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UE e MT

Impacto do Acordo Mercosul-UE nas Carnes de Mato Grosso

Avaliação mostra que carne de aves tem maior potencial de crescimento, enquanto bovinos enfrentam restrições qualitativas e suínos têm acesso simbólico ao mercado europeu

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acordo mercosul-ue carnes mato grosso
Acordo Mercosul-UE abre porteiras para carnes de Mato Grosso, mas exigências ambientais e cotas limitam expansão. Imagem ilustrativa.
Após 25 anos de negociações, pacto comercial desafia produtores a cumprir rigorosas normas ambientais e o abandono de parte do agronegócio da chamada Moratória do Soja* pode acabar com o sonho antes mesmo dele começar.
O fim de uma das negociações comerciais mais longas da história moderna — 25 anos de idas e vindas entre Mercosul e União Europeia — é apenas o começo da caminahada para o agronegócio de Mato Grosso, é necessário uma cautela otimista, pois ainda há muito a ser feito.

Saída da Moratória da Soja coloca em risco rastreabilidade exigida pelo regulamento Europeu de desmatamento

Um dos grande problemas que o produtor de Mato Grosso vai enfrentar é a saída das grandes tradings da Moratória da Soja.
Anunciada em janeiro de 2026 a retirada ameaça diretamente as perspectivas de exportação de carnes de Mato Grosso para a União Europeia. O acordo Mercosul-UE exige rastreabilidade completa da cadeia produtiva, desde a soja usada na ração até o frigorífico final. Sem a moratória, aumenta o risco de que a ração animal venha de áreas desmatadas após 2020, o que inviabiliza o acesso ao mercado europeu, mesmo com cotas e tarifas zeradas.
A Moratória proibia compra de soja desmatada após 2008. Com a saída das tradings, aumenta o risco de que a ração animal (principal insumo da pecuária e avicultura) venha de áreas não conformes ao Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR).
A diretora executiva do Imac, Paula Queiroz, já alertou que o EUDR exige rastreabilidade completa da cadeia produtiva. Se a soja da ração não puder ser comprovada como livre de desmatamento, a carne dos animais que a consumiram pode ser barrada na UE.

Exclusão em cadeia e efeito dominó

O regulamento europeu pune toda a cadeia — se um pecuarista fornecedor da indústria desmatou (mesmo legalmente após 2020), a indústria pode sofrer boicote na Europa . Sem a moratória, a fiscalização da origem da soja enfraquece, aumentando a chance de contaminação.
Para o maior exportador de carne bovina do Brasil e um dos principais produtores de proteína animal do planeta, o acordo assinado representa menos uma porta escancarada e mais uma chave-mestra que abre múltiplas portas, cada uma com suas próprias fechaduras, códigos de segurança e vigias ambientais.

Frango, líder na disputa pelo espaço europeu

Se há um vencedor claro no acordo para Mato Grosso, é a carne de aves. A concessão de 180 mil toneladas anuais com tarifa zero — 12 vezes o volume atual — coloca o frango brasileiro em posição de choque competitivo contra produtores europeus. Para o Brasil, que já exportou 4,5 milhões de toneladas de frango em 2025, a cota representa 3,4% do total, mas simboliza algo maior: o reconhecimento de um sistema produtivo que alia escala, sanidade e eficiência.
“Mato Grosso possui uma cadeia avícola altamente integrada e eficiente, capaz de atender às rigorosas exigências da UE”, afirma o diretor do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), Bruno de Jesus Andrade.
A ausência de tarifas dentro da cota elimina uma barreira de custo significativa, permitindo que o frango mato-grossense brigue de igual para igual com concorrentes locais — que operam com custos de produção até 40% mais altos.
O desafio, porém, está na escalada. Embora a cota seja generosa, sua implementação ocorrerá em seis etapas até 2031, exigindo paciência estratégica. Além disso, o Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR) exige rastreabilidade completa da cadeia, desde a soja usada na ração até o frigorífico final. Lucas Beber, presidente da Aprosoja-MT, critica a imposição: “A Europa mantém requisitos que não existem em seus próprios países.”

Bovinos: a arte de vender menos e ganhar mais

Para a carne bovina — coração das exportações mato-grossenses, com 14 mil toneladas e US$ 126 milhões já enviados à UE em 2025 —, o acordo veste um terno apertado. A cota de 99 mil toneladas com tarifa de 7,5% é vista como pequena frente aos 206 mil toneladas que o Mercosul já exportou para Europa no ano passado, volume que ultrapassa a própria cota preferencial.
“Abre portas e estabelece cotas, mas o livre comércio ainda está distante”, constata a senadora Tereza Cristina, vice-presidente da Frente Parlamentar Agropecuária, em tom de realismo.
O trunfo da pecuária mato-grossense não estará na quantidade, mas na valorização. Com a UE pagando premium — cada tonelada vendida lá compra 152,67 arrobas de boi gordo, contra 87,50 na China —, o acordo força uma mudança estrutural: menos volume, mais receita. A eliminação imediata da tarifa da Cota Hilton** (10 mil toneladas de cortes premium com tarifa zero) reforça essa tendência, empurrando produtores para o confinamento e a terminação intensiva de animais jovens, com menos de 24 meses.
Mas o preço da entrada no clube europeu é alto. A proibição do estradiol em programas de IATF e a exigência de rastreabilidade completa ameaçam excluir pequenos e médios produtores em processo de regularização ambiental. “Pode levar a um aumento do desmatamento ilegal ao marginalizar esses produtores do mercado formal”, alerta Paula Queiroz, diretora executiva do Imac.

Suínos: a porta entreaberta

A suinocultura mato-grossense — tradicionalmente coadjuvante no cenário exportador — ganhou algo que não tinha: uma cota própria. As 25 mil toneladas com tarifa de €83 por tonelada representam a primeira brecha no mercado europeu, historicamente fechado aos suínos brasileiros. O problema é que essa brecha é minúscula.
“É uma cota insuficiente para gerar impacto econômico relevante de forma imediata”, avalia o Cepea. Para Mato Grosso, que compete com gigantes como Santa Catarina e Rio Grande do Sul pela fatia do bolo europeu, o desafio é transformar acesso simbólico em presença real.
A estratégia será de capilaridade: estabelecer pequenas pontes em diferentes mercados europeus, aprender os protocolos, adaptar o produto aos paladares locais e construir reputação.
Mas as tarifas punitivas fora da cota — especialmente para produtos industrializados como presuntos e defumados — limitam a capacidade de agregar valor antes da exportação, mantendo o estado como exportador de commodities in natura.

A barreira invisível que pesa mais que a tarifa

Se as cotas são o que se vê, as barreiras não-tarifárias são o que realmente importa. O Regulamento Europeu Antidesmatamento, que exige comprovação de que toda a cadeia produtiva — desde a fazenda até o frigorífico — não está vinculada a desmatamento ilegal após 2020, transformou a guerra comercial em guerra de documentos e auditorias.
Para Mato Grosso, onde 13% do território está com algum tipo de inconsistência ambiental, segundo dados do Imac, o EUDR é uma ameaça existencial. “Pode restringir compras mesmo de áreas legalmente abertas após 2020”, lamenta Beber, da Aprosoja-MT.
A diretora executiva do Imac, Paula Queiroz, adverte que o regulamento pode gerar um efeito perverso: “Excluir produtores em regularização pode marginalizá-los e aumentar o desmatamento ilegal.”
O paradoxo é claro: exigências ambientais europeias, desenhadas para proteger a Amazônia, podem acabar pressionando produtores para fora do mercado formal.
Além disso, a UE manteve cláusula de salvaguarda que permite reintroduzir tarifas temporariamente se os volumes importados crescerem “excessivamente” — critério vago que adiciona incerteza ao planejamento de longo prazo.

O jogo de expectativas e o peso da política

A divergência de percepções entre os dois lados do Atlântico mostra a complexidade do acordo. Na França, a rede Carrefour anunciou boicote à carne do Mercosul, alegando preocupações ambientais. Do lado brasileiro, a ABIEC vê o tratado como fonte de “previsibilidade e diversificação”.
O Ipea projeta que o Brasil pode ter aumento de US 521 milhôes no faturamento com bovinos, mas o montante é modesto frente aos bilhões gerados pela China. Para as carnes de aves e suínos, os US 2,57 bilhões estimados são mais expressivos, mas dependem da capacidade de escalar produção sob novas regras.
“A Europa não flexibiliza suas regras de segurança alimentar”, disse César Miranda Leite, ex-presidente do Conselho de Administração do Imac. A mensagem ainda vale e é clara: o acordo abre a porta, mas cada produtor precisa ter a chave correta — e essa chave custa dinheiro em tecnologia, certificação e conformidade.

Oportunidade histórica, mas não automática

O saldo final para Mato Grosso é favorável com ressalvas gritantes. A carne de aves tem o maior potencial de crescimento quantitativo; a bovina deve se beneficiar qualitativamente, com foco em cortes premium; a suína ganha uma porta de entrada simbólica para construir futuro.
Mas nada disso virá de graça. A capacidade de Mato Grosso em capitalizar essas oportunidades dependerá criticamente de três fatores: conformidade ambiental (Garantir que a cadeia produtiva inteira esteja alinhada ao EUDR antes de 2026, quando o regulamento começar a ser efetivamente cobrado); investimento em rastreabilidade: criar sistemas robustos de rastreamento desde o nascimento do animal ou pintinho até o container exportado e estratégia de valorização (focar em cortes de nicho, marcas próprias e histórias de sustentabilidade que justifiquem o premium europeu).
“O acordo é um marco, mas a implementação é uma maratona”, resume Eliamar Oliveira, consultora da Famasul.
E essa maratona, ao contrário dos 25 anos de negociação, será corrida em tempo real, com produtores perdendo ou ganhando mercado a cada auditoria, cada certificação, cada container liberado ou barrado nos portos europeus.
“Não é um acordo para explosão de volume, mas de arrecadação”, resume o economista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, em frase que sintetiza o espírito do tratado: qualidade sobre quantidade, diversificação sobre dependência, execução sobre expectativa.
Os números oficiais confirmam essa leitura. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) projetou que o Brasil deve registrar crescimento de 5,1% nas exportações de carne bovina e 19,7% nas carnes de suínos e aves, com ganho de US 2,57 bilhões na balança comercial, respectivamente.
Mas por trás desses percentuais promissores, produtores e indústria mato-grossense travam uma batalha silenciosa contra o tempo, a burocracia e as exigências ambientais mais rigorosas já impostas a commodities brasileiras.
Mato Grosso entrou no clube dos fornecedores premium da União Europeia. Agora precisa provar que tem fôlego para permanecer na mesa.

*Moratória da Soja é um pacto voluntário, estabelecido em 2006, que proíbe a compra de soja produzida em áreas desmatadas na Amazônia após 22 de julho de 2008. É um compromisso entre empresas do setor, ONGs ambientais e governo para eliminar o desmatamento da cadeia produtiva da soja.

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**Cota Hilton é uma cota tarifária (tariff quota) concedida pela União Europeia para importação de carne bovina de alta qualidade e alto valor, com tarifa reduzida. O nome tem origem na Rodada Tóquio de 1979 dos acordos do GATT, que foi realizada no hotel Hilton em Tóquio, onde a cota foi negociada.

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Milho no RS entra na reta final da colheita com produtividade acima de 7,4 t/ha

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Mercado Externo

O cenário internacional para o milho segue marcado por volatilidade, com atenção às safras da América do Sul e ao ritmo das exportações dos Estados Unidos. A evolução da colheita no Sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, contribui para a oferta global, ainda que em menor escala frente ao Centro-Oeste. A regularidade climática recente no Estado ajuda a sustentar expectativas positivas de produtividade, fator que pode influenciar o equilíbrio global de oferta.

Mercado Interno

A colheita do milho no Rio Grande do Sul se aproxima da conclusão, atingindo 90% dos 803.019 hectares cultivados na safra 2025/26, conforme a Emater/RS-Ascar. O avanço foi mais lento na última semana devido às chuvas, principalmente na Metade Sul, que elevaram a umidade dos grãos e dificultaram a operação de máquinas.

As áreas restantes correspondem a lavouras implantadas fora da janela ideal, ainda em fases reprodutivas ou de enchimento de grãos. As precipitações recorrentes desde março favoreceram o desenvolvimento dessas áreas, consolidando o potencial produtivo.

No milho destinado à silagem, a colheita também está praticamente concluída, alcançando 87% da área. No entanto, a umidade elevada tem prejudicado o processo de ensilagem, podendo impactar a qualidade da fermentação.

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Preços

Os preços do milho no mercado interno tendem a refletir o avanço da colheita e a qualidade do produto. A elevada umidade dos grãos em algumas regiões pode gerar descontos na comercialização, além de aumentar os custos com secagem. Por outro lado, a produtividade consistente no Estado ajuda a equilibrar a oferta regional.

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Indicadores
  • Área cultivada (milho grão): 803.019 hectares
  • Área colhida: 90%
  • Produtividade média: 7.424 kg/ha
Produção estimada: 5,96 milhões de toneladas
  • Milho silagem:
    • Área: 345.299 hectares
    • Colheita: 87%
    • Produtividade média: 37.840 kg/ha
  • Soja (RS):
    • Área cultivada: 6,62 milhões de hectares
    • Colheita: 68%
    • Produtividade média: 2.871 kg/ha
  • Feijão 1ª safra:
    • Área: 23.029 hectares
    • Produtividade média: 1.781 kg/ha
  • Feijão 2ª safra:
    • Área: 11.690 hectares
    • Produtividade média: 1.401 kg/ha
  • Arroz irrigado:
    • Área: 891.908 hectares
    • Colheita: 88%
    • Produtividade média: 8.744 kg/ha
Análise

A reta final da colheita do milho no Rio Grande do Sul confirma uma safra tecnicamente positiva, sustentada por produtividade acima da média histórica. No entanto, o excesso de chuvas no período final impõe desafios logísticos e pode afetar a qualidade dos grãos, exigindo maior gestão pós-colheita.

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O cenário climático também impacta outras culturas relevantes no Estado. A soja avança de forma mais lenta, com grande variabilidade produtiva devido ao regime irregular de chuvas ao longo do ciclo. Já o arroz mantém bom desempenho, enquanto o feijão evidencia forte dependência de irrigação para alcançar melhores rendimentos.

No curto prazo, o produtor gaúcho segue atento às condições climáticas para concluir a colheita e preservar a qualidade da produção, fator determinante para a rentabilidade em um ambiente de margens mais apertadas.

Fonte: Portal do Agronegócio

Fonte: Portal do Agronegócio

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