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Queimadas em Mato Grosso

Mato Grosso soma 5,6 mil focos de fogo em 2026; Paranatinga lidera e agosto dispara

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FOCOS DE INCÊNDIO

Levantamento do Conexão MT sobre dados brutos do INPE mostra alta de 5,9% sobre o mesmo período de 2025; dez municípios concentram quase 43% das detecções e agosto já responde por um terço do total do ano

Mato Grosso registrou 5.596 focos de fogo ativo entre 1º de janeiro e 17 de agosto de 2026, segundo levantamento do Conexão MT realizado diretamente sobre os arquivos abertos do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O número representa alta de aproximadamente 5,9% em relação ao mesmo intervalo de 2025, quando foram contabilizados 5.282 focos pelo mesmo satélite de referência.

O dado que mais chama atenção, porém, está em agosto. Somente nos primeiros 17 dias deste mês, o INPE registrou 1.852 focos em Mato Grosso. No mesmo período de agosto de 2025 haviam sido 727. O avanço é de aproximadamente 155%.

Agosto já concentra 33,1% de todos os focos registrados no estado em 2026, apesar de o mês ainda não ter terminado.

Paranatinga lidera ranking

A distribuição dos focos está longe de ser uniforme pelo território mato-grossense. Paranatinga aparece na primeira posição, com 427 detecções entre janeiro e 17 de agosto.

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Na sequência estão Nova Nazaré, com 298; Colniza, com 267; Campinápolis, com 257; e Marcelândia, com 252.

Os dez municípios com maior número de focos acumulam 2.388 registros, equivalentes a 42,7% de todas as detecções de Mato Grosso no período.

Municípios com mais focos em 2026

Posição Município Focos
Paranatinga 427
Nova Nazaré 298
Colniza 267
Campinápolis 257
Marcelândia 252
Nova Maringá 240
Tangará da Serra 205
São Félix do Araguaia 153
União do Sul 150
10º Nova Ubiratã 139
11º Brasnorte 137
12º Juara 134
13º Canarana 128
14º Gaúcha do Norte 125
15º Cláudia 119
16º Luciara 112
17º Porto dos Gaúchos 105
18º Aripuanã 103
19º Tabaporã 91
20º Alto Boa Vista 88

Fonte: levantamento do Conexão MT sobre arquivos de dados abertos do Programa Queimadas/INPE. Período: 1º de janeiro a 17 de agosto de 2026.

Os 20 primeiros municípios somam 3.530 focos, ou 63,1% do total estadual. Ao todo, 127 municípios mato-grossenses aparecem com pelo menos uma detecção na base analisada e 18 já ultrapassaram a marca de 100 focos em 2026.

Paranatinga quase dobra número de focos

A comparação municipal com o mesmo intervalo de 2025 mostra mudanças importantes no mapa do fogo.

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Paranatinga tinha 229 focos até 17 de agosto do ano passado. Em 2026 são 427, crescimento de aproximadamente 86,5%.

Em Nova Nazaré, o salto foi ainda mais expressivo: de 97 para 298 focos, avanço superior a 200%.

Campinápolis passou de 107 para 257, alta de cerca de 140%. União do Sul avançou de 59 para 150, aproximadamente 154%.

Nem todos os municípios líderes, entretanto, registraram crescimento. Colniza caiu de 371 focos no mesmo intervalo de 2025 para 267 neste ano, redução de 28%. Nova Maringá passou de 289 para 240, queda de 17%.

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A movimentação indica que, além da variação do número estadual, houve uma mudança espacial importante na concentração das detecções.

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Agosto muda a curva de 2026

Os registros mensais mostram uma aceleração abrupta a partir de maio, seguida por uma explosão das detecções em agosto.

Mato Grosso teve 245 focos em janeiro; 127 em fevereiro; 164 em março; e 191 em abril. Em maio, o número saltou para 831 e, em junho, alcançou 1.440.

O dado de junho é confirmado pelo Boletim Infoqueima do INPE. Naquele mês, Mato Grosso teve o maior número de focos entre os estados brasileiros, à frente de Tocantins e Bahia.

Julho terminou com 746 registros. Já entre 1º e 17 de agosto, foram 1.852.

Evolução mensal em 2026

Período Focos
Janeiro 245
Fevereiro 127
Março 164
Abril 191
Maio 831
Junho 1.440
Julho 746
1º a 17 de agosto 1.852
Total 5.596

Em apenas 17 dias, agosto já superou todo o mês de junho em 412 focos, aumento de 28,6% sobre aquele que, até então, era o mês com maior número de detecções em 2026.

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A comparação com agosto de 2025 também mostra a dimensão da mudança. Nos primeiros 17 dias daquele mês foram 727 focos; neste ano, 1.852.

Cerrado cresce; Pantanal mais que dobra

A divisão dos registros por bioma mostra que a Amazônia ainda concentra a maior quantidade absoluta de focos dentro de Mato Grosso, com 3.075 detecções, equivalentes a 54,9% do total estadual.

O Cerrado aparece com 2.425 focos, ou 43,3%, enquanto o Pantanal contabiliza 96, equivalente a 1,7%.

Quando a comparação é feita com o mesmo período de 2025, entretanto, o comportamento é diferente entre os três biomas.

Na Amazônia mato-grossense, os focos recuaram de 3.334 para 3.075, queda de aproximadamente 7,8%.

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No Cerrado, houve movimento inverso: passaram de 1.907 para 2.425, crescimento de 27,2%.

No Pantanal, apesar do número absoluto ser muito menor, as detecções passaram de 41 para 96 — aumento de aproximadamente 134%.

O que é um foco de fogo?

O número de focos não pode ser interpretado como quantidade equivalente de incêndios.

O próprio INPE ressalta que a relação entre um foco detectado pelo satélite e uma queimada ou incêndio não é direta.

Um foco representa um pixel no qual o sensor identificou fogo ativo. Uma grande frente de incêndio pode ocupar vários pixels e, consequentemente, gerar vários focos. No sentido inverso, diferentes pequenas frentes de fogo existentes dentro do mesmo pixel podem resultar em uma única detecção.

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Além disso, o sistema identifica a presença de fogo, mas a contagem de focos, isoladamente, não informa a extensão da área queimada. Por isso, o indicador é especialmente útil para acompanhar tendências espaciais e temporais quando se utiliza o mesmo satélite e períodos comparáveis.

Essa distinção também impede tratar automaticamente cada foco como uma ocorrência criminosa. A detecção via satélite identifica fogo na vegetação; a definição da origem, da legalidade e das circunstâncias depende de fiscalização e investigação em campo.

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Próximos meses exigem atenção

A aceleração ocorre justamente quando os órgãos federais projetam aumento do risco de fogo no Centro-Oeste.

O segundo boletim do Painel El Niño 2026-2027, produzido por órgãos federais e divulgado pelo INPE, prevê para o trimestre agosto-setembro-outubro uma intensificação significativa do risco de fogo no interior do Brasil. O documento aponta expansão das áreas classificadas como “Alerta Alto” principalmente sobre o Centro-Oeste, com destaque para Mato Grosso, e recomenda intensificação do monitoramento, da prevenção e da preparação operacional.

Para a Amazônia Legal, o mesmo documento aponta perspectiva de queimadas intensas no trimestre em estados que incluem Mato Grosso.

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A situação levou o Governo de Mato Grosso a declarar estado de emergência ambiental entre abril e dezembro de 2026, por meio do Decreto nº 2.015, de 28 de abril.

Desde 1º de julho também está em vigor o período proibitivo de uso do fogo. A restrição alcança áreas rurais dos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal e segue até 30 de novembro. Durante esse intervalo, está proibido o uso do fogo para limpeza e manejo de áreas rurais.

BOX — Os números de 2026

5.596 focos em Mato Grosso até 17 de agosto
+5,9% em relação ao mesmo período de 2025
1.852 focos somente nos primeiros 17 dias de agosto
+155% em agosto na comparação anual
427 focos em Paranatinga, líder estadual
42,7% dos focos estão concentrados nos dez municípios líderes
54,9% das detecções estão no bioma Amazônia
43,3% estão no Cerrado
1,7% estão no Pantanal

Os números ainda são parciais. O Programa Queimadas atualiza suas bases continuamente, e agosto deverá terminar com resultado diferente do retratado nesta reportagem. A evolução durante as próximas semanas será decisiva para indicar se o salto observado na primeira metade do mês será pontual ou marcará uma mudança mais duradoura na temporada de fogo de 2026.

Metodologia: o Conexão MT processou os arquivos mensais oficiais de focos disponibilizados pelo Programa Queimadas/INPE para 2025 e 2026, filtrando os registros do Estado de Mato Grosso e exclusivamente o satélite de referência AQUA_M-T. Para garantir comparabilidade, os dois anos foram recortados entre 1º de janeiro e 17 de agosto. O INPE disponibiliza publicamente os dados em CSV e recomenda o satélite de referência para análises temporais.

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CLIMA

Mato Grosso aprova plano de contingência em saúde para seca e estiagem

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plano de contingência seca

Homologado pela CIB-MT em agosto, documento escalona a resposta do SUS em cinco níveis e fixa gatilhos de queimadas, chuva e internações para acionar cada estágio

A Comissão Intergestores Bipartite de Mato Grosso (CIB-MT) homologou, em 6 de agosto de 2026, o Plano de Contingência para Emergência em Saúde Pública por Seca e Estiagem 2026. A Resolução CIB/MT nº 516 confirmou a aprovação feita em caráter de urgência pela Resolução Ad Referendum nº 69, de 24 de julho, e o plano elaborado pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) passou a valer para toda a rede pública durante a estação seca.

O documento de 57 páginas organiza a atuação de vigilância e atenção à saúde diante dos efeitos da seca, da estiagem, das queimadas e dos incêndios florestais. O objetivo declarado é mitigar impactos, reduzir surtos, preservar a qualidade da água para consumo humano e proteger populações vulneráveis, com atenção a comunidades indígenas e rurais.

A aprovação em regime de urgência tem base no regimento interno da CIB-MT, que autoriza resolução ad referendum diante de catástrofes e situações críticas. O ato leva as assinaturas do presidente da comissão, Juliano Silva Melo, e do presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (COSEMS/MT), Marco Antônio Norberto Felipe.

Escala de cinco níveis de resposta – do verde ao roxo

A estratégia central do plano é uma escala de cinco níveis de resposta, do nível zero (normalidade, cor verde) ao nível IV (crise, cor roxa), passando por mobilização (amarela), alerta (laranja) e situação de emergência (vermelha). Cada nível tem indicadores objetivos de acionamento e uma lista de atividades obrigatórias para as áreas de vigilância ambiental, epidemiológica, sanitária e de saúde do trabalhador, além do laboratório central, da imunização, da atenção primária e da rede hospitalar.

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Os focos de calor funcionam como um dos principais gatilhos. Menos de 100 focos por semana caracterizam normalidade. Entre 100 e 180, o estado entra em mobilização. Entre 180 e 240, em alerta. Entre 240 e 500, configura-se situação de emergência. Acima de 500 focos semanais, crise.

A precipitação acumulada em 30 dias segue lógica parecida: igual ou acima de 80% da média histórica indica normalidade, e abaixo de 20% indica crise. O plano também monitora o nível de mananciais medido pela Defesa Civil, o número de municípios com decreto ativo de emergência por estiagem e o acesso de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas à água potável.

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Os serviços de saúde entram na régua. Aumento de 10% a 19% nas internações por doenças respiratórias aciona a mobilização. De 20% a 29%, o alerta. A partir de 30%, configura-se situação de emergência, estágio que também considera a existência de 6 ou mais municípios com rodízio ou uso exclusivo de caminhão-pipa. No nível de crise, o indicador é a ocupação total de leitos com necessidade de transferências por internações respiratórias, cenário que o documento descreve como “colapso generalizado no fornecimento de água, energia e assistência à saúde”.

O peso das queimadas no cenário de risco

O cenário de risco que sustenta o plano se apoia em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Brasil registrou 278.299 focos de incêndio entre janeiro e dezembro de 2024, o maior número desde 2010. Mato Grosso foi o segundo estado mais afetado, com 50.551 focos (18,2% do total nacional), atrás apenas do Pará, com 56.070 (20,1%).

Somente em setembro de 2024 foram 19.964 focos de calor no território mato-grossense. Desse total, 14.760 se concentraram em 36 municípios: 25,53% das cidades responderam por 74% das ocorrências.

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Entre 2015 e 2024, o Sistema Integrado de Informações sobre Desastres registrou 1.389 ocorrências em Mato Grosso. Os eventos climatológicos representaram 67,46% do total, e os incêndios florestais, sozinhos, responderam por 56,95% dos registros, à frente das chuvas intensas, com 17,64%.

O que a seca faz com a saúde

A baixa umidade, a poeira e a fumaça agravam doenças respiratórias como rinite, asma, bronquite, sinusite e pneumonia. A escassez de água compromete higiene e saneamento e eleva o risco de doenças diarreicas agudas e hepatites A e E. O armazenamento de água em recipientes no nível do solo favorece criadouros do Aedes aegypti, mantendo a transmissão de dengue, chikungunya e zika mesmo no período seco. O documento lista ainda desnutrição, doenças de pele e transtornos psicológicos como ansiedade, estresse e depressão.

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A relação entre fumaça e internação já foi medida na região. Estudo liderado por Eliane Ignotti, pesquisadora da Universidade do Estado de Mato Grosso, publicado em 2010 na Revista de Saúde Pública, analisou as microrregiões da Amazônia brasileira, território mato-grossense incluído: a cada ponto percentual de aumento no indicador de exposição ao material particulado fino das queimadas, a taxa de internação de idosos por doenças respiratórias subiu 10%, e a de crianças, 8%.

O monitoramento epidemiológico de 2024 registrou um pico de doenças diarreicas agudas entre as semanas epidemiológicas 33 e 36, durante o período seco, quando os casos ultrapassaram o limite superior esperado. As internações por todas as causas também tenderam a subir entre maio e setembro em 2023 e 2024.

Sala de situação, COE e o papel dos municípios

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O plano estabelece o fluxo de comunicação de desastres: a referência técnica de vigilância do município afetado deve preencher formulário nacional do programa VIGIDESASTRES preferencialmente em até 48 horas após o evento, sempre que houver danos humanos, unidades de saúde afetadas ou comprometimento de serviços essenciais.

A ativação de sala de situação ou de um Centro de Operações de Emergência (COE) será solicitada pelo Comitê de Monitoramento de Emergência, coordenado pelo Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (CIEVS), e decidida pelo secretário adjunto de Vigilância e Atenção à Saúde. Entre as ações previstas estão a distribuição de hipoclorito de sódio a 2,5% para tratamento de água, a intensificação do programa VIGIAGUA sobre fontes alternativas como caminhões-pipa e cisternas, e a autorização para hospitais cofinanciados executarem urgência e emergência pelos valores do programa Fila Zero.

 

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