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Violência contra a mulher

Em vídeo com 473 mil exibições, prefeito de Cuiabá prega bater em agressor antes de chamar a polícia

O prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, publicou vídeo em que prega bater em quem agride mulher antes de chamar a polícia. A resposta mais emblemática, com 412 curtidas, veio de um seguidor que perdeu o irmão ao intervir numa agressão. Censo feito pela reportagem sobre 1.466 comentários mostra que o apoio ao post — explícito, escrito ou por emoji — soma 65% das mensagens e 70% das curtidas.

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Prefeito de Cuiabá em evento com jornalistas
Prefeito de Cuiabá Abílio Brunini - Foto: Rogério Florentino

Em vídeo com 473 mil exibições e marcação do perfil da Prefeitura, Abílio Brunini prega reação física imediata contra quem agride mulheres — “não espera dar o segundo tapa”

No dia 18 de julho, o prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, publicou um vídeo no perfil de Instagram em que reúne 1,7 milhão de seguidores. Nele, orienta homens a bater em quem estiver agredindo uma mulher, sem esperar a chegada da polícia. O discurso, gravado num evento público, pede a intervenção física antes de qualquer socorro institucional e explica o propósito da agressão: “para ele aprender a não bater em mulher”. Na tarde de 26 de julho, quando esta matéria foi fechada, o reel passava de 473 mil exibições. Seguia no ar.

A frase central do vídeo dispensa intérprete. “Se você está vendo alguém bater uma mulher, não espera dar o segundo tapa. Se posicione, tenha coragem, defenda a mulher.” Entre ver e agir, o socorro recomendado é o corpo — de imediato, antes do primeiro toque no telefone.

O método já vinha pronto desde a abertura do discurso. “Nós precisamos que os homens que são homens, ao ver uma mulher ser agredida, não peguem o celular não, metem a porrada no cara que está batendo. Não fiquem assistindo não.”

Quem fala comanda a estrutura municipal que mantém a Secretaria da Mulher e o projeto Lutadoras, de aulas de defesa pessoal — ambos citados no próprio vídeo. O apelo à agressão imediata sai da mesma voz que chefia a política pública de proteção às mulheres da capital.

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O que a audiência premiou

Um a um, os 1.466 comentários de primeiro nível registrados no post até as 16h18 (UTC) de 26 de julho foram lidos e classificados pela reportagem. Numa medida agregada, que soma três categorias distintas — o endosso explícito à agressão, o aplauso escrito ao prefeito e ao post, o aplauso por emoji —, o apoio chega a 954 comentários, 65% do total, com 3.809 curtidas, sete de cada dez do conjunto. Apoiar o post não equivale, um a um, a endossar a agressão; a decomposição dessa soma, categoria por categoria, vem a seguir.

O maior bloco desse apoio são os 382 comentários que aderem ao prefeito e ao post sem verbalizar a violência. Foi para eles que o engajamento correu: 3.767 curtidas, 69,3% de todas as do post.

O comentário mais curtido do post, com 1.356 curtidas em 26 de julho, debochava por antecipação de quem enxergasse ali um chamado à violência:

“Não dou meia hora de publicação para aparecer uma mulher dizendo que ele tá excitando a violência”.

O deboche acumulava 123 respostas. Uma delas — com 51 curtidas até 26 de julho, escrita por uma seguidora que se apresenta como psicanalista no próprio perfil — confirmava a previsão e transferia a culpa para as vítimas: “vão ser as mulheres que vão contra ele! As que apanham são as que não aceitam ninguém se posicionando contra!”

O mesmo fio mostra o que acontece quando a previsão do deboche se cumpre e mulheres aparecem para criticar. Uma delas invocou o caminho institucional: “e está! nós temos leis! temos a polícia! MT é recem-saído do banditismo! não podemos voltar a ser essa terra de quem atira mais rápido”. As respostas foram chegando ao longo da semana, uma atrás da outra: “se a lei funcionasse não tinha tantas mulher sendo morta, vai se tratar mulher“, “tire esse petismo da sua cabeça mulher, viva a realidade” e, por fim, “vc nao merece ser defendida 😂”.

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Outra comentarista escreveu que o prefeito “está sim excitando violência” e apontou o balcão certo: “Por isso temos a Delegacia da Mulher, precisando, ligue #190. Pronto!”. Num vídeo que convoca homens a defender mulheres, as mulheres que pediram a polícia viraram o alvo.

E o endosso explícito à agressão física — aquilo que a fala literalmente pede — ficou com 79 comentários, 5,4% do total. Somadas, as curtidas dessas 79 mensagens chegam a 7.

O que a massa escreveu e o que a audiência premiou não coincidem. A distância aparece quando se compara a fatia de comentários de cada categoria com a fatia de curtidas que ela recebeu: a crítica ao post, por exemplo, produziu 26,9% dos comentários e ficou com 13,2% das curtidas.

A contradição dentro da própria fala

O discurso não separa os dois registros — junta ambos na mesma frase. “Chama a polícia, prende o cara, mas dá uma porrada nele para ele aprender a não bater em mulher.” Polícia e porrada dividem o mesmo período, na ordem que o prefeito escolheu.

A legenda publicada com o vídeo repete a estrutura. Abre com “Homem que é homem defende a mulher e desce a porrada no agressor!” e, poucas linhas depois, orienta: “Se defenda, denuncie 180”. O mesmo texto manda a vítima largar o agressor e indica a inscrição no Lutadoras pelo aplicativo Cuiabá Smart ou na Secretaria da Mulher.

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Até a voz que encerra o vídeo, do narrador do evento, reproduz o duplo registro: “Além do que o Abílio disse, de você não deixar isso acontecer, vai lá e desce o cacete. Denuncie, não deixe de denunciar os abusos contra as mulheres.”

No fim do discurso, o próprio prefeito repete o par. Apresenta o Lutadoras, manda baixar o aplicativo, recomenda as aulas de defesa pessoal e conclui: “Pode ser que você não precise, mas se precisar, mete a porrada e se defende”.

A escolha da tarja

O vídeo é um recorte de discurso em evento público, e o discurso continha blocos inteiros de orientação institucional: o conselho para a vítima deixar a relação (“larga desse cara, salva sua vida”), a educação dos filhos contra a violência doméstica, a divulgação do projeto municipal. Na edição publicada, o gancho escolhido foi outro. A tarja sobreposta ao vídeo anuncia: “Prefeito fala pra descer a porrada em quem bate em mulher”.

Com esse cartaz, o reel circulou. Na tarde de 26 de julho, por volta das 16h30, os contadores da publicação marcavam 37.316 curtidas, 3.991 comentários, 2.491 compartilhamentos e 473.471 exibições.

A circulação não parou no Instagram. O vídeo foi distribuído também ao Facebook, e a própria interface do reel registrava, em 26 de julho, o aviso: “Este reel tem 626 comentários no Facebook” — uma segunda audiência, em outra rede, somada à conversa analisada nesta reportagem.

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O vídeo marca o perfil institucional @cuiabaprefeitura. A marcação é um ato de quem publica: exibe a conta da administração municipal junto ao conteúdo, sem que isso, por si, indique participação ou aval do perfil marcado.

A reportagem perguntou à prefeitura se endossa a publicação.

E há um silêncio que a marcação não explica. Entre os 1.466 comentários de primeiro nível, nenhum foi escrito pelo perfil da prefeitura, por contas do projeto Lutadoras ou da Secretaria da Mulher. A estrutura que o post divulga não entrou na conversa que ele abriu — nem para reforçar o 180 diante dos relatos de morte. A pergunta fica no ar: os perfis institucionais não se alinham ao discurso do prefeito?

O comentário que desmonta o conselho

Entre as 395 mensagens de discordância ou crítica, 26,9% do total, uma reuniu 412 curtidas até 26 de julho. O autor, que a reportagem não identifica, viveu exatamente a situação que o prefeito recomenda enfrentar. Ele não discute tese. Conta:

“Infelizmente perdi meu irmão porque ele foi ajudar uma mulher que estava sendo agredida pelo companheiro. No final, meu irmão perdeu a vida e a mulher continua com o companheiro.”

O desfecho do relato responde ponto a ponto ao vídeo: “Quem tem que resolver isso é a polícia e a justiça. Porque vocês podem perder a vida e, infelizmente, não vai dar em nada. Infelizmente, é a primeira vez que eu não concordo com o senhor, prefeito.”

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O relato não é o único.

Entre os comentários mais curtidos do post, um segundo usuário narra outra morte na mesma circunstância:

“Não concordo!!!! Conheço um que foi defender, morreu e dps a mulher tava visitando o cara na cadeia” — 168 curtidas até a captura de 26 de julho.

Um terceiro testemunho está no lugar mais improvável: no fio de respostas do comentário que debocha dos críticos. Ali, alguém escreveu:

“Meu pai foi baleado por apenas pedir, por favor, para um vizinho não bater no seu próprio tio. O criminoso sacou a arma e apontou para meu pai, minha mãe com minha irmã recém nascida no colo e atirou. Aqui em casa, ligamos para a polícia. Entendo o ponto de vista do prefeito, mas aprendi que o preço pode ser caro para quem se mete em brigas alheias.”

Nenhuma curtida.

Essa aritmética de risco domina o campo crítico do post. Quem intervém pode morrer, a vítima muitas vezes volta para o agressor, o caminho seguro é acionar a polícia — dezenas de mensagens repetem a sequência. “Chame a polícia, pq a maioria das mulheres que apanham, voltam no dia seguinte e vc fica com um BO”, escreveu outro usuário, na grafia própria das redes.

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Quatro linchamentos por dia

O conselho do prefeito carrega um acervo de pesquisa contra ele. O sociólogo José de Souza Martins, professor titular aposentado da USP, documentou 2.028 linchamentos ou tentativas ao longo de 60 anos para o livro “Linchamentos: a justiça popular no Brasil” (Contexto, 2015): média de quatro casos por dia no Brasil, com cerca de 1,5 milhão de participantes. Em entrevista ao Diário do Centro do Mundo, em 2015, no lançamento da obra, ele apontou o gatilho que domina esses casos: “63% dos linchamentos analisados são motivados por violência contra a pessoa: assassinato, agressão, estupro.” No Brasil, nenhuma outra cena produz tantas multidões violentas quanto essa que o vídeo quer resolver no soco.

Uma frase do livro, repetida na entrevista, resume o mecanismo: “Os linchadores atuam sempre em nome de uma identidade de pertencimento contra o estranho.” A convocação do vídeo tem esse endereço de pertencimento — “os homens que são homens”. E o mecanismo já opera nos comentários do próprio post: quando mulheres criticaram a convocação e pediram a polícia, o fio as converteu no estranho, do “vai se tratar mulher” ao “vc nao merece ser defendida”.

Sobre o papel das redes, Martins citou um caso concreto: “O que pode contribuir para linchamentos, e isso tem ocorrido, é a satanização estereotipada de determinado tipo de pessoa, como ocorreu no linchamento cruel de uma mãe de família, no Guarujá”. Naquele episódio, um estereótipo difundido em rede social levou “cerca de mil pessoas” a linchar uma inocente por engano.

Do lado do direito, a conclusão é parecida. Em entrevista ao portal alagoano CadaMinuto, em dezembro de 2023, num estado onde a OAB contabilizava 55 casos de justiçamento e 22 mortes até setembro daquele ano, o advogado criminalista Marcelo Herval descreveu o efeito prático da justiça com as próprias mãos: “essas práticas de justiçamento, muitas vezes a pretexto de resolver crimes, acabam gerando outros crimes, como é o caso, por exemplo, dos linchamentos”. Quem parte para a agressão pode responder de lesão corporal a homicídio, advertiu, e pode acertar um inocente, caso do entregador espancado em Maceió naquele mesmo dezembro depois de uma acusação falsa de roubo. A regra de fundo, nas palavras dele: “O Estado detém o monopólio da persecução penal […] o justiçamento é algo terminantemente vedado em um Estado democrático de direito”.

É a conta que o comentário sobre o irmão, algumas linhas acima, apresenta pelo lado de dentro de uma família.

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Os números locais dão a medida do terreno em que esse discurso circula — e a série já cobre os dois lados da chegada de Abílio Brunini à prefeitura: 2024, último ano antes da posse, e 2025, primeiro ano do mandato. O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho de 2025 com dados de 2024, colocava Mato Grosso no primeiro lugar do país em taxa de feminicídio: 2,5 mortes por 100 mil mulheres, 47 mulheres mortas no estado — quatro delas em Cuiabá. O 20º Anuário, publicado em julho de 2026 com os dados de 2025, registra 53 feminicídios em Mato Grosso e taxa de 2,7, alta de 11%. O estado desceu ao terceiro lugar do ranking porque Acre e Rondônia subiram mais depressa, não porque tenha melhorado — e segue com quase o dobro da taxa nacional, parada em 1,4.

Abaixo da morte, a base é larga e cresceu. As 9.287 mulheres vítimas de lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica registradas em Mato Grosso em 2024 passaram a 9.954 em 2025, taxa de 514,6 por 100 mil mulheres — a segunda maior do país, atrás apenas do Paraná, e quase o dobro da nacional, de 261,7. As tentativas de feminicídio saltaram de 171 para 241 no mesmo intervalo, segundo a 20ª edição, e a taxa do estado, de 12,5 por 100 mil mulheres, só fica atrás da do Amapá. Pelo 19º Anuário, com os dados de 2024, Cuiabá figurava ainda entre as 50 cidades com mais de 100 mil habitantes com as maiores taxas de estupro do Brasil, na 43ª posição, com 63,7 casos por 100 mil habitantes.

O canal institucional que o discurso empurra para depois opera em escala — e registra o próprio desgaste. A Justiça de Mato Grosso concedeu 16.759 medidas protetivas de urgência no contexto da Lei Maria da Penha em 2024, segundo o 19º Anuário. O 20º mede o outro lado do balcão: foram 2.292 registros de descumprimento de medida protetiva no estado em 2025, contra 1.956 em 2024, e sete mulheres morreram por feminicídio com medida ativa no momento do óbito — um ano antes, havia sido uma.

O caso que os comentários lembraram

Cuiabá não precisa imaginar aonde leva o roteiro do vídeo. Entre os 79 comentários que endossam a agressão, um deles, sem nenhuma curtida, aponta o precedente local: “Prefeito lembra do coronel pacolla ele matou um canalha pra defender uma mulher acabou sendo caçado na câmara dos vereadores quando ele era vereador de Cuiabá” — na grafia própria das redes.

O caso existe. Na noite de 1º de julho de 2022, o então vereador de Cuiabá e tenente-coronel da PM Marcos Paccola matou com três tiros o agente socioeducativo Alexandre Miyagawa de Barros, depois de ser informado, segundo sua própria versão, de que o agente estaria armado e teria ameaçado a namorada. A denúncia do Ministério Público, que o tornou réu por homicídio qualificado, registrou que “em nenhum momento a vítima agrediu ou ofendeu quem quer que lá estivesse e não apontou sua arma de fogo na direção de ninguém, sendo alvejada pelas costas pela ação do denunciado”. A Câmara cassou o mandato por quebra de decoro. Na defesa que apresentou aos colegas, Paccola resumiu a própria aritmética: “se a decisão que eu tomei não fosse aquela, muito provavelmente eu não estaria aqui”.

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Paccola sustenta legítima defesa e é presumidamente inocente até o veredicto. O Tribunal do Júri vai decidir: a sessão está marcada para 27 de agosto de 2026, às 9h, na 1ª Vara Criminal de Cuiabá — quatro anos e um mês depois dos tiros.

É o roteiro do vídeo levado até o fim, na mesma cidade: um homem armado interveio no que entendeu ser a defesa de uma mulher, outro homem morreu, e quem atirou responde por homicídio há quatro anos. O post do prefeito foi publicado a um mês e nove dias do júri.

O balcão que o vídeo manda esperar

Enquanto o post rodava, o canal que ele empurra para segundo plano seguia processando a demanda de todos os dias. Os Anuários da Mulher da Sesp registram a régua: foram 16.834 medidas protetivas de urgência expedidas em Mato Grosso em 2023, 17.910 em 2024 e 18.233 em 2025 — na média, cerca de cinquenta pedidos de proteção chegando por dia à polícia do estado.

O botão do pânico do programa SOS Mulher, outro balcão, saiu de 5.580 solicitações em 2023 para 6.079 em 2025, e foi acionado 591 vezes no ano passado.

A violência que mais cresce é a que não deixa marca no corpo. Os registros de dano emocional à mulher — a violência psicológica tipificada na Lei Maria da Penha — saltaram de 2.259 para 3.722 em um ano, alta de 65%. A perseguição reiterada, o stalking, subiu 27%, para 2.970 registros. E a ameaça, com quase 19 mil ocorrências em 2025, abre a lista das naturezas mais registradas contra mulheres adultas no estado.

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É para esse balcão que a legenda do post aponta quando diz “denuncie 180” — e é ele que a fala manda deixar para depois do soco.

O que a jurisprudência reserva ao prefeito de Cuiabá

Esta reportagem não imputa crime ao prefeito. O que a moldura jurídica mostra, como contraste, é o desenho da proteção constitucional de quem fala em rede social ocupando cargo público. Deputados e senadores contam com imunidade material, prevista no artigo 53 da Constituição, para opiniões, palavras e votos. Vereador tem versão limitada à circunscrição do município. Chefe do Executivo municipal não tem nenhuma.

Mesmo o escudo dos parlamentares tem limites no ambiente digital. Na Pet 9.456 — um caso de contexto muito diverso deste, envolvendo ameaças a ministros do STF e crimes contra o Estado Democrático —, o Tribunal Pleno fixou que a imunidade “somente incide no caso de as manifestações guardarem conexão com o desempenho da função legislativa” e não pode servir de “verdadeiro escudo protetivo para a prática de atividades ilícitas”.

Na Pet 5.705, a Primeira Turma da corte afastou a imunidade de parlamentar que divulgou vídeo com corte fraudulento, porque a proteção constitucional “não confere aos parlamentares o direito de empregar expediente fraudulento, artificioso ou ardiloso, voltado a alterar a verdade da informação”. Existe linha divergente no próprio tribunal: quando reconhece nexo entre a manifestação e o mandato, o STF estende a imunidade ao ambiente digital. Nenhuma das duas linhas alcança quem ocupa uma prefeitura.

O outro lado

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A reportagem procurou a Prefeitura de Cuiabá e a assessoria do prefeito Abílio Brunini.

O post permanecia no ar, com comentários abertos, até o fechamento da matéria. Eventual manifestação do prefeito ou da administração municipal será publicada aqui assim que enviada.

 

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Polícia indicia maestro por assédio e constrangimento em Cuiabá

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professor indiciado assédio cuiabá

Inquéritos da DEDM apontam crimes contra três alunas e musicistas de universidade pública; professor nega acusações

A Polícia Civil de Mato Grosso indiciou um professor universitário e maestro de 47 anos por assédio sexual e constrangimento ilegal contra três mulheres em uma instituição pública de Cuiabá.

Os inquéritos, encaminhados ao Poder Judiciário e ao Ministério Público, detalham um cenário de abusos em atividades acadêmicas. Os documentos policiais narram desde pressões psicológicas em projetos de extensão até o bloqueio físico de alunas no departamento de Artes.

Assédio em projeto de extensão

O primeiro inquérito, protocolado no dia 28 de janeiro de 2026, apurou a conduta do maestro contra uma estudante de música de 21 anos. A vítima integrava um projeto de extensão coordenado pelo investigado.

A Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM) ouviu familiares, colegas e pessoas ligadas ao ambiente acadêmico. Segundo a corporação, as oitivas confirmaram o abalo emocional da aluna e registraram “comportamentos invasivos e abordagens diferenciadas” executadas pelo docente.

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O professor negou as acusações. Contudo, a DEDM concluiu o documento apontando a “existência de elementos indicativos da prática” de assédio sexual, tipificado no artigo 216-A do Código Penal.

Restrição de liberdade de musicistas

O segundo inquérito, finalizado e encaminhado em 22 de junho de 2026, investigou o crime de constrangimento ilegal. O alvo da ação foram duas musicistas, de 23 e 39 anos. O caso ocorreu em novembro de 2025, antes de um ensaio no departamento de Artes da universidade.

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De acordo com o relato policial, o maestro convocou as duas mulheres para uma reunião. O objetivo do encontro era exigir que elas “intercedessem junto à vítima do primeiro inquérito”, tentando forçar a estudante de 21 anos a retornar ao projeto musical.

Durante a abordagem, o professor bloqueou a porta da sala, impedindo a saída das alunas por aproximadamente três minutos. Após conseguirem escapar, as vítimas buscaram abrigo em outro setor da universidade, onde foram encontradas “nervosas e emocionalmente abaladas”, conforme registra o inquérito.

O investigado negou a restrição de liberdade. Em sua defesa à polícia, o maestro declarou que a reunião “tratava apenas de questões relacionadas ao projeto musical”. A Polícia Civil, no entanto, o indiciou pelo crime previsto no artigo 146 do Código Penal.

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Até o fechamento desta reportagem, os autos tramitam no Judiciário e aguardam análise do Ministério Público para adoção de providências.

BOX: ENTENDA OS TERMOS JURÍDICOS

  • Indiciamento: É a conclusão formal da Polícia Civil, ao fim de um inquérito, de que existem indícios suficientes de que uma pessoa cometeu um crime. Não significa condenação.
  • Assédio sexual (Art. 216-A do Código Penal): Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência.
  • Constrangimento ilegal (Art. 146 do Código Penal): Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda.
  • Inquérito Policial: Procedimento administrativo conduzido pela polícia para apurar infrações penais e sua autoria, servindo de base para a atuação do Ministério Público.
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