reconhecem isso no artigo.

E há uma comparação que não fecha dentro do próprio texto científico. Em uma parte, os pesquisadores apresentam a margem de segurança do extrato como superior à do remdesivir, o antiviral usado em hospitais. Páginas depois, citam um estudo de 2020 em que o remdesivir aparece com margem quase três vezes maior e potência seis vezes superior à do extrato. Os autores avisam que essas comparações servem apenas como indicação.

O papel brasileiro e o caminho à frente

A parte experimental do trabalho foi feita no Egito. Rasha El-Morsi, da Delta University for Science and Technology, e Lamiaa Al-Madboly, chefe do Departamento de Microbiologia da Universidade de Tanta, desenharam e conduziram os testes. A extração e a identificação química dos compostos ficaram com Mohamed Abd El-Salam, que fez doutorado na USP e hoje trabalha entre a universidade egípcia e a Pompeu Fabra, em Barcelona.

O Brasil entrou com a matéria-prima, com o conhecimento acumulado sobre a planta em Ribeirão Preto e com o financiamento, por meio de um auxílio da FAPESP concedido em 2011 para estudar extratos de Copaifera.

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“A abordagem integrada nos permitiu compreender não apenas como os compostos funcionam, mas também como atuam em nível molecular”, disse Abd El-Salam à Agência FAPESP.

Entre o resultado de placa de vidro e um remédio de farmácia há uma sequência longa: testes em animais, avaliação de toxicidade, definição de dose e formulação, e três fases de ensaios em seres humanos. Nada disso foi feito. O que existe hoje é um ponto de partida químico extraído de uma árvore que só nasce no Brasil.

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