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Clima extremo

Soja, milho e gado: como o “desastre térmico” previsto pelo Cemaden pode atingir o agronegócio de MT

O Cemaden prevê a formação de El Niño com até 80% de probabilidade a partir de setembro de 2026, configurando risco de “desastre térmico” no Brasil. Mato Grosso concentra os impactos mais graves, com ameaças à safra de soja e milho, risco de megaincêndios no Pantanal, colapso da rede de saúde e pressão sobre o sistema elétrico.

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El Niño 2026 desastre térmico Mato Grosso
Projeções do Cemaden indicam ondas de calor prolongadas e umidade abaixo de 20% em Mato Grosso a partir de setembro

Probabilidade do fenômeno chega a 80% a partir de setembro; Mato Grosso concentra os maiores riscos para agronegócio, saúde e Pantanal

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) trabalha com a projeção de um evento El Niño a partir do segundo semestre de 2026 capaz de provocar o que a instituição classifica como “desastre térmico” no Brasil. Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, a probabilidade de formação do fenômeno entre junho e agosto é de 62%, saltando para 80% a partir de setembro. Mato Grosso, maior produtor agropecuário do país, concentra os impactos mais graves em pelo menos quatro frentes: safra, saúde pública, incêndios no Pantanal e infraestrutura energética.

O que muda a partir de setembro

Até junho, o cenário predominante é de neutralidade climática, com mais de 90% de probabilidade, segundo os modelos da NOAA integrados ao planejamento do Cemaden e do Inmet. A transição acontece a partir do meio do ano, quando o aquecimento das águas do Pacífico equatorial enfraquece os ventos alísios e reorganiza a circulação atmosférica sobre a América do Sul.

O climatologista José Marengo, coordenador de pesquisa do Cemaden, resume a situação de forma direta: “Vai acontecer, será muito quente e vamos sentir mais a partir de setembro. Mais que isso, é especulação.” Marengo compara o fenômeno a um “maçarico turbinado” — o El Niño não age sozinho, mas se soma a um planeta que já opera em desequilíbrio energético recorde desde 1960, segundo a Organização Meteorológica Mundial. O período de 2015 a 2025 foi a década mais quente desde o início das medições instrumentais.

Se as anomalias de temperatura da água do Pacífico superarem 2°C — o que configuraria um El Niño “forte a muito forte” —, 2026 pode ultrapassar 2024 como o ano mais quente da história.

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O retrospecto que preocupa

O Brasil chega a 2026 com a resiliência climática desgastada. O relatório “Estado do Clima”, publicado pelo Cemaden em fevereiro, confirmou 2025 como o terceiro ano mais quente da história do país — e isso num período de neutralidade climática, sem impulso do El Niño. Foram registradas sete ondas de calor em 2025, contra dez em 2024 e oito em 2023.

Os desastres hidrometeorológicos de 2025 afetaram 336.656 pessoas, com 1.493 eventos e prejuízos de R$ 2,9 bilhões. A seca atingiu cerca de 1.200 municípios.

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O dado mais preocupante para o Cemaden não é o pico de temperatura numa tarde isolada, mas a duração das ondas de calor e a elevação das temperaturas mínimas noturnas. Quando o ambiente não resfria durante a madrugada, o corpo humano fica em sobrecarga circulatória contínua — sem conseguir dissipar o calor acumulado. As projeções para o segundo semestre indicam ondas que podem facilmente ultrapassar dez dias consecutivos.

Safra sob ameaça

O agronegócio de Mato Grosso depende quase inteiramente do regime de chuvas. O El Niño atinge o estado no pior momento possível: a transição entre o vazio sanitário e a largada da safra de verão 2026/2027, que depende das primeiras chuvas a partir de setembro.

Temperaturas mantidas acima de 35°C a 40°C esgotam a umidade do solo e forçam as plantas a fechar os estômatos — os poros das folhas que absorvem CO₂. Com a fotossíntese paralisada, ocorrem abortamento de flores e falha no enchimento dos grãos. A FAO documentou que, na onda de calor de 2023-2024, o estresse térmico direto sobre as plantas — mais que a falta de água em si — causou redução de quase 10% na colheita nacional de soja.

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O problema já tem precedente no início de 2026. A safrinha de milho acumulava atraso de 18 pontos percentuais em relação ao ano anterior. Em Marcelândia, no norte de Mato Grosso, a prefeitura decretou situação de emergência com prejuízos estimados em R$ 1.800 por hectare.

Pantanal no limite

O Pantanal esquenta mais rápido que qualquer outro bioma brasileiro. Dados do MapBiomas mostram alta de 0,47°C por década desde 1985 — ritmo 60% superior à média nacional (0,29°C/década). O acúmulo chega a quase 1,9°C em quatro décadas.

A combinação entre esse aquecimento basal e a seca agravada pelo El Niño cria as condições ideais para megaincêndios. Em 2024, mais de 2,3 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo só em Mato Grosso do Sul. Em 2025, a área caiu para 202,6 mil hectares — mas sob condição de neutralidade climática e com forte intervenção estatal. O retorno do El Niño pode reverter essa melhora.

A fumaça dos incêndios não é problema local. As plumas de material particulado viajam centenas de quilômetros e degradam a qualidade do ar em capitais do Sudeste.

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Saúde em colapso

Várzea Grande, na região metropolitana de Cuiabá, funciona como termômetro do impacto do calor na rede pública de saúde. Em ondas de calor recentes, a rede municipal registrou 95.807 atendimentos em apenas 22 dias — média de 4.355 pacientes por dia. As UPAs do IPASE e Cristo Rei e as unidades da Estratégia Saúde da Família entraram em colapso operacional.

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As temperaturas ficaram 5°C acima da média e a umidade relativa do ar despencou para a faixa de 12% a 20% — muito abaixo dos 50% a 60% recomendados pela OMS. A Defesa Civil chegou a emitir alertas de risco de morte por hipertermia em 27 municípios da região.

Idosos são os mais vulneráveis. Com o envelhecimento, a sensação de sede diminui e a capacidade renal de reter líquidos decai. A desidratação evolui para choque metabólico. O calor também sobrecarrega o sistema cardiovascular, aumentando o risco de infartos, e agrava quadros respiratórios — asma, DPOC — especialmente quando a atmosfera está saturada de fumaça.

O que esperar

O Cemaden, o Inmet e os governos estaduais terão até agosto para preparar planos de contingência. No campo, os produtores precisarão investir em cultivares tolerantes ao calor, aprofundar o plantio direto para reter umidade no solo e, onde possível, adotar irrigação de precisão — num cenário em que água e energia também ficam mais escassos. No Pantanal, as operações de combate a incêndio devem exigir mobilização de escala federal. E a rede de saúde do Centro-Oeste, que já operou no limite, enfrentará uma nova temporada de pressão sobre UPAs e leitos. O segundo semestre de 2026 vai testar, com pouca margem, a capacidade de resposta do estado e do país.

 

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Plano Brasil Soberano: empresas pesqueiras afetadas por tarifas dos EUA podem acessar linhas de financiamento

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A disponibilização de linhas de financiamento, no Plano Brasil Soberano, para empresas pesqueiras afetadas por instabilidades internacionais e pela aplicação de tarifas comerciais dos Estados Unidos, está autorizada. É o que determina a Lei nº 15.473, sancionada em 22 de julho de 2026.

“Art. 3º Fica autorizada a disponibilização de linhas de financiamento, no âmbito do Plano Brasil Soberano, para o enfrentamento dos impactos causados por razões geopolíticas e de instabilidade internacional, inclusive aqueles decorrentes da aplicação de percentuais majorados de tarifas comerciais, às pessoas jurídicas:

II – exportadoras de produtos da agricultura, da pecuária, das florestas plantadas, da pesca e da aquicultura, bem como de seus derivados, subprodutos e resíduos de valor econômico, inclusive quando submetidos a beneficiamento ou à primeira industrialização e seus fornecedores”

Como acessar

Para solicitar o financiamento, a empresa deve verificar se atende aos critérios de elegibilidade, reunir a documentação exigida e procurar uma instituição financeira habilitada.
Em algumas modalidades, também é necessário consultar a elegibilidade da empresa na plataforma do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), utilizando o e-CNPJ e uma conta Gov.br. Após a análise da documentação, a instituição financeira dará andamento ao pedido.

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Matheus Silveira 
Ministério da Pesca e Aquicultura
[email protected]

Fonte: Ministério da Pesca e Aquicultura

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