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MED 2.0 do Pix bloqueia saldo de contas intermediárias em rastreio de golpes, e manual não fixa limite de camadas

O MED 2.0, obrigatório desde 2 de fevereiro de 2026, rastreia o dinheiro de golpes por Pix além da primeira conta, bloqueia saldo em contas intermediárias e marca como fraudador o recebedor cuja notificação o banco aceitar, mesmo sem devolução. O manual do Banco Central não fixa o limite de camadas, e desde 1º de setembro o prazo para contestar uma devolução subiu de 30 para 80 dias.

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Celular mostra tela de contestação do MED Pix com botão vermelho; ao fundo, silhueta desfocada e fita amarela de fraude

Manual do Banco Central prevê marcação de fraude “independentemente de a devolução ser efetuada ou não”, e o limite de camadas do rastreio não consta da resolução nem do manual

O Banco Central tornou obrigatória, em 2 de fevereiro de 2026, a versão do MED Pix, o Mecanismo Especial de Devolução, que segue o dinheiro de um golpe para além da primeira conta, bloqueia saldo em contas intermediárias e marca como fraudador o recebedor cuja notificação o banco aceitar, com ou sem devolução. E quase ninguém sabe como funciona. A regra está na Resolução BCB 493, de 28 de agosto de 2025, e no Manual Operacional do DICT. A mudança responde a um número do próprio BC: em 2025, pela apresentação de 14 de outubro daquele ano aos participantes do Pix, o MED recuperava em média 9,3% do valor contestado.

O que muda para quem só recebeu

Até a versão anterior, o bloqueio e a devolução alcançavam apenas a primeira conta recebedora. Na nota de 28 de agosto de 2025, o BC escreveu que os fraudadores “conseguem retirar rapidamente os recursos dessa conta e transferi-los para outras contas” e que, quando o cliente reclama, “é comum que essa conta já não possua fundos para viabilizar a devolução”.

Quando a vítima contesta um Pix, o banco dela abre no DICT um pedido de recuperação de valores, nome oficial da rotina nova. O DICT, diretório de contas do Pix operado pelo BC, monta um grafo de rastreamento a partir da transação contestada, seleciona por algoritmo o caminho mais provável de dispersão e envia notificações de infração aos bancos das contas desse caminho, todas ao mesmo tempo. Cada banco notificado deve “bloquear imediatamente os recursos solicitados nas contas de seus usuários, até o limite do saldo disponível”, e repetir o bloqueio se entrar dinheiro novo enquanto o valor pedido não for atingido.

Quem tem conta nesse caminho entra no processo sem ter contestado nada. O manual do DICT fixa que a aceitação da notificação pelo banco “gera uma marcação de fraude ao usuário recebedor da transação subjacente, independentemente de a devolução ser efetuada ou não”. Na apresentação de outubro de 2025 aos bancos, o BC listou entre os objetivos dos modelos de rastreio “minimizar fricções sobre usuários que terão recursos bloqueados”.

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O que significa o bloqueio do MED Pix

O banco é obrigado te avisar, pelos Requisitos Mínimos para a Experiência do Usuário em vigor, o recebedor da transação original “e os demais recebedores envolvidos na suspeita de fraude” devem ser notificados, com nome do pagador, data e hora da transação, valor, motivo do bloqueio, valor bloqueado e “prazo máximo do bloqueio (11 dias)”. No modelo de mensagem que o documento traz, o cliente lê que o valor pode permanecer bloqueado por 11 dias.

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O desbloqueio só ocorre em três hipóteses previstas no manual: quando o banco rejeita a notificação, quando conclui a solicitação de devolução ou quando a recuperação de valores é cancelada ou encerrada. Quando a devolução chega a uma conta intermediária, o dinheiro sai dela e vai direto para a vítima, com o próprio banco figurando como pagador da transação.

Quanto tempo dura o bloqueio do MED

Os bancos notificados têm sete dias corridos para aceitar ou rejeitar as notificações. Fechada a análise, o banco da vítima tem 72 horas para iniciar a devolução; se não iniciar, o DICT encerra o caso. Cada banco que devolve tem seis horas para efetivar o pagamento, e as solicitações são enviadas uma após a outra. Na nota de agosto de 2025, o BC previu que a identificação dos caminhos “permitirá a devolução de recursos em até 11 dias após a contestação”.

Para a vítima, o prazo para contestar é de 80 dias contados da transação. Desde 1º de setembro, o mesmo prazo vale para quem recebeu um Pix legítimo e teve o valor devolvido por uma contestação fraudulenta: antes eram 30 dias contados da devolução. A alteração consta da Instrução Normativa BCB 766, de 27 de julho de 2026, e a IN 767, de 30 de julho, reescalonou as datas de vigência.

Marcação de fraude fica visível a todos os bancos

Pela FAQ do BC atualizada em 27 de fevereiro de 2026, a instituição que faz a marcação “deve impedir movimentações na conta, exceto para devoluções”, e o cliente marcado não pode registrar chave Pix, consultar chave nem pedir portabilidade naquela instituição, além de ficar “sujeito à restrição de envio e de recebimento de Pix”. Na mesma FAQ: “todas as instituições participantes do Pix têm acesso às notificações de infração” na consulta de chave ou de CPF e CNPJ, incluindo as dos últimos 60 meses.

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A orientação do BC é procurar a instituição de relacionamento “e solicitar o cancelamento da marcação de fraude”, e “a instituição que fez a marcação pode solicitar documentos que comprovem a transação”. O Guia do MED prevê que o banco recebedor cancele a marcação do próprio cliente, por um serviço específico do DICT, “caso julgue que não se tratava de caso de fraude”.

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Quantas camadas o rastreio alcança

O número de camadas não consta da resolução nem do manual. O manual define a profundidade do grafo pela “quantidade de camadas”: a transação contestada é a primeira, as transferências feitas pelo recebedor dela formam a segunda, “e assim sucessivamente”. A profundidade máxima é um parâmetro opcional, informado pelo banco que abre o pedido. Consta do mesmo manual, na seção sobre o rastreamento: “O Banco Central estabelecerá os critérios mínimos para que uma transação seja rastreável. Os participantes serão comunicados sobre os critérios vigentes e eventuais mudanças.”

Em novembro de 2025 a funcionalidade ficou disponível para uso opcional com “grafos de profundidade 1”, só a transação raiz. Em 2 de fevereiro de 2026 passou a ser obrigatória para provedores de conta transacional e liquidantes especiais. A ampliação da profundidade dos grafos foi marcada para produção em 11 de maio de 2026. A partir de 26 de outubro, cada notificação de infração passa a informar ao banco em qual camada está a transação, pelo campo TransactionDepth.

A versão 8.5 do manual do DICT entra em vigor em duas datas: 1º de setembro, para o prazo de contestação de devolução, e 26 de outubro de 2026, para a informação de camada na notificação. O Fórum Pix registrou para o segundo semestre de 2026 a definição de critérios mínimos para classificar uma transação como de “suspeita de fraude” ou “fundada suspeita de fraude”, e a próxima plenária está marcada para 26 de novembro.

 

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DESTAQUE

Minha Atividade: o registro que o Google mantém do que você pesquisa e assiste — e como desligar

A Conta do Google guarda suas buscas, os vídeos que você assistiu e os sites por onde passou. A reportagem percorreu as telas de controle numa conta real e explica o que cada uma grava, como desligar e o que a empresa continua coletando depois.

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Ilustração da página Minha Atividade do Google, com ícone de perfil cercado pelos logotipos dos serviços da empresa
Com a publicidade personalizada desligada, as ferramentas para bloquear anúncios e limitar temas sensíveis aparecem como convite para religá-la — Reprodução/Google

A página está lá, basta entrar na sua conta para vê-la, e os itens vêm com dia e hora. Esta reportagem verificou as telas de controle numa conta real e leu a documentação do Google sobre cada configuração, para explicar o que se grava, como desligar e o que continua acontecendo depois. O passo a passo está no fim do texto.

Abra myactivity.google.com antes de continuar lendo. Segundo a central de ajuda do Google, a página exibe atividades “como pesquisas feitas, sites acessados e vídeos assistidos”, com data e horário. Nem tudo o que a conta guarda aparece ali — a Linha do Tempo do Maps, por exemplo, tem registro próprio —, e o que se vê depende de quais serviços você usa e de quais configurações estão ativadas. Quem nunca teve o registro ligado, ou já apagou tudo, vai encontrar a lista vazia.

Você pode não se lembrar de ter autorizado esse registro, e os documentos ajudam a entender por quê: a configuração central vinha ligada de fábrica. Ao anunciar, em 14 de novembro de 2022, um acordo de US$ 391,5 milhões com o Google, procuradores-gerais americanos escreveram que o Histórico de Localização fica desligado até o usuário ativá-lo, mas que a Atividade na Web e de Apps era outra história: “a separate account setting, is automatically ‘on’ when users set up a Google account, including all Android phone users” — configuração de conta separada, ligada automaticamente quando o usuário abre uma conta Google, inclusive todos os usuários de telefones Android. A autoridade de concorrência e consumo da Austrália havia descrito o mesmo padrão, em comunicado de agosto daquele ano sobre a multa que a Corte Federal do país aplicou à empresa por conduta praticada entre 2017 e 2018: “was turned on by default”, vinha ligada por padrão. O Google não admitiu as conclusões do acordo americano, e nenhum documento atual da empresa localizado por esta reportagem informa qual é o estado padrão hoje.

Há também uma discussão jurídica em aberto sobre o que o Google precisa pedir. A LGPD permite tratar dados pessoais mediante consentimento do titular, mas também “quando necessário para atender aos interesses legítimos do controlador ou de terceiro” — hipótese que dispensa autorização, sujeita ao balanceamento com os direitos e liberdades fundamentais de quem é titular dos dados. O Marco Civil da Internet, por sua vez, assegura ao usuário “consentimento expresso sobre coleta, uso, armazenamento e tratamento de dados pessoais, que deverá ocorrer de forma destacada das demais cláusulas contratuais”. Em sua página sobre sites parceiros, o Google diz que “o processamento pode acontecer com seu consentimento ou em nome de interesses legítimos, como fornecimento, manutenção e melhoria dos nossos serviços para atender às necessidades dos usuários”, sem especificar qual fundamento ampara a publicidade — ponto em que a autoridade brasileira tem posição restritiva, como se verá adiante.

Dá para desligar tudo isso, e o roteiro está no fim desta reportagem. Antes, convém saber o que o desligamento resolve e o que não resolve — porque o próprio Google avisa, no alto da página onde ficam esses controles:

“O Google sempre coleta, usa e processa dados de acordo com nossa Política de Privacidade. Por exemplo, independente dessas configurações, o Google pode coletar e usar dados que não estão associados à sua conta.”

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A frase correspondente em inglês foi acrescentada aos avisos de privacidade do Google depois de um julgamento na Califórnia. Em setembro de 2025, um júri federal considerou a empresa responsável por violação de privacidade e intrusão contra usuários que haviam desligado a configuração que registra sua atividade em sites e aplicativos de terceiros, e entendeu que o Google não provou a defesa de consentimento que apresentou. Quando o caso voltou ao juiz Richard Seeborg, em janeiro deste ano, ele relatou que os avisos tinham sido emendados após o julgamento e comentou o novo texto: “This change now tells Google’s users what they need to know” — a mudança agora diz aos usuários do Google o que eles precisam saber.

Há ainda um efeito que a reportagem encontrou na conta verificada e que aparece detalhado mais adiante: com a publicidade personalizada desligada, as ferramentas do Google para bloquear anúncios indesejados e para limitar anúncios de álcool e de jogos de azar não apareciam na tela como controles, e sim como convite para religá-la.

Onde fica a Minha Atividade e onde ficam os controles

Guardar a atividade e usá-la para escolher anúncios são decisões tomadas em páginas diferentes. A gravação fica nos Controles de Atividade, que reúnem a Atividade na Web e de Apps, o Histórico do YouTube e a Linha do Tempo. O uso publicitário fica na Minha Central de Anúncios. “Em Minha atividade, é possível controlar se as atividades serão salvas na sua Conta do Google”, diz a central de ajuda. “Sua atividade também pode ser usada para mostrar anúncios mais relevantes e interessantes nos Serviços do Google. Na Minha Central de Anúncios, é possível controlar se a sua atividade será usada em publicidade.”

Quem desliga apenas a personalização continua com o histórico sendo gravado. “Esse histórico pode continuar salvo na sua Conta do Google”, avisa a ajuda ao explicar o que muda quando o usuário retira o histórico do YouTube da publicidade.

No painel de Dados e privacidade, os controles aparecem em blocos separados, com palavras diferentes para o mesmo estado — uns como “Desativada”, outros como “Pausado”. A reportagem encontrou nesse painel o item de personalização da Pesquisa marcado como ativado. Aberto o recurso, a tela dizia outra coisa: “Você não terá uma experiência de personalização completa, porque a ‘Atividade na Web e de apps’ está desativada”.

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O que o Google guarda sobre você

A Atividade na Web e de Apps, ligada, salva “pesquisas e atividades nos produtos e serviços do Google, como a Pesquisa e o Maps”, além de “informações associadas à sua atividade, incluindo idioma, referenciador, se você usa um navegador ou um app e o tipo de dispositivo usado”. A atividade “também pode incluir informações sobre seu local usando a área geral e o endereço IP do dispositivo”. Na mesma lista entram “anúncios em que você clica ou itens comprados no site de um anunciante”, “informações no dispositivo, como pesquisas recentes por apps ou nomes de contatos” e “interações com o Google Assistente, incluindo ativações não intencionais”. Uma linha da página avisa que “é possível que atividades sejam salvas mesmo quando você estiver off-line”.

Três caixas menores ficam dentro dessa configuração, marcadas em separado. A que alcança a navegação fora dos produtos da empresa chama-se “Incluir o histórico do Chrome e a atividade em sites, apps e dispositivos que usam Serviços do Google”, e a própria página condiciona essa parte: “O histórico do Chrome só será salvo se você tiver feito login no Chrome e sincronizado o histórico.” As outras duas caixas são “Incluir atividade de voz e áudio” e “Incluir o histórico de pesquisa visual”.

A Linha do Tempo, antigo Histórico de Localização, vem desligada por padrão. “Quando a linha do tempo está ativada, mesmo que os apps do Google não estejam em uso, o local exato do dispositivo será salvo regularmente”, informa a ajuda. Ela tem três subopções, e uma delas é de uso declaradamente comercial: “Ajudar empresas a estimar se os anúncios delas são eficazes com base na Linha do tempo”.

O Histórico do YouTube guarda vídeos assistidos e pesquisas feitas na plataforma. E no rodapé dos Controles de Atividade a empresa fixa um limite, “O conteúdo do Google Fotos, Drive e Gmail nunca é usado para fins publicitários”.

O que acontece com o YouTube ao desativar o histórico

Para quem não tem histórico de exibição anterior relevante e indicou que não quer recomendações baseadas nele, a página inicial do YouTube deixa de mostrar vídeos. É a regra descrita na ajuda em português, que nesse caso remove “recursos como as recomendações na página inicial do YouTube”.

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Tela incial do YouTube com o hitórico desativado. Mas não se aborreça, bast ir até o item suas incrições, a esquerda e clicar nela, em seguida aparecerá as publicações das suas inscrições, e não os vídeos que o YouTube escolheu para você.

Na prática, uma caixa ocupa o lugar do feed, com a frase “O histórico de exibição está desativado” e um botão convidando a religar. Barra de pesquisa, menu lateral e acesso às inscrições permanecem visíveis.

Sem anúncios personalizados, some o filtro de álcool e jogos de azar

A Minha Central de Anúncios, na conta verificada, tinha os anúncios personalizados desligados e havia mudado de endereço, passando a terminar em “personalizationoff”. A tela exibia o título “Anúncios que você pode controlar”, a instrução “Para começar, ative os anúncios personalizados” e um botão “Começar agora”.

Abaixo, quatro cartões descreviam o que estaria disponível. Um deles é a ferramenta para reduzir anúncios sobre temas sensíveis, apresentada assim: “Está dando um tempo de álcool ou jogos de azar? Você também pode limitar os anúncios sobre esses assuntos.” O cartão “Bloqueie anúncios indesejados” traz a condição por escrito: “Com os anúncios personalizados ativados, é possível bloquear publicidade diretamente nos sites do Google, incluindo o YouTube, e dos nossos parceiros.”

Na central de ajuda a formulação é mais aberta. “Talvez alguns recursos da Minha Central de Anúncios não fiquem disponíveis se você tiver desativado os anúncios personalizados ou se tiver saído da sua Conta do Google”, diz uma de suas páginas. Nenhum documento público do Google localizado por esta reportagem afirma que o filtro de temas sensíveis para de funcionar com a personalização desligada. O que a reportagem observou foi o estado da tela em uma conta, com as quatro ferramentas exibidas como convite para religar a personalização. A veiculação dos anúncios não foi testada.

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Outra tela não pôde ser aberta. A página que ajusta anúncios em sites parceiros, listada no painel de privacidade como “Opções de anúncios em sites e apps que têm parceria com o Google”, é servida através do domínio googleads.g.doubleclick.net, por um endereço que contém a instrução “getcookie”. Uma extensão de segurança instalada no navegador bloqueou o acesso, por classificar o destino como servidor de anúncios. O conteúdo da página não pôde ser lido.

O que o Google continua coletando mesmo desativado

Os controles interrompem o salvamento na conta e a personalização. O que segue depois disso está descrito pela empresa em suas próprias páginas.

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Para parte de seus serviços, o Google vem substituindo a Atividade na Web e de Apps por uma configuração chamada Histórico de Serviços da Pesquisa, que cobre a Pesquisa, o Google Notícias, Maps, Shopping, Voos, Hotéis e Tradutor. A mudança ainda não terminou — “essas mudanças serão lançadas aos poucos nos próximos meses”, diz o aviso — e não elimina a configuração antiga, que “continua controlando a coleta de atividades e a personalização de alguns outros Serviços do Google”. Sobre a nova configuração desativada, a ajuda descreve o que permanece: “o Google pode usar de forma temporária dados como suas pesquisas recentes para garantir que você receba resultados relevantes”; e “também vamos coletar e usar dados que não estão vinculados à sua conta, inclusive para manter o funcionamento estável e seguro dos serviços e para apoiar nossas operações comerciais”.

Sites de terceiros são outro caminho. Numa página com vídeo do YouTube embutido, com Google Analytics ou com anúncios do AdSense, “seu navegador da web envia automaticamente certas informações ao Google. Isso inclui o URL da página que você está acessando e seu endereço IP”, diz a empresa, que acrescenta: “Usar o modo de navegação anônima no Chrome ou similares não impede a coleta de dados quando você visita sites que usam os Serviços do Google.”

Desativada a personalização, ainda segundo essa página, “o Google não coletará nem usará suas informações para criar um perfil de anúncios”, mas “você ainda verá anúncios” e “suas informações ainda podem ser utilizadas para as outras finalidades mencionadas acima, como medição da eficácia da publicidade e proteção contra fraude e abuso”.

Os cookies de publicidade têm prazos diferentes conforme o país. Os identificados como “IDE” e “id” valem, pela política da empresa, “13 meses no Espaço Econômico Europeu (EEE), na Suíça e no Reino Unido e por 24 meses em outros lugares”.

Desligar não apaga: como excluir o histórico da Minha Atividade

Com os controles desligados desde 5 de setembro e o cabeçalho da página informando “Atividade na web e de apps — Desativada”, a lista de atividades da conta verificada continuava exibindo registros do mês anterior, item a item, com data e horário. “O histórico antigo que você não excluir poderá ser usado mesmo quando você mudar essa opção”, diz a ajuda. “Ele é excluído com base na configuração de exclusão automática, que você pode mudar quando quiser.”

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O prazo padrão de descarte é um ponto em que as fontes do próprio Google não coincidem. A página institucional de segurança, em português, fala em 18 meses para quem ativa o Histórico de Localização pela primeira vez e para a Atividade na Web e de Apps em contas novas. Uma publicação da empresa, de dezembro de 2023, anunciou que para a Linha do Tempo o padrão passaria a três meses. E em junho de 2020, apresentando os prazos automáticos, Sundar Pichai escreveu que usuários que já tinham o Histórico de Localização e a Atividade na Web e de Apps ligados não teriam suas configurações alteradas, “we won’t be changing your settings”, e que a empresa passaria a lembrá-los dos controles de exclusão automática por notificações e e-mails.

Seus direitos pela LGPD e o que exigir do Google

Desde a Emenda Constitucional 115, de 2022, a Constituição assegura “nos termos da lei, o direito à proteção dos dados pessoais, inclusive nos meios digitais”. A Lei Geral de Proteção de Dados dá ao titular o direito de obter do controlador “confirmação da existência de tratamento”, “acesso aos dados”, “eliminação dos dados pessoais tratados com o consentimento do titular” e “informação das entidades públicas e privadas com as quais o controlador realizou uso compartilhado de dados”, entre outros. Para confirmação e acesso, a lei fixa prazo de até 15 dias. Prevê ainda que dados usados “para formação do perfil comportamental de determinada pessoa natural, se identificada” poderão ser considerados dados pessoais para os fins da lei.

Qual base legal ampara o tratamento para publicidade é um ponto que a reportagem não encontrou esclarecido nas páginas públicas do Google. Na que trata de sites parceiros, a empresa remete à política de privacidade para os “fundamentos legais” e diz que “o processamento pode acontecer com seu consentimento ou em nome de interesses legítimos, como fornecimento, manutenção e melhoria dos nossos serviços para atender às necessidades dos usuários” — o exemplo dado é de serviços, não de anúncios, e a frase não indica em qual das duas hipóteses a publicidade se enquadra. A política de privacidade em português, consultada para esta reportagem, não traz seção sobre bases legais. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados, por sua vez, em guia de outubro de 2022 sobre cookies, restringe o caminho do legítimo interesse nesse terreno: “o legítimo interesse dificilmente será a hipótese legal mais apropriada nas hipóteses em que os dados coletados por meio de cookies são utilizados para fins de publicidade”. Segundo o guia, isso se verifica em especial quando a coleta é feita por cookies de terceiros e está associada a práticas como a “formação de perfis comportamentais” e o “rastreamento do usuário por páginas eletrônicas distintas”. Para a autoridade, “o consentimento pode ser considerado uma hipótese legal mais apropriada para o uso de cookies de publicidade, observados os requisitos legais aplicáveis e as circunstâncias do caso concreto”.

O mesmo guia, na parte sobre banners de cookies, inclui entre as práticas a evitar “apresentar cookies não necessários ativados por padrão, exigindo a desativação manual pelo titular”.

ANPD não tem processo sobre publicidade do Google

O levantamento da reportagem nos registros públicos de fiscalização da ANPD não localizou processo de monitoramento, de fiscalização ou sancionador que tenha o Google como objeto por publicidade comportamental, cookies ou perfilamento. As listas publicadas pela autoridade têm data de atualização entre agosto e outubro de 2025.

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Nessas listas, a empresa aparece num processo sobre indicação de encarregado e canal de comunicação com titulares. Em agosto deste ano, a autoridade anunciou outros dois procedimentos, sobre conteúdos criminosos e proteção de crianças, adolescentes e mulheres, que alcançam o YouTube, a Google Play Store e o Gemini, ao lado de outras plataformas. Publicidade não é objeto de nenhum deles.

Um único processo sancionador da ANPD tem objeto explícito de publicidade direcionada, e não é contra o Google: corre contra uma rede de farmácias, para “investigar suposta prática de perfilização comportamental a partir de dados pessoais sensíveis, sem o devido amparo legal, a fim de ofertar publicidade direcionada com contrapartida financeira (monetização de dados pessoais sensíveis)”. O processo está em andamento, e a própria autoridade adverte que sua instauração não significa condenação.

A ANPD já atuou contra grandes plataformas. Em julho de 2024 suspendeu cautelarmente o uso de dados de brasileiros pela Meta para treinar inteligência artificial, sob multa diária de R$ 50 mil, depois que sua área técnica anotou que a opção de recusa oferecida pela empresa “não é disposta de maneira evidente, e a complexidade para exercício dessa opção assemelha-se a um padrão obscuro de mascaramento de informações”. Em agosto do mesmo ano a medida foi suspensa, com a aprovação de um plano de conformidade apresentado pela Meta.

Os cookies constavam do mapa de temas prioritários da autoridade, com o objetivo de “aferir a aderência à recomendação do guia e verificar a eventual necessidade de normatizar o tema por instrumento infralegal”. A reportagem não localizou resultado público dessa aferição.

Sobre a Senacon e o Ministério Público Federal não foi possível verificar nada. A página do Ministério da Justiça que registraria procedimentos da Senacon contra o Google retornou “Conteúdo Restrito”, exigindo autenticação; no portal do MPF, os endereços de notícias sobre ações contra a empresa retornaram página não encontrada, após a migração do site.

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Google já pagou bilhões por rastrear com a localização desligada

Em novembro de 2022, o Google fechou acordo de US$ 391,5 milhões com 40 procuradores-gerais estaduais americanos, por rastreamento de localização. O documento descreve o mecanismo: Histórico de Localização e Atividade na Web e de Apps são configurações independentes, e desativar uma não afeta a coleta feita pela outra; quando o usuário impede o rastreamento por uma delas, o Google é capaz de rastrear e monetizar sua localização pela outra, se estiver ligada. Consta ali também que, durante anos, uma página da empresa garantia aos usuários de Android que, com o Histórico de Localização desativado, os lugares por onde passassem deixariam de ser armazenados. O Google não admitiu as conclusões.

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Já em janeiro daquele ano, quando essa leva de ações começou a ser ajuizada, a empresa havia publicado sua resposta no blog corporativo: “These suits mischaracterize and inaccurately describe the settings and controls we provide users over location data” — as ações caracterizam mal e descrevem de forma inexata as configurações e os controles oferecidos aos usuários sobre dados de localização.

Estados isolados fecharam acordos antes e depois do multiestadual: Arizona (US$ 85 milhões, outubro de 2022), Indiana (US$ 20 milhões) e Distrito de Colúmbia (US$ 9,5 milhões), ambos em dezembro de 2022, Washington (US$ 39,9 milhões, maio de 2023) e Califórnia (US$ 93 milhões, setembro de 2023). Nesse último, o procurador-geral Rob Bonta afirmou que o Google dizia aos usuários que não rastrearia mais sua localização depois que optassem por sair, e fazia o oposto, “but doing the opposite and continuing to track its users’ movements for its own commercial gain”. Em outubro de 2025 a empresa assinou acordo de US$ 1,375 bilhão com o Texas, sobre geolocalização, navegação anônima e identificadores biométricos; a reportagem não localizou o texto desse acordo.

Na Austrália, a Corte Federal multou a empresa em 60 milhões — o comunicado da autoridade de concorrência e consumo do país registra “$60 million” — em agosto de 2022, por representações enganosas sobre coleta de localização em aparelhos Android, conduta que a empresa corrigiu até dezembro de 2018. Segundo esse comunicado, a Atividade na Web e de Apps “was turned on by default”, vinha ligada por padrão, e os dados de localização retidos por ela podiam ser usados para direcionar anúncios “even if those consumers had the ‘Location History’ setting turned off”, mesmo com o Histórico de Localização desligado.

A ação de que trata mais de perto o assunto desta reportagem é outra, movida contra o Google na Justiça Federal da Califórnia: ajuizada em 2020, foi a julgamento em 2025. O júri considerou a empresa responsável por violação de privacidade e intrusão e rejeitou sua alegação de consentimento; quanto à acusação prevista na lei estadual de acesso indevido a dados, entendeu que os autores não a comprovaram. Também não reconheceu má-fé, opressão ou fraude, o que afastou os danos punitivos, e recomendou negar a devolução de lucros, num pronunciamento que a decisão posterior classificou como meramente consultivo. A sentença final, de março de 2026, fixou danos compensatórios de US$ 247,2 milhões para a classe de usuários de Android e US$ 178,5 milhões para a de não usuários, somando US$ 425,7 milhões, acrescidos de juros diários. Em janeiro o juiz já havia negado o pedido de proibição de conduta e o de devolução de lucros, estimado pelos autores em US$ 2,36 bilhões. Ao descrever a tese dos autores nessa mesma decisão, escreveu: “Google collected Plaintiffs’ data after it said it would not” — o Google coletou os dados dos autores depois de dizer que não o faria. Em agosto deste ano, o juízo negou o pedido de novo julgamento, feito pelos autores, e o pedido do Google para reverter a condenação. Até o começo de setembro não havia recurso registrado nos autos.

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Nos autos, a empresa sustentou ter alterado os avisos de privacidade sobre essas configurações de forma proativa e preventiva.

Como desativar o rastreamento do Google: passo a passo

O que foi conferido em tela, em 7 de setembro de 2026, numa conta real, no computador, com os controles já desligados: os itens 1, 3, 4, 7 e 8. O que vem das instruções e das páginas publicadas pelo próprio Google, sem execução pela reportagem: os itens 2, 5, 6, 9, 10 e 11. Se a sua tela mostrar “Histórico de Serviços da Pesquisa”, ele controla o histórico da Pesquisa e de serviços como Maps, Notícias e Tradutor, e a Atividade na Web e de Apps continua existindo para os demais: desligue as duas.

1. Veja o que existe hoje. Acesse myactivity.google.com. A lista traz pesquisas, sites e vídeos, com data e hora. Cada item tem um link “Detalhes” que, segundo o Google, mostra data, hora e o motivo pelo qual a atividade foi salva.

2. Baixe uma cópia, se quiser guardar. Em takeout.google.com dá para exportar tudo antes de apagar. O próprio Google avisa que baixar não exclui nada dos servidores.

3. Desligue a gravação. Vá a myactivity.google.com/activitycontrols e desligue:

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  • Atividade na Web e de Apps — e desmarque as três caixas internas: “Incluir o histórico do Chrome e a atividade em sites, apps e dispositivos que usam Serviços do Google”, “Incluir atividade de voz e áudio” e “Incluir o histórico de pesquisa visual”. A primeira alcança sua navegação fora dos serviços do Google, e a página observa que o histórico do Chrome só é salvo para quem fez login no navegador e sincronizou o histórico.
  • Linha do Tempo — e desmarque as três subopções: “Ajudar empresas a estimar se os anúncios delas são eficazes com base na Linha do tempo”, “Compartilhe as edições na Linha do tempo e os dados relacionados para melhorar sua experiência” e “Personalize as pesquisas do Google Recompensa sua Opinião com base nos dados da sua Linha do Tempo”.
  • Histórico do YouTube — e as duas caixas, de vídeos assistidos e de pesquisas.

4. Confira o painel de Dados e privacidade. Em myaccount.google.com/data-and-privacy aparecem itens que não estão na tela anterior, entre eles “Histórico do Google Play” e “Personalizar o Google Play”, cada um com seu próprio estado. Vale percorrer o painel inteiro e conferir item a item.

5. Apague o que já está gravado. Este passo é separado dos anteriores. Em myactivity.google.com, clique em Excluir, depois em “Todo o período”, Avançar e Excluir. No YouTube, atenção: apagar o histórico de exibição apaga junto o de pesquisa do mesmo período.

6. Defina a exclusão automática. Para manter o histórico com prazo, use a opção de exclusão automática em cada configuração e escolha 3, 18 ou 36 meses. Vale conferir o que está valendo na sua conta: em 2020, ao criar os prazos automáticos, o Google informou que não alteraria as configurações de quem já tinha esses históricos ligados.

7. Anúncios. Em myadcenter.google.com fica o controle “Anúncios personalizados”. Antes de desligá-lo, considere o que a reportagem viu na conta verificada: com a personalização já desligada, as ferramentas de bloquear anúncios indesejados e de limitar anúncios sobre temas sensíveis, como álcool e jogos de azar, apareciam como convite para religá-la.

8. Revise quem tem acesso à sua conta. No painel de Dados e privacidade, o item “Apps e serviços de terceiros” reúne as conexões da sua conta com aplicativos de fora.

9. No celular Android. É possível excluir o identificador de publicidade do aparelho. Segundo o Google, “os apps ainda podem mostrar anúncios, mas talvez eles não sejam tão relevantes ou interessantes”.

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10. O que os controles da conta não alcançam. Sites de terceiros com Analytics, AdSense ou vídeo do YouTube embutido continuam enviando ao Google o endereço da página e o seu IP, inclusive em janela anônima. As configurações da conta determinam se esses dados são salvos no seu perfil e usados para anúncios; o envio em si não é comandado por elas.

11. Se quiser exercer seus direitos. Pela LGPD, você pode exigir do Google confirmação de que trata seus dados e acesso a eles, com resposta em até 15 dias, além de correção, informação sobre com quem foram compartilhados e eliminação dos dados tratados com base no seu consentimento. Não sendo atendido, leve a reclamação à ANPD ou aos órgãos de defesa do consumidor.

Como esta reportagem foi feita. Os trechos entre aspas atribuídos ao Google foram copiados das páginas oficiais da empresa — política de privacidade, páginas de tecnologias e centrais de ajuda em português — ou das telas da Conta do Google, verificadas em 7 de setembro de 2026 numa conta real. Essas telas estavam com os controles já desligados, o que delimita o que pôde ser observado; foram capturadas as imagens dos Controles de Atividade, da Minha Central de Anúncios e da página inicial do YouTube. O aviso reproduzido no início do texto é o exibido em português; a frase comentada pelo juiz americano é a correspondente em inglês, transcrita na decisão judicial. Citações originalmente em inglês são reproduzidas no idioma original, seguidas do relato da reportagem sobre o que dizem. As informações sobre os casos da Austrália e do Texas vêm dos comunicados das respectivas autoridades. Decisões judiciais e acordos foram lidos nos documentos dos tribunais e nos comunicados oficiais; acordos administrativos não implicam admissão de responsabilidade. Os textos legais foram consultados no Planalto e os documentos da ANPD, em seus arquivos públicos. As posições do Google reproduzidas aqui são as que a empresa manifesta em seus documentos oficiais, em seu blog e em juízo.

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