GASTOS PÚBLICOS
VG: com saneamento em colapso e dívida de R$ 770 mi, Câmara contrata R$ 241 mil em som
A cidade de Várzea Grande enfrenta uma crise social estrutural. Metade da população é considerada vulnerável. O saneamento básico está entre os piores do Brasil. A dívida de precatórios supera os R$ 770 milhões, comprometendo investimentos. Neste cenário de dificuldades em serviços essenciais, a Câmara Municipal de Várzea Grande publicou um extrato de Ata de Registro de Preços. O valor global: R$ 241.200,00. O objetivo: “eventual” contratação de serviços de sonorização.
O documento foi assinado em 12/11/2025 pelo Ver. Wanderley Cerqueira, Presidente da Câmara Municipal, e pelo Sr. Cleyton Barbosa de Oliveira, representante legal da empresa ATIVA SOLUCOES LTDA.
Os detalhes do registro
A publicação oficializa a Ata de Registro de Preços Nº 05/2025. O documento tem origem no Processo Administrativo n.º 33/2025 e no Pregão Eletrônico nº 90003/2025.
A Câmara atua como “Órgão Gerenciador e Participante” do contrato. O objeto exato, conforme descrito no documento, é o “Registro de preços para a eventual Prestação de serviços contínuos de locação, instalação, manutenção e operação de equipamentos de sonorização para atender as necessidades da Câmara Municipal de Várzea Grande – MT”.
A empresa vencedora do Lote Único foi a ATIVA SOLUCOES LTDA. O contrato, assinado em 12 de novembro de 2025, tem vigência de um ano, válida de 14 de novembro de 2025 a 14 de novembro de 2026. Assinaram o documento o presidente da Câmara, Ver. Wanderley Cerqueira, e Cleyton Barbosa de Oliveira, representante da empresa.
Um contraste com a realidade
O registro de R$ 241,2 mil para serviços de som contrasta fortemente com a realidade social da segunda maior cidade de Mato Grosso. Várzea Grande, com 314.627 habitantes, enfrenta o que relatórios analisam como uma “crise social multidimensional”.
O município carrega a maior dívida de precatórios do estado, ultrapassando R$ 770 milhões. A própria gestão municipal, em declarações de maio de 2025, afirmou que esses pagamentos comprometem 11,88% da receita mensal, impossibilitando investimentos futuros.
Saneamento e pobreza em nível crítico
A situação do saneamento básico é classificada como “catastrófica”. Várzea Grande ocupa o 92º lugar entre os 100 maiores municípios do país no ranking do Instituto Trata Brasil.
Os números expõem a falha estrutural:
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Apenas 30% dos imóveis têm acesso à rede de esgoto.
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Somente 16,6% do esgoto gerado é tratado.
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Quase 59% da água potável se perde em vazamentos antes de chegar às torneiras.
O investimento municipal na área (R$ 45 por habitante em 2023) é 80% abaixo do recomendado pelo Plano Nacional de Saneamento.
Paralelamente, a pobreza avança rapidamente. O número de famílias no CadÚnico cresceu 72,3% em quatro anos, saltando de 47 mil (2019) para 81 mil (2023). Estima-se que 50% da população, ou 157.500 pessoas, viva em situação de vulnerabilidade. A mortalidade infantil (16,71 por mil) também está acima das médias nacional e estadual.
Emergência na saúde e educação
A crise não se limita ao saneamento. A infraestrutura de saúde se mostra precária. Em junho deste ano, o Governo do Estado precisou transferir R$ 15,5 milhões para o Pronto-Socorro municipal, sendo R$ 11,7 milhões destinados apenas para reparar o telhado, danificado por chuvas.
Na educação, um edital extraordinário lançado em novembro busca preencher 2.946 vagas para educadores. O número elevado revela um déficit crônico que impede o atendimento adequado à população.
Enquanto a Câmara se prepara para eventuais necessidades de sonorização, a cidade luta contra uma deterioração acelerada em seus serviços mais básicos, afetando diretamente a saúde e a dignidade de mais de 300 mil habitantes.
CÂMARA MUNICIPAL DE VÁRZEA GRANDE
Com pregão investigado, Wanderley Cerqueira revoga compra de tecnologia
Sob pressão do TCE, Câmara de Várzea Grande revoga Pregão Eletrônico 90006/2025 para compra de softwares. Gestão cita “medida de segurança”.
Sob a gestão de Wanderley Cerqueira, Legislativo de Várzea Grande cancela pregão de softwares após ser notificado pelo Tribunal de Contas.
A Câmara Municipal de Várzea Grande, sob a presidência do vereador Wanderley Cerqueira, decidiu cancelar um processo de compra pública voltado à tecnologia. A decisão, oficializada em 2 de janeiro de 2026, interrompe o Pregão Eletrônico nº 90006/2025. O ato administrativo ocorre após uma intervenção direta do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT).
O objetivo inicial do certame era ambicioso. A Casa de Leis buscava contratar um “registro de preços para fornecimento de soluções tecnológicas integradas”. O pacote incluía licenças de software, implantação, treinamento e suporte técnico.
No entanto, a rotina administrativa mudou de curso. A 6ª Secretaria de Controle Externo do TCE instaurou uma Representação de Natureza Interna (nº 211.880-7/2025). O órgão fiscalizador enviou o Ofício nº 869/2025/GAB-AJ, onde sugeriu a suspensão imediata da disputa.
O peso da estrutura manual
Antes da intervenção do tribunal, a Câmara justificava a compra pela necessidade urgente de modernização. O documento de revogação admite as dificuldades operacionais atuais.
Segundo o texto oficial, o processo licitatório nasceu dos “desafios significativos enfrentados pela Câmara Municipal de Várzea Grande – MT, decorrentes da utilização de sistemas fragmentados e processos em grande parte manuais”.
A administração pretendia automatizar fluxos legislativos, jurídicos e administrativos. Porém, o alerta do controle externo obrigou o gestor a reavaliar o momento e a segurança jurídica da contratação.
A lógica da revogação
Diante do fato novo trazido pelo TCE, a presidência optou pela revogação total, e não apenas pela suspensão temporária. A medida baseia-se no artigo 71 da Nova Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021).
O texto da decisão enfatiza que a administração pública deve prezar por princípios como moralidade, eficiência e economicidade. O documento destaca que a ação serve “como medida de prevenção e segurança”.
Para fundamentar o recuo, a decisão cita o “poder de autotutela”. Isso permite ao gestor anular ou revogar seus próprios atos quando eles não atendem mais ao interesse público ou apresentam riscos legais.
O que diz a doutrina
A decisão administrativa recorre a especialistas para sustentar o cancelamento. O texto oficial transcreve, na íntegra, o ensinamento do jurista Marçal Justen Filho sobre o tema.
De acordo com o documento:
“A revogação consiste no desfazimento do ato porque reputado inconveniente e inadequado à satisfação do interesse público. A revogação se funda em juízo que apura a conveniência do ato relativamente ao interesse público… Após, praticado o ato, a administração verifica que o interesse público poderia ser melhor satisfeito por outra via. Promoverá então o desfazimento do ato anterior… Ao determinar a instauração da licitação, a Administração realiza juízo de conveniência acerca do futuro contrato (….) Nesse sentido, a lei determina que a revogação dependerá da ocorrência de fato superveniente devidamente comprovado. Isso indica a inviabilização de renovação do mesmo juízo de conveniência exteriorizado anteriormente”.
Próximos passos
Com a assinatura do documento em 2 de janeiro, o processo nº 32/2025 está encerrado nesta modalidade. A decisão final do presidente Wanderley Cerqueira é clara ao determinar o fim do certame.
Ele registrou: “DECIDO pela REVOGAÇÃO DO PREGÃO ELETRÔNICO N№ 90006/2025, nos termos do inciso II do art. 71 da Lei nº 14.133/2021”.
Agora, a Câmara deverá aguardar o desfecho da análise do TCE ou reformular o termo de referência para uma futura tentativa de modernização, caso as pendências apontadas pela corte de contas sejam resolvidas.
Entenda os Termos
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Pregão Eletrônico: Modalidade de licitação para aquisição de bens e serviços comuns, onde vence quem oferece o menor preço.
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Revogação: Cancelamento de uma licitação por motivos de conveniência e oportunidade (não necessariamente por ilegalidade, mas por perda de interesse ou mudança de cenário).
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TCE (Tribunal de Contas do Estado): Órgão responsável por fiscalizar o uso do dinheiro público e que pode suspender compras suspeitas ou mal planejadas.
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