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Segurança pública

Mortes por arma de fogo em Mato Grosso crescem 42% em cinco anos

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mortes por arma de fogo

Enquanto o país registrou queda no período, o estado teve a segunda maior alta entre as unidades da federação

Em Mato Grosso, o número de homicídios cometidos com armas de fogo passou de 495 em 2019 para 703 em 2024, alta de 42% em cinco anos. No mesmo intervalo, o total nacional caiu 6,9%. Os dados constam do Atlas da Violência 2026, produzido pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Alta na contramão do país

Os 703 homicídios por arma de fogo de 2024 representam o segundo maior total de Mato Grosso desde 2014, ano em que o estado contabilizou 856 mortes desse tipo. O número caiu de forma contínua até 2019, quando chegou a 495, o piso da série. A partir daí a curva inverteu: subiu para 606 em 2020, recuou para 546 em 2021 e voltou a crescer, alcançando 692 em 2022 e 760 em 2023. Em 2024 houve leve redução, de 7,5% sobre o ano anterior.

Os 703 casos equivalem a quase duas mortes por arma de fogo por dia em Mato Grosso, uma a cada doze horas, e somam 208 a mais do que em 2019.

No Brasil, o movimento foi oposto. Os homicídios com arma de fogo caíram de 32.091 em 2019 para 29.870 em 2024, redução de 6,9%. Frente a 2014, a queda nacional chega a 31,2%. Ao todo, 11 unidades da federação tiveram mais mortes por disparo ao fim do quinquênio, e Mato Grosso ficou entre as que mais subiram.

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Taxa supera a média nacional e a dos vizinhos

A taxa por 100 mil habitantes permite comparar estados de tamanhos diferentes. Em Mato Grosso, esse indicador saiu de 14,1 em 2019 para 18,6 em 2024, avanço de 31,9%. A média brasileira seguiu na direção inversa e fechou 2024 em 14,1 por 100 mil, 9% abaixo de 2019. O resultado colocou o estado acima do patamar nacional de mortes por disparo.

Na prática, a taxa do estado ficou cerca de um terço acima da média nacional.

Os vizinhos do Centro-Oeste ficaram bem abaixo: Goiás encerrou 2024 com 10,5 mortes por arma de fogo a cada 100 mil habitantes e Mato Grosso do Sul, com 9,8.

A leitura de uma década inteira muda o quadro. Entre 2014 e 2024, a taxa mato-grossense recuou 29,8%, e o número absoluto, 17,9%. O ano de 2019 marcou o ponto mais baixo da série, e foi a partir dele que as mortes voltaram a subir. O crescimento de 42%, portanto, mede a distância entre esse piso recente e o total de 2024, não um aumento sobre o início da série.

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Atrás apenas do Maranhão

Entre as 27 unidades da federação, Mato Grosso registrou a segunda maior alta nas mortes por arma de fogo entre 2019 e 2024. O Maranhão liderou, com 48,1%. Mato Grosso veio em seguida, com 42%, à frente do Ceará, com 41,1%, do Piauí, com 40,9%, e de Rondônia, com 34,5%. Na maioria dos demais estados, o indicador caiu ou ficou estável.

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Proporção abaixo da média nacional

Nem toda morte violenta envolve disparo. Em Mato Grosso, as armas de fogo responderam por 63,8% dos homicídios de 2024, proporção inferior à média brasileira, de 70,1%. Ainda assim, o peso dos disparos cresceu 15,4% no estado desde 2019. O total de homicídios mato-grossenses, somadas todas as causas, subiu de 945 para 1.145 no mesmo intervalo, alta de 21,2%.

Dentro do estado, a violência se distribui de forma desigual. Entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, Sorriso teve a maior taxa de homicídios em 2024, 62,8 por 100 mil, seguida por Tangará da Serra, com 33,8, e Sinop, com 26,4. Cuiabá, a capital, registrou 16,7.

Jovens são a maioria das vítimas

A violência armada atinge sobretudo a população jovem. Em Mato Grosso, a taxa de homicídios de pessoas de 15 a 29 anos subiu de 40,3 por 100 mil em 2019 para 57,2 em 2024, alta de 41,9%. Entre os homens dessa faixa, o avanço foi ainda maior, de 71,2 para 110 por 100 mil, crescimento de 54,5%.

A taxa de 110 por 100 mil equivale a mais de um homem de 15 a 29 anos morto para cada mil dessa faixa em 2024, quase o dobro do índice geral dos jovens.

Entre as vítimas jovens, o disparo é o meio dominante. No país, entre adolescentes de 15 a 19 anos, mais de oito em cada dez homicídios (84,1%) são cometidos com arma de fogo, proporção que aumenta conforme a idade avança.

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Circulação de armas e agenda no Congresso

Um estudo de Bruno Langeani e Natália Pollachi, publicado em 2025, associa a alta da violência armada à circulação ilícita de armamentos no país entre 2019 e 2023. No período, a participação de revólveres nas apreensões caiu de 38% para 35%, enquanto a das pistolas semiautomáticas subiu de 17% para 28%. As armas de estilo militar passaram de 1,7% para 2,4% do total apreendido. Os autores ligam esse movimento à flexibilização do acesso a armas de maior calibre entre 2019 e 2022, que ampliou o desvio do mercado legal para o ilegal.

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Por trás das apreensões, as origens variam. Rifles costumam combinar tráfico internacional, com peso de armas e peças vindas dos Estados Unidos, e fabricação doméstica irregular, caso das chamadas ghost guns, que não têm número de série. Submetralhadoras saem em boa parte de oficinas clandestinas, e metralhadoras tendem a ser desviadas de arsenais militares ou de forças de segurança.

No Legislativo, a pressão por mais acesso continua. Uma busca na produção da Câmara dos Deputados ao longo de 2025 identificou 53 proposições voltadas a ampliar ou facilitar o acesso a armas. 30 delas, ou 56,6%, partiram de um único parlamentar. Os projetos se dividem em três frentes. A primeira amplia o porte para categorias específicas, como motoristas de carga, professores, profissionais da saúde e mulheres sob medida protetiva. A segunda reúne incentivos econômicos, entre eles isenções tributárias para o tiro desportivo e a autorização para usar o FGTS na compra de arma. A terceira altera o arcabouço regulatório, com propostas que vão da revisão pontual à revogação integral do Estatuto do Desarmamento.

Os números do Atlas da Violência 2026 cobrem registros até 2024, alimentados pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade. As proposições sobre acesso a armas seguem em tramitação na Câmara dos Deputados, sem data definida para votação.

 

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Lançado streaming gratuito com 555 obras nacionais

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Tela Brasil

Plataforma Tela Brasil exige login único e recebe investimento de R$ 9 milhões; catálogo inclui filmes indicados ao Oscar

O governo federal lançou neste sábado (30) a plataforma Tela Brasil, serviço de streaming público e gratuito. O anúncio ocorreu na Cidade das Artes, na zona oeste do Rio de Janeiro.

A plataforma pode ser acessada aqui.

A iniciativa centraliza o acesso a produções audiovisuais históricas e contemporâneas do país para contornar o gargalo da distribuição. Ao integrar o acervo ao sistema Gov.br, a gestão tenta consolidar o consumo de cultura nacional como política pública e disputar espaço com os conteúdos estrangeiros consumidos diariamente pela população.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a plataforma como um instrumento de soberania. Para o chefe do Executivo, a ferramenta garante aos brasileiros a oportunidade de conhecerem a si mesmos e entenderem os motivos pelos quais o país chegou à sua situação atual.

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“[A Tela Brasil] vai contribuir para a elevação da compreensão de um país chamado Brasil. Por que nós somos assim? Por que nós fazemos assim?”, questionou o presidente durante o evento.

Lula criticou o volume de produções internacionais disponíveis nas telas brasileiras. “A quantidade de enlatados de má qualidade que a gente é obrigado a assistir toda noite, porque não tem outra coisa para a gente ver. O que não permite que a juventude brasileira tenha acesso à plenitude da cultura brasileira”, disse.

Além do aspecto identitário, o presidente citou o desconhecimento geral sobre o peso econômico do setor cultural e a quantidade de empregos gerados pela área para o desenvolvimento do país. “O mais importante é a gente conhecer o nosso país por dentro, conhecer a nossa cultura, a razão das coisas que fizeram a gente chegar onde nós chegamos”, afirmou.

Estrutura de acervo e curadoria

O catálogo inaugural da plataforma conta com 555 obras audiovisuais brasileiras. O acervo cobre mais de um século de produção, com títulos que vão desde registros históricos do ano de 1910 até lançamentos contemporâneos de 2025.

A divisão do catálogo abrange diferentes formatos da produção nacional. Os usuários têm acesso a 267 curtas-metragens e 139 longas-metragens. A plataforma disponibiliza ainda 85 médias-metragens ou telefilmes, além de 64 obras seriadas. Dentro deste volume, 19 títulos já representaram o Brasil na disputa pelo prêmio Oscar.

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Entre os filmes listados no acervo inaugural estão clássicos do cinema nacional como “A Hora da Estrela”, dirigido por Suzana Amaral, e “Xica da Silva”, de Cacá Diegues. O catálogo oferece também “Central do Brasil”, de Walter Salles, “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, e “Carandiru” (2003), de Hector Babenco. Obras históricas como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, e o drama biográfico “Olga” (2004), dirigido por Jayme Monjardim, integram a lista de destaques.

O Ministério da Cultura (MinC) estruturou a curadoria com foco na diversidade. As categorias organizam o conteúdo para a infância, juventude, artes e brasilidade. O acervo abriga produções do cinema negro, cinema indígena e obras dirigidas por mulheres. Temas como justiça climática e sustentabilidade possuem espaço específico.

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A pasta criou a categoria Africanidades. Esta seção reúne narrativas, memórias e experiências da população negra no Brasil, promovendo o entrelaçamento entre a ancestralidade e a contemporaneidade.

Financiamento e bases institucionais

O desenvolvimento do projeto Tela Brasil demandou um investimento de R$ 9 milhões, executado entre os anos de 2024 e 2025. O governo afirma que o montante financiou o licenciamento do catálogo, o desenvolvimento de tecnologia própria e a implementação de ferramentas de acessibilidade.

O Ministério da Cultura coordenou a criação da plataforma, apoiado por uma parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL). O acervo reúne conteúdos financiados pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e materiais guardados por instituições vinculadas ao Sistema MinC. Integram essa rede de fornecimento a Cinemateca Brasileira, o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e a Fundação Cultural Palmares.

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A ministra da Cultura, Margareth Menezes, apontou a dificuldade de distribuição como o principal obstáculo do setor. “Na questão do audiovisual, nós temos um gargalo ainda muito grande na questão da distribuição. Como fazer o povo ter acesso a tudo o que se produz, às coisas que são importantes, que referenciam o nosso país?”, indagou.

Menezes argumentou que o audiovisual funciona como um agregador de outras linguagens artísticas, como a música e o desenho, abrigando a diversidade da produção nacional. Ela defendeu o resgate histórico de figuras formadoras do país. “O povo que se conhece, o povo que se vê, ele se fortalece, porque nossas histórias são lindas. Temos os povos originários, os povos africanos, os povos europeus, as pessoas que construíram esse país, as histórias que nunca foram contadas.”

Acessibilidade e tecnologia

A acessibilidade balizou a seleção pública das obras. Todos os títulos escolhidos por meio de edital público possuem três recursos obrigatórios: audiodescrição, legendagem descritiva e interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras).

A professora Luciana Peixoto Santa Rita, representante da UFAL no projeto, explicou o embasamento acadêmico da iniciativa. “Importante destacar que tem pesquisa no meio sobre acessibilidade. São obras com três recursos de acessibilidade, que envolvem também discussão sobre preservação e memória. Há soluções tecnológicas e soluções jurídicas sobre regulamentação. É política pública baseada em pesquisa e evidência”, declarou.

Nesta fase inicial, o sistema funciona diretamente nos navegadores de computadores, permitindo a transmissão do sinal para Smart TVs. O governo estipulou um prazo de 30 dias para a disponibilização de aplicativos dedicados para celulares nos sistemas Android e iOS.

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Integração de políticas públicas

A navegação no serviço requer uma conta ativa no Gov.br. O sistema oferece o “Perfil Cidadão”, destinado ao acesso individual e gratuito, no qual o usuário assiste aos documentários, filmes e séries organizados por gêneros e cria listas de favoritos.

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O MinC desenvolveu também o “Perfil Direcionado”. Esta modalidade atende exibições coletivas e sem fins comerciais. O alvo são salas de aula, cineclubes, pontos de cultura, bibliotecas e museus.

Durante a cerimônia na Cidade das Artes, o governo assinou um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) entre o MinC e a TV Brasil, emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). O tratado visa expandir a circulação de conteúdos e integrar as políticas para o audiovisual.

Lula conectou a nova plataforma a outras ações do governo, citando o MEC Livros, programa com acervo de 25 mil títulos. O presidente determinou a inclusão da cultura nos projetos de infraestrutura do governo federal. “Todo o conjunto habitacional que a gente entregar, nesse país, vai ter uma biblioteca para que a pessoa tenha acesso à cultura”, afirmou.

Além do presidente e da ministra da Cultura, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, participou do evento no Rio de Janeiro.

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O desenvolvimento da plataforma Tela Brasil baseou-se em metodologias de pesquisa aplicadas pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), sob coordenação do Ministério da Cultura. A equipe executou levantamentos sobre acessibilidade, preservação e memória audiovisual. O processo envolveu a formulação de soluções tecnológicas proprietárias para o streaming e o desenho de soluções jurídicas para a regulamentação do licenciamento e da exibição das obras. A estruturação do projeto durou dois anos (2024-2025) e consolidou uma política pública fundamentada em evidências acadêmicas para o repasse de R$ 9 milhões e seleção de 555 títulos via edital e acervos oficiais.

Entenda:

  • Enlatados: Expressão usada historicamente no Brasil para designar produções audiovisuais estrangeiras, geralmente seriados e filmes norte-americanos de apelo comercial massivo, distribuídos em larga escala para preencher a grade de programação local.

  • Telefilmes: Filmes de média ou longa duração produzidos especificamente para a exibição inicial em redes de televisão, diferenciando-se das obras concebidas prioritariamente para as salas de cinema.

  • Fundo Setorial do Audiovisual (FSA): Fundo público destinado ao desenvolvimento de toda a cadeia produtiva do audiovisual no Brasil, operando recursos para financiamento de projetos de cinema, TV e outras mídias.

  • Audiodescrição: Recurso de acessibilidade que traduz imagens em palavras, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão compreendam conteúdos visuais, expressões faciais e cenários em filmes e peças teatrais.

 

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