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Crise institucional

Justiça sob suspeita: CNJ deflagra inspeção-geral no tribunal de Mato Grosso

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) realiza uma inspeção no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT) de 24 a 27 de junho de 2025. A medida é uma resposta direta a graves escândalos de corrupção, incluindo a Operação Sisamnes, que apura um esquema de venda de sentenças e o suposto elo de magistrados com o grupo de extermínio “Comando C4”.

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Sede do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, que passa por inspeção do Conselho Nacional de Justiça em meio a investigações sobre esquemas de corrupção e venda de sentenças envolvendo magistrados.
Sede do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, que passa por inspeção do Conselho Nacional de Justiça em meio a investigações sobre esquemas de corrupção e venda de sentenças envolvendo magistrados.Foto: Rogério Florentino

Fiscalização ocorre em meio a investigações sobre venda de sentenças e o elo de magistrados com um suposto grupo de extermínio

Uma força-tarefa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), liderada pessoalmente pelo Corregedor Nacional, Ministro Mauro Campbell Marques, desembarca em Cuiabá na próxima semana para uma ampla e minuciosa inspeção no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). A fiscalização, agendada para ocorrer entre os dias 24 e 27 de junho, não é mera rotina; ela acontece sob o peso de uma atmosfera carregada, marcada por escândalos que expuseram uma crise de credibilidade sem precedentes na instituição.

Oficialmente, o procedimento é classificado como ordinário. No entanto, o contexto é tudo. A inspeção vasculhará setores administrativos e judiciais justamente quando o tribunal se vê no epicentro de investigações que conectam seus membros a esquemas de venda de decisões e a uma organização criminosa.

A ponta do iceberg

O estopim da crise mais recente foi o assassinato do advogado Roberto Zampieri, em 5 de dezembro de 2023. O que parecia ser apenas um crime brutal revelou-se a ponta de um iceberg de corrupção. Investigações no celular da vítima descortinaram um suposto esquema de venda de sentenças que abalou as estruturas do Judiciário mato-grossense.

As apurações levaram à Operação Sisamnes, que, em agosto de 2024, culminou no afastamento cautelar dos desembargadores Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho. Segundo a Corregedoria, ambos são suspeitos de manter “amizade íntima” com Zampieri e receber vantagens financeiras, incluindo duas barras de ouro, para julgar recursos conforme os interesses do advogado. A troca de 768 mensagens entre Sebastião de Moraes e Zampieri, onde o advogado parecia ditar os rumos de processos judiciais, evidenciou uma relação descrita pelos investigadores como de “subserviência”. A investigação também constatou que a esposa e um filho do desembargador, oficialmente lotados em outros gabinetes, na verdade trabalhavam no gabinete de Sebastião.

A primeira fase da operação, em novembro de 2024, resultou na prisão do lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, apontado como peça central no esquema. A segunda fase, em dezembro, focou na lavagem de dinheiro, revelando o uso de operações imobiliárias suspeitas e resultando no bloqueio de R$ 1,8 milhão. Em maio de 2025, as apurações se estenderam ao juiz Ivan Lúcio Amarante, também afastado.

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Do tribunal ao crime organizado

A trama ganhou contornos ainda mais sombrios com a descoberta do “Comando C4: Caça Comunistas, Corruptos e Criminosos”. A investigação revelou que este grupo, composto por militares, funcionava como uma agência de extermínio por encomenda e teria sido o responsável pela execução de Roberto Zampieri. Com uma tabela de preços que chegava a R$ 250 mil para espionar ministros do STF, o grupo utilizava drones e táticas avançadas. Cinco suspeitos foram presos, incluindo o coronel da reserva Luiz Caçadini, apontado como o financiador do crime.

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Fantasmas do passado

Para quem acompanha o TJMT, a sensação é de déjà vu. Entre 2003 e 2005, um esquema desviou mais de R$ 1,4 milhão para uma loja maçônica presidida pelo então chefe do Judiciário estadual, José Ferreira Leite. A fraude foi confirmada por uma auditoria da consultoria Velloso & Bertoni Ltda., que apontou “pagamentos de correção monetária abusivos e exagerados”.

O caso resultou na aposentadoria compulsória de dez magistrados em 2010, que passaram a custar mais de R$ 3,4 milhões anuais em valores brutos aos cofres públicos. Contudo, em uma reviravolta que causa perplexidade, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) em 2022 reverteram as punições, permitindo o retorno dos magistrados. Vários deles, então, processaram o estado, resultando em pagamentos milionários — apenas três juízes, por exemplo, conseguiram receber R$ 16,9 milhões em diferenças salariais.

O peso financeiro da suspeita

Enquanto as investigações avançam, os cofres públicos continuam a arcar com os custos da suspeição. Os desembargadores afastados, amparados pela presunção de inocência, seguem recebendo salários integrais. Entre agosto de 2024 e janeiro de 2025, João Ferreira Filho recebeu R$ 482.610,29 líquidos. No mesmo período, Sebastião de Moraes Filho recebeu R$ 462.329,41. Paralelamente, o Superior Tribunal de Justiça passou a anular decisões proferidas por eles, determinando novos julgamentos para preservar a segurança jurídica.

Devassa minuciosa

É neste cenário complexo que a equipe de Mauro Campbell Marques atuará. Composta por cerca de 40 pessoas, a força-tarefa terá acesso irrestrito a gabinetes, sistemas e documentos. A inspeção abrangerá a cúpula do TJMT, incluindo os gabinetes da presidência, vice-presidência e corregedoria-geral, além de unidades em Cuiabá, Várzea Grande, Santo Antônio do Leverger e Poconé.

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Os trabalhos forenses não serão suspensos, mas a presença constante dos auditores do CNJ é um lembrete inequívoco de que o Tribunal de Justiça de Mato Grosso está, mais uma vez, sob um intenso e necessário escrutínio.

Para entender melhor:

  • Operação Sisamnes: O nome faz alusão a um juiz persa da antiguidade que, segundo a lenda, foi esfolado vivo por ordem do rei por ter aceitado suborno e proferido uma sentença injusta. Sua pele foi usada para forrar a cadeira em que seu filho, o novo juiz, se sentaria, como um lembrete perpétuo sobre a integridade.
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Linha do tempo dos escândalos do TJMT

Data Evento Descrição
2003-2005 Escândalo da Maçonaria Desvio de R$ 1,4 milhão para loja maçônica durante presidência de José Ferreira Leite
2010 Afastamento dos Magistrados CNJ determina aposentadoria compulsória de 10 magistrados por beneficiar maçonaria
5 de dezembro de 2023 Assassinato de Roberto Zampieri Advogado morto com 10 tiros em Cuiabá, revelando esquema de venda de sentenças
Agosto de 2024 Afastamento dos Desembargadores CNJ afasta Sebastião de Moraes Filho e João Ferreira Filho por venda de sentenças
Outubro de 2024 Afastamento do Juiz CNJ afasta juiz Ivan Lúcio Amarante da comarca de Vila Rica
26 de novembro de 2024 1ª Fase da Operação Sisamnes PF prende lobista Andreson de Oliveira Gonçalves
20 de dezembro de 2024 2ª Fase da Operação Sisamnes Investigação de lavagem de dinheiro, bloqueio de R$ 1,8 milhão
18 de março de 2025 3ª Fase da Operação Sisamnes Foco em vazamento de informações do STJ
25 de março de 2025 Abertura de PAD CNJ instaura processo disciplinar contra Sebastião de Moraes Filho
13 de maio de 2025 5ª Fase da Operação Sisamnes Bloqueio de R$ 20 milhões em investigação de lavagem de dinheiro
14 de maio de 2025 6ª Fase da Operação Sisamnes Duas prisões preventivas por obstrução da justiça
27 de maio de 2025 PAD contra Juiz CNJ instaura processo contra Ivan Lúcio Amarante
28 de maio de 2025 7ª Fase da Operação Sisamnes Descoberta do “Comando C4”, prisão de 5 suspeitos do assassinato de Zampieri
29 de maio de 2025 8ª Fase da Operação Sisamnes Afastamento de magistrado, bloqueio de R$ 30 milhões
30 de maio de 2025 9ª Fase da Operação Sisamnes Investigação de vazamento de informações sigilosas

 

 

 

 

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Polícia Civil cumpre mandados contra o tráfico na fronteira de MT

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trafico de drogas vila bela

Ação em Vila Bela da Santíssima Trindade apreende eletrônicos e documentos de grupo criminoso. Investigação começou em abril de 2024 após a apreensão de 110 quilos de cocaína.

A Polícia Civil cumpriu, nesta terça-feira (26.6), quatro mandados de busca e apreensão no município de Vila Bela da Santíssima Trindade. A operação apura a atuação de um grupo criminoso envolvido com o transporte de entorpecentes na região de fronteira.

A ofensiva busca desarticular a estrutura financeira da organização. O inquérito aponta que os investigados já realizaram viagens anteriores para transportar drogas e utiliza o cruzamento de informações bancárias, fiscais e patrimoniais para mapear os envolvidos. O trabalho conta com equipes das Delegacias de Vila Bela da Santíssima Trindade e de Pontes e Lacerda.

Ocorrência de 2024

A investigação teve início a partir de uma ocorrência registrada em abril de 2024. Na ocasião, policiais civis monitoravam um veículo VW Saveiro com suspeita de ser utilizado para o transporte de drogas oriundas da fronteira. Durante a tentativa de abordagem, os ocupantes desobedeceram à ordem de parada e tentaram colidir contra a viatura.

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Na sequência, os suspeitos efetuaram disparos de arma de fogo contra os agentes, que revidaram a agressão. O grupo tentou fugir por uma área de mata. Durante as buscas, um dos ocupantes foi ferido, recebeu atendimento imediato e foi levado para uma unidade de saúde, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

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Apreensão e perícia

No interior da picape, as equipes localizaram aproximadamente 110 quilos de pasta base de cocaína distribuídos em tabletes. Rádios comunicadores utilizados pelos criminosos também foram apreendidos. A substância foi submetida à perícia técnica, que confirmou se tratar de cocaína.

A partir das imagens de sistemas de monitoramento e de outras diligências investigativas, a Polícia Civil apontou a existência de uma estrutura organizada e identificou os suspeitos.

Novas provas

Durante o cumprimento das ordens judiciais nesta etapa, os policiais recolheram aparelhos eletrônicos, documentos e outros materiais. Os equipamentos passarão por extração de dados.

“Os mandados cumpridos nesta data têm por objetivo reunir novos elementos de prova, identificar outros possíveis participantes e esclarecer a extensão das atividades criminosas investigadas”, explicou o delegado João Paulo Berté, responsável pelas investigações.

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BOX: Entenda os termos

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  • Mandado de busca e apreensão: Ordem expedida por um juiz que autoriza a polícia a entrar em um domicílio ou estabelecimento para recolher provas, objetos ou documentos ligados a uma investigação.
  • Pasta base de cocaína: Produto químico primário extraído das folhas de coca, utilizado como base para a fabricação de outras drogas em laboratórios clandestinos.
  • Diligências: Passos, buscas ou averiguações realizadas pelas autoridades policiais para apurar os fatos de um crime e reunir provas.

 

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