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Agrotóxicos e consumo

Glifosato aparece em 31 de 75 ultraprocessados testados pelo Idec, saiba quais

Em três rodadas de análise laboratorial, o Idec detectou glifosato em 31 de 75 ultraprocessados. O principal estudo científico usado pela Anvisa para manter o herbicida no mercado foi anulado por fraude em dezembro de 2025.

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glifosato em ultraprocessados
Glifosato foi detectado em biscoitos, macarrão, nuggets e hambúrgueres vegetais em pesquisa conduzida pelo Idec entre 2021 e 2024. Imagem ilustrativa criada utilizando IA.

Estudo que embasou a liberação do herbicida pela Anvisa foi anulado em dezembro de 2025 por fraude científica — 25 anos depois de publicado

O agrotóxico mais vendido do Brasil está no biscoito, no macarrão instantâneo, no nugget, no requeijão e no hambúrguer vegetal. Em três rodadas de análise laboratorial conduzidas entre 2021 e 2024, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) detectou glifosato em 31 dos 75 ultraprocessados testados na série “Tem Veneno Nesse Pacote”. O principal estudo científico usado para sustentar a permissão de uso da substância no país — citado no processo de reavaliação da Anvisa — foi invalidado em dezembro de 2025 pela revista norte-americana Regulatory Toxicology and Pharmacology, após 25 anos em circulação, por questões éticas e falta de integridade científica.

Trigo como vetor

O glifosato foi o agrotóxico mais recorrente nos três volumes da pesquisa e o único presente nas três edições como substância predominante. No volume 1, de 2021, apareceu em sete dos 27 produtos analisados. No volume 2, de 2022, foi detectado em nove dos 24 ultraprocessados de origem animal. No volume 3, de 2024, voltou a aparecer em sete das 24 amostras.

Um dado se repete nos três volumes: todos os alimentos com farinha de trigo na composição apresentaram resíduos de algum agrotóxico. A farinha é a rota mais direta — está na crosta dos empanados, no biscoito maisena, no macarrão instantâneo. Nos produtos de origem animal, o caminho é indireto: pesquisas indicam que 63% dos agrotóxicos usados no Brasil vão para a lavoura de soja e que 77% da produção do grão se torna ração para animais, o que explica como o herbicida chega a salsichas, hambúrgueres e laticínios sem que esses produtos tenham sido pulverizados diretamente.

Uma das descobertas mais inesperadas da terceira edição foi nos plant-based: duas das três marcas de hambúrgueres vegetais continham resíduos de agrotóxicos, e todas as três marcas de empanado vegetal com sabor de frango apresentaram contaminação. O rótulo “alternativa saudável” não garantiu isenção.

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Alimentos com veneno:

O estudo que nunca deveria ter sido citado

Publicado em 2000 pelos pesquisadores Gary M. Williams, Robert Kroes e Ian C. Munro, o artigo concluía que o glifosato não representava risco de desenvolvimento de câncer e teve impacto significativo nas decisões regulatórias sobre a substância por décadas, segundo a própria revista que o despublicou.

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O editor-chefe Martin van den Berg revelou, no comunicado de retratação, que funcionários da Monsanto participaram da elaboração do texto e que o estudo se baseava em pesquisa exclusiva da empresa. Investigações apontam que os autores podem ter recebido compensações financeiras da Monsanto — fato que não foi declarado no artigo. Os sinais de problema não eram novos: já em 2002, mais de vinte cientistas assinaram uma carta alertando para conflitos de interesses nessa mesma revista. Em 2017, os “Monsanto Papers” — e-mails internos divulgados em processos judiciais — tornaram o envolvimento da empresa na gênese do estudo ainda mais concreto.

A Bayer, que adquiriu a Monsanto, sustenta que o envolvimento da empresa “não chegou ao nível de autoria e foi devidamente divulgado na seção de agradecimentos”. A retratação oficial diz o contrário.

No Brasil, o artigo subsidiou o parecer técnico contratado pela Anvisa em 2016 e a Nota Técnica nº 12/2020, que culminaram na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 441, de dezembro de 2020 — a decisão que manteve o glifosato no mercado sem alteração na classificação de risco cancerígeno.

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A toxicologista Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), diz que o parecer externo usado pela Anvisa durante a reavaliação cita justamente esse estudo do ano 2000, com várias falhas metodológicas, para desqualificar outros estudos que apontavam o glifosato como cancerígeno.

Mais de 1.200 toneladas desde a decisão da Anvisa

Desde que a RDC nº 441/2020 confirmou a liberação do herbicida, mais de 1.200 toneladas foram comercializadas no país. Os dados do Ibama para 2024 registram 231,9 mil toneladas de glifosato vendidas naquele ano — volume que o mantém como o ingrediente ativo mais comercializado em solo nacional.

A escala histórica é ainda mais expressiva: entre 2012 e 2017, mais de 1 milhão de toneladas do princípio ativo circularam pelo mercado brasileiro, segundo a Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz).

Nos Estados Unidos, o preço já foi pago em juízo. A Bayer desembolsou mais de 11 bilhões de dólares para encerrar cerca de 100 mil processos movidos por vítimas do Roundup — o produto comercial à base de glifosato. No Brasil, esse capítulo ainda não começou.

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Ausência de limites e silêncio regulatório

A Anvisa reconhece a metodologia do Idec e a relevância dos resultados — mas não inclui ultraprocessados no monitoramento do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA). A justificativa oficial é que não existe metodologia científica internacional para fixar limites de resíduos nessa categoria de alimentos e que, mesmo que existisse, definir parâmetros produto a produto “seria inviável na prática”.

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O efeito concreto desta posição é que não há como afirmar se as quantidades detectadas nos testes do Idec estão acima ou abaixo do permitido — porque os parâmetros simplesmente não existem para ultraprocessados. A conformidade com a legislação brasileira, invocada por fabricantes como Seara e BRF em resposta às notificações do Idec, não responde a essa lacuna: ela confirma apenas que o produto respeita regras que não foram escritas para ele.

Entidades pedem suspensão

Após a retratação do estudo de 2000, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, a Fiocruz e o Idec protocolaram ofício conjunto na Anvisa pedindo reavaliação urgente e suspensão temporária dos registros do glifosato, da atrazina e do alacloro. O pedido se apoia na RDC nº 221/2018, que permite reavaliação de ingredientes ativos com novos indícios de risco a qualquer tempo.

A Anvisa respondeu que as evidências científicas disponíveis até o momento não justificam a proibição do registro no Brasil. A agência afirmou ainda que o artigo invalidado “não foi o único dado utilizado” e que o processo de reavaliação “analisa um conjunto extenso de estudos”.

A nova reavaliação do glifosato, determinada por ação judicial movida por organizações ambientalistas e de segurança alimentar, está prevista para este ano. Será o primeiro teste regulatório sério após a anulação do principal estudo que sustentou a última decisão da Anvisa sobre a substância.

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CONSUMIDOR

Greve da Caixa continua após rejeição da proposta final do banco

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Cartazes vermelhos de bancários anunciam a greve da Caixa na porta de vidro de agência fechada no Distrito Federal

Plano de saúde dos empregados concentra o impasse, e a Caixa avalia recorrer à Justiça do Trabalho por meio de dissídio coletivo

Os empregados da Caixa Econômica Federal rejeitaram a proposta final apresentada pelo banco e decidiram manter a greve nacional iniciada na quinta-feira (10). Até o fechamento desta reportagem, a greve da Caixa seguia por tempo indeterminado, enquanto as entidades sindicais tentavam retomar as negociações. O principal ponto de divergência é o Saúde Caixa, plano de assistência médica dos funcionários.

Na base do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, 68% dos trabalhadores votaram contra a proposta em assembleia encerrada às 23h de sexta-feira (11). O texto apresentado pela instituição previa mudanças no modelo de custeio do plano de saúde e nas regras de coparticipação.

Caixa avalia dissídio coletivo

Antes da votação, a Caixa afirmou que a proposta era final e indicou que poderia recorrer à Justiça do Trabalho caso fosse rejeitada. O banco deve avaliar o ingresso de um dissídio coletivo, instrumento pelo qual a Justiça do Trabalho estabelece condições para solucionar o impasse entre empregados e instituição.

Apesar da rejeição, a Caixa afirmou que mantém o diálogo aberto com as entidades representativas dos trabalhadores e que pretende buscar um entendimento.

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Como a greve da Caixa começou

A paralisação começou na quinta-feira (10), depois que os trabalhadores rejeitaram uma proposta anterior para a renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT). Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), mais de 90% das bases sindicais haviam rejeitado aquele texto.

Em São Paulo, no Paraná e em outras regiões, agências amanheceram fechadas no início da greve. Os caixas eletrônicos continuaram disponíveis.

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O que a Caixa ofereceu

A proposta rejeitada tinha validade até sexta-feira (11). Ela reunia um prêmio de R$ 3 mil por empregado e o pagamento, em 18 de setembro, do salário reajustado, da Participação nos Lucros e Resultados (PLR), do Super Caixa e do próprio prêmio.

No plano de saúde, o banco oferecia elevar de 6,5% para 8% o limite de participação da Caixa no custeio do Saúde Caixa, antecipar a parcela da empresa referente à 13ª mensalidade de 2028, 2029 e 2030 e pagar valores relativos ao PAMS a partir de 2027. O pacote incluía ainda R$ 236 milhões em ações de prevenção à saúde a partir de janeiro de 2027 e a criação de grupos de trabalho para discutir melhorias na eficiência do plano e novas fontes de financiamento.

As regras propostas para o Saúde Caixa

As mudanças no plano de saúde concentraram a maior parte das divergências. A contribuição dos empregados ficaria entre 2,3% e 4,1% sobre o salário-base, conforme a faixa etária, com cobrança por dependente entre R$ 480 e R$ 660, a depender da idade. O teto anual de coparticipação subiria de R$ 3,6 mil para R$ 4,8 mil por grupo familiar, com limite de 9% para o grupo familiar e piso de R$ 50 por beneficiário.

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A proposta previa também a cobrança de 13 mensalidades, o aumento de R$ 75 para R$ 150 no valor da consulta em pronto-socorro, fora do teto, a isenção de coparticipação em atendimentos por telemedicina e o recadastramento anual obrigatório.

Titulares que atualmente estão fora do plano teriam uma janela de 90 dias para aderir. Após o cancelamento, porém, não seria possível retornar ao Saúde Caixa.

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Atendimento durante a paralisação

A Caixa orienta os clientes a priorizar os canais digitais e remotos enquanto durar a greve: o aplicativo Caixa, o internet banking, o WhatsApp Caixa, o Caixa Tem e os aplicativos Cartões Caixa, Habitação Caixa, DPVAT e FGTS. Também seguem disponíveis os caixas eletrônicos, a rede Banco24Horas, as lotéricas e os correspondentes Caixa Aqui.

O atendimento telefônico permanece disponível pelo Alô Caixa, nos números 4004-0104, para capitais e regiões metropolitanas, e 0800-104-0104, para as demais localidades.

Banco do Brasil

A situação é diferente no Banco do Brasil. Na maior parte dos sindicatos, a categoria aprovou uma proposta apresentada pela instituição e trabalhou normalmente na sexta-feira (11). A paralisação permanece em 18 bases sindicais, onde os trabalhadores não encerraram o movimento.

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Os próximos desdobramentos dependem da decisão da Caixa sobre o ingresso do dissídio coletivo na Justiça do Trabalho e da tentativa das entidades sindicais de retomar as negociações. Enquanto isso, a greve segue por tempo indeterminado.

 

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