Pesquisar
Close this search box.

Desinformação em pré-campanha

Antivacina: posts do vereador Ranalli alcançam 430 mil visualizações em uma semana, com 31 publicações e 32 perfis

O vereador de Cuiabá Rafael Ranalli assina 31 publicações contra a vacina em sete dias, 18 criadas por ele, numa rede de 32 perfis com mais de 430 mil visualizações. O conjunto usa a audiência de Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos, que tratou da origem do coronavírus e não da eficácia dos imunizantes, e vai de imagem fabricada por inteligência artificial a alegações sobre tecido fetal, infarto em jovens, militares mortos e a acusação de genocídio contra quem defendeu a vacinação. A onda é nacional: vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira com o mesmo teor passou de 37 milhões de visualizações na mesma semana, republicado pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro. Na Câmara de Cuiabá, o vereador chegou a propor a proibição de multa a pais que não vacinam os filhos, projeto retirado após parecer contrário.

Publicado em

rede de perfis desinformação vacina
Imagem retirada de vídeo postado nas redes sociais pelo vereador.

Rogério Florentino, autor desta reportagem, é um dos 12 jornalistas selecionados entre profissionais de todas as regiões do país, em chamada nacional da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), para a atual equipe de investigação do Projeto Comprova, coalizão de checagem sem fins lucrativos que reúne jornalistas de 42 veículos de comunicação brasileiros e treinou cerca de 500 profissionais na última década.

Policial federal e pré-candidato a deputado federal, o vereador de Cuiabá assina 31 publicações contra a vacina em sete dias, 18 delas criadas por ele, numa rede de 32 perfis de vários estados. Só os vídeos com contador público somam mais de 430 mil visualizações, piso do alcance real, além de 12,9 mil comentários e 11,3 mil compartilhamentos. O material explora a audiência de Anthony Fauci no Senado americano, sessão que não tratou de eficácia nem de segurança de vacina, e o diário pessoal do imunologista, divulgado às vésperas pelo presidente do comitê, o senador Rand Paul (do Partido Republicano, o mesmo de Donald Trump), já com a interpretação que o próprio senador faz do documento. Fauci, imunologista, chefiou por 38 anos o instituto nacional de doenças infecciosas dos Estados Unidos, aconselhou sete presidentes, de Reagan a Biden, e foi o rosto da resposta à pandemia naquele país. Os posts da rede se apoiam em estudo retirado do ar e em números que se desfazem na primeira conferência

Nota da redação: esta reportagem é extensa. Combater desinformação é uma disputa desigual. O boato não precisa de justificativa, de confirmação no mundo real nem de argumento fundamentado. A verificação precisa de tudo isso, e cada alegação examinada aqui exigiu documento, registro oficial ou estudo revisado por pares. O objetivo é oferecer a quem lê, e às pessoas de bom senso que vão conversar sobre o assunto com amigos e parentes, elementos em conformidade com a realidade dos fatos, com a ciência e com o que foi verificado ao longo da pandemia e depois dela. Este é um trabalho jornalístico e profissional, não um texto de ideologia: tanto faz de que lado do espectro político você está. Se a verdade dos fatos lhe interessa, leia até o final.

São 31 publicações contra a vacina em sete dias (de 31 de julho a 6 de agosto), assinadas por 32 perfis, com mais de 430 mil visualizações somadas apenas nos vídeos que exibem contador público, 12,9 mil comentários e 11,3 mil compartilhamentos. Esse é o tamanho da rede que Rafael Ranalli (PL) integra e alimenta no Instagram. Boa parte das publicações remete, pela hashtag #Fauci, à audiência do imunologista Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos, realizada em 29 de julho. Naquela sessão não se discutiu eficácia nem segurança de vacina: o interrogatório tratou da origem do coronavírus, do financiamento de pesquisas na China e das decisões de fechamento adotadas durante a pandemia.

A pauta dos posts cobre ivermectina, hidroxicloroquina, máscara, confinamento, tecido fetal em pesquisa, morte súbita de atletas, infarto em jovens, militares mortos e a acusação de genocídio contra quem defendeu a vacinação.

Advertisement

Rafael Beal Ranalli é policial federal desde 2006, cumpre o primeiro mandato como vereador em Cuiabá e disputará uma vaga na Câmara dos Deputados em outubro.

O homem no centro da mira

Anthony Stephen Fauci tem 85 anos e passou 38 deles à frente do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. Assumiu a direção em 1984, sob Ronald Reagan, e saiu em dezembro de 2022. No intervalo, aconselhou sete presidentes americanos em surtos de HIV e aids, vírus do Nilo Ocidental, antraz, gripe pandêmica, ebola e zika. Na covid-19 acumulou a função de conselheiro médico-chefe da Presidência e virou o rosto das medidas sanitárias no país, das recomendações de máscara ao esforço de vacinação.

O próprio Fauci explicou o silêncio antes de silenciar. Nos cinco minutos da declaração inicial, disse ter deposto ao Congresso mais de 200 vezes ao longo da carreira. Desta vez, argumentou, o quadro era outro. Diante da “obsessão” do presidente do comitê “em pedir que eu seja processado”, dos “repetidos comentários caluniosos” e da divulgação pública do diário pessoal dele sem tarjas, “com o objetivo de me constranger e me intimidar”, a única conclusão que disse conseguir alcançar é a de que a convocação tinha um único propósito: fazê-lo dizer algo que confirmasse as promessas públicas do senador de vê-lo, nas palavras do próprio Rand Paul, “atrás das grades”. Foi com esse fundamento, e por orientação dos advogados, que invocou a Quinta Emenda a cada pergunta.

No Brasil, não é preciso reconstituir o que Fauci fez ou disse para que o nome funcione: ele chega carregado do sentido que a disputa americana lhe deu. A audiência de 29 de julho ofereceu a imagem que faltava, a de um homem calado diante de senadores, e é essa imagem, não o conteúdo do que foi perguntado, que atravessou o equador.

Convém precisar o que aconteceu ali, porque a sessão não é um julgamento. O ato de 29 de julho está registrado no calendário oficial do Congresso americano como audiência do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado, instrumento de fiscalização com que o Legislativo examina a conduta de agentes públicos. Não há acusação formal contra Fauci, não há juiz na mesa e comissão parlamentar não condena ninguém. O paralelo brasileiro mais próximo é o depoimento numa CPI. Fauci esteve lá como depoente, não como réu.

Advertisement

O que Fauci foi perguntado

A audiência existiu e está registrada na página oficial do Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado americano, presidido pelo senador Rand Paul. Fauci compareceu sob intimação, leu uma declaração de abertura e depois se recusou a responder às perguntas, invocando a Quinta Emenda da Constituição dos Estados Unidos mais de cem vezes. A garantia protege contra a autoincriminação e equivale, no direito brasileiro, ao direito ao silêncio previsto no artigo 5º, inciso LXIII, da Constituição.

A transcrição parcial divulgada pelo gabinete do senador James Lankford, integrante do comitê, permite reconstituir o que foi perguntado. As questões trataram do fechamento compulsório de igrejas durante a pandemia, de anotações pessoais de Fauci de janeiro de 2020 sobre dados genômicos, de um registro do dia 31 daquele mês a respeito de mutações no vírus, de um documento desclassificado do Lawrence Livermore National Laboratory e do acesso a dados chineses. A cada uma delas, Fauci respondeu que, por orientação de seus advogados, se recusava a responder com base nos direitos assegurados pela Quinta Emenda.

Nenhum estudo, dado ou revisão científica sobre vacinas foi apresentado na sessão. Nenhuma agência reguladora retirou aprovação de imunizante em razão dela. A recusa em responder tampouco constitui confissão: é exercício de garantia constitucional, sob orientação de defesa técnica, e não produz informação sobre imunogenicidade, efetividade ou perfil de segurança de qualquer vacina.

A anotação sobre o sarampo

Entre os papéis que Lankford leu em voz alta durante a audiência havia uma anotação de Fauci datada de 6 de maio de 2020, sobre conversa com Robert Redfield, então diretor do centro americano de controle de doenças. O registro trata de mais de um milhão de crianças que haviam perdido a vacinação contra o sarampo por causa dos fechamentos. Nele, Fauci escreveu que isso era terrível, precisava ser levado à força-tarefa e que, só por esse motivo, morreriam muito mais crianças de sarampo do que de coronavírus.

O documento que a audiência tornou público, e que as publicações usam como prova de que Bolsonaro estaria certo, mostra o então diretor do instituto americano de alergia e doenças infecciosas alarmado com a queda da cobertura vacinal infantil. Perguntado na sessão se chegou a levar o alerta à força-tarefa, Fauci invocou a Quinta Emenda também para essa pergunta.

Advertisement

A anotação está nas 1.141 páginas do diário que Rand Paul divulgou. Os destaques públicos do senador ao apresentar o material, porém, trataram de supostas contradições com declarações antigas e da hipótese do laboratório. O alerta sobre o sarampo não figura entre eles, e nenhum dos posts da rede o menciona.

A técnica de desinformação tem nome

Antes dos posts, o método. Nada do que a rede publicou inventa um fato do zero. As publicações partem de acontecimentos reais e verificáveis: o silêncio de Fauci diante dos senadores, protegido pela Quinta Emenda, as anotações pessoais dele lidas em voz alta na sessão e o diário de 1.141 páginas que o senador Rand Paul, presidente do comitê e crítico de Fauci desde a pandemia, divulgou nos dias anteriores à audiência, já com a leitura do próprio senador anexada: a de que os registros contradiriam declarações públicas do imunologista e sustentariam a tese do vazamento de laboratório, que ele defende sem apresentar provas conclusivas, conforme registrou a Agência Lupa. Foi esse enquadramento, mais que o documento, que atravessou para as redes brasileiras. Os posts reempacotam esses materiais como prova de teses que a audiência não produziu: a de que a vacina falhou, a de que Bolsonaro tinha razão, a de que a ciência escondeu tratamentos. Um pedaço de verdade, um deslocamento de contexto, uma conclusão que não estava lá.

Essa operação é estudada e tem nome: falso contexto. O relatório Information Disorder, publicado pelo Conselho da Europa em 2017 e assinado pelos pesquisadores Claire Wardle e Hossein Derakhshan, tornou-se referência mundial ao separar três fenômenos: a informação falsa espalhada sem intenção, a informação falsa fabricada para causar dano e a malinformação, que é informação verdadeira usada fora de contexto para causar dano. Entre os tipos descritos está exatamente esse, o falso contexto: conteúdo genuíno recirculado com enquadramento que ele não tem. A legislação eleitoral brasileira nomeia a mesma conduta: a resolução do TSE que rege a propaganda veda o conteúdo manipulado para difundir fatos “notoriamente inverídicos ou descontextualizados”.

A ofensiva que se seguiu à audiência foi nacional, e reportagem da BBC News Brasil de 5 de agosto descreve por que Nikolas Ferreira e outros bolsonaristas voltaram a explorar a desinformação sobre a pandemia de covid-19 às vésperas da eleição. A rede mato-grossense documentada aqui opera como braço local dessa onda, e a articulação desce ao detalhe técnico, porque parte dos posts que levam a assinatura do vereador saiu em publicação conjunta com perfis de outros estados. O monitoramento da Agência Lupa, publicado em 4 de agosto, mediu o fenômeno em escala nacional: o vídeo de Nikolas Ferreira à frente, o termo “fraudemia” de volta aos grupos de Telegram e 28,6 mil menções a Fauci nas redes em português entre o dia da audiência e 3 de agosto. E a onda não para nos perfis de militância. O mesmo levantamento da Lupa registrou que o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, republicou o vídeo de Nikolas no próprio perfil e compartilhou outros dois conteúdos sobre o tema. A mesma massa de desinformação que os posts de Cuiabá integram chega, assim, ao topo da disputa presidencial. O que segue, post a post, é a anatomia dessa técnica aplicada em escala.

A máquina e o repertório

As 31 publicações saem em modo colaborativo, recurso do Instagram em que um mesmo post aparece, ao mesmo tempo e com um único contador, no feed de todos os perfis que aceitaram assiná-la. Dezoito são do próprio vereador, com legenda assinada por ele e, em parte delas, sem coautor algum. O perfil dele se apresenta no cabeçalho de cada post com a categoria autodeclarada de “Criador de conteúdo de IA”. As demais são colaborações que ele aceitou assinar com páginas e perfis de vários estados, entre eles a Nação Conservadora, o Tapa Libertário, o vereador paulista Renan Paes e o Saito Junior, com 561 mil seguidores. É ação conjunta no sentido literal do recurso, encaixada na onda nacional que transformou a audiência de Fauci em prova de que Bolsonaro “tinha razão”: na mesma semana, vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira com esse teor passou de 37 milhões de visualizações, e a fala da deputada federal Júlia Zanatta, do PL de Santa Catarina, pedindo julgamento e prisão para quem obrigou a vacinação circulou num dos posts de maior engajamento do conjunto, publicado em 1º de agosto pela página Movimento Libertário do Brasil com o vereador entre os coautores, na contramão do que o Superior Tribunal de Justiça decidiu em 2025.

Advertisement

Além do que o vídeo do vereador concentra, os posts atribuem à vacina mortes de atletas e infartos em jovens, dizem que ela matou mais americanos do que as guerras mundiais, associam os imunizantes ao uso de tecido fetal e chamam de genocida quem defendeu a vacinação, com médicos e enfermeiros citados por categoria. O efeito aparece nos comentários: sob um dos posts, uma seguidora escreveu que “agora que descobrimos que as vacinas da nefasta covidddd não funcionam”, queria saber “o que fazer e a quem recorrer na justiça”. A conclusão que nenhuma legenda enuncia é a que os leitores extraem. As seções seguintes conferem as alegações verificáveis uma a uma, começando pelo vídeo que o próprio vereador gravou, passando pelos posts que ele assina e chegando aos do restante da rede. Nenhuma resiste.

Cinco afirmações do vídeo de Ranalli foram conferidas: 100% não se sustentam.

No vídeo que publicou em 2 de agosto, o vereador faz cinco afirmações, conferidas aqui contra documento, registro oficial e literatura revisada por pares. Diz que Fauci “tinha gavetado” um estudo com “70% a 60% de eficácia” da ivermectina. Usa a morte de uma adolescente como prova contra a vacina da Pfizer. Relata tomar “quatro comprimidinhos” de ivermectina por mês como prevenção. Chama máscaras e distanciamento de inutilidade total. E garante que o Brasil foi um dos países que melhor atravessaram a pandemia. Uma a uma:

O vereador diz que Fauci “tinha gavetado um estudo que dizia que de 70% a 60% de eficácia do uso de ivermectina ou mesmo de hidroxicloroquina”. O estudo escondido não existe. Na audiência, o senador Ron Johnson, republicano de Wisconsin, ergueu uma pilha de papéis dizendo haver dezenas de estudos sobre ivermectina, todos publicados e de acesso público havia anos. Estudos publicados e de acesso público não podem ter sido engavetados. Os percentuais de 60% a 70% não constam de nenhum registro da sessão e circulam a partir de um agregador autopublicado, sem revisão por pares.

O vídeo insere trecho de emissora sobre uma adolescente de 16 anos que teria passado mal “horas depois de tomar a vacina da Pfizer”. O caso foi investigado e concluído. A Anvisa informou em 16 de setembro de 2021 que apurava a reação adversa grave ocorrida em 2 de setembro. Seis dias depois publicou a conclusão, validada pelo comitê que reúne Ministério da Saúde, Anvisa e Fiocruz: o diagnóstico foi de púrpura trombótica trombocitopênica, uma doença autoimune, e “a causalidade foi classificada como coincidente, ou seja, descartou-se a possibilidade de o óbito ter sido relacionado à administração da vacina”. O intervalo entre a dose e a morte foi de cerca de sete dias, não de horas. O Ministério da Saúde chegou a orientar a suspensão da vacinação de adolescentes sem comorbidades, a Anvisa se posicionou contra, o Supremo garantiu a continuidade por liminar e a orientação foi revertida.

“Eu fazia o tratamento sim, eu usava quatro comprimidinhos uma vez por mês e nunca peguei Covid”, relata ele. A revisão Cochrane sobre ivermectina é categórica: “nenhum ensaio investigou a ivermectina para prevenção de infecção” e “não há evidência disponível sobre ivermectina para prevenir a infecção por SARS-CoV-2”. O Ministério da Saúde mantém página dedicada ao tema, com a mesma conclusão e o registro dos riscos: hepatotoxicidade, síndrome de Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica e indução de resistência parasitária, que compromete a eficácia do remédio nas doenças para as quais ele de fato serve. As vendas de ivermectina no Brasil subiram 557% em 2020.

Advertisement

“A falácia das máscaras, inutilidade total”, diz ele, e o “distanciamento social que não serviu para nada”. O estado da evidência é mais interessante que a caricatura. Uma metanálise publicada no BMJ em 2021 encontrou risco relativo de 0,47 para máscaras e 0,75 para distanciamento, ambos com significância estatística. Um ensaio randomizado em 600 vilarejos de Bangladesh, com 342 mil adultos, mediu efeito modesto no conjunto e claro entre idosos com máscara cirúrgica. A revisão Cochrane de 2023, a mais citada por quem afirma que máscara não funciona, é inconclusiva, e não negativa: a editora-chefe da Cochrane Library publicou nota dizendo que interpretar a revisão como prova de que “máscaras não funcionam” é “impreciso e enganoso”, e que o trabalho “não é capaz de responder se o uso de máscara reduz o risco”. Não saber o tamanho exato do efeito é diferente de não haver efeito.

“O Brasil é um dos países que melhor passou aquele momento tão difícil”, garante ele. Os dados da Organização Mundial da Saúde dizem o contrário. O país tem 704.045 mortes confirmadas, o segundo maior número absoluto do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. São 3.310 mortes por milhão de habitantes, cerca de 3,7 vezes a média mundial, de aproximadamente 890. Entre os 118 países com mais de 5 milhões de habitantes, o Brasil está na 11ª pior posição. Argentina teve 2.900 por milhão, México 2.600, Alemanha 2.100, Canadá 1.460, Japão 590.

O que a ciência mediu depois que a audiência acabou

A referência mais recente sobre o desempenho das vacinas em circulação foi publicada na revista JAMA Network Open em 23 de junho de 2026, em acesso aberto. O trabalho analisou atendimentos ocorridos entre 3 de setembro e 31 de dezembro de 2025 em 253 serviços de emergência e pronto-atendimento e 179 hospitais de sete estados americanos, com desenho de caso-controle do tipo teste-negativo, aplicado a adultos imunocompetentes.

Em 85.725 atendimentos de emergência e pronto-atendimento, a efetividade estimada da vacina da temporada 2025-2026 foi de 50%, com intervalo de confiança de 95% entre 42% e 57%. Em 26.073 hospitalizações, a estimativa foi de 55%, com intervalo entre 41% e 66%. Entre pessoas de 65 anos ou mais, os valores foram de 48% contra atendimento de urgência e 53% contra internação.

  • Como ler o gráfico: cada ponto mostra quanto a vacina atualizada de 2025-2026 reduziu o risco de covid-19 grave em adultos americanos que, em sua maioria, já tinham imunidade de doses e infecções anteriores. Mesmo nesse grupo, a dose nova cortou pela metade o risco de a doença levar a um atendimento de urgência (50%) e reduziu em 55% o risco de internação. A barra em volta de cada ponto é a margem de precisão do estudo: o valor real está dentro dela, com 95% de confiança.

A medição é posterior à audiência no Senado americano e alcança a vacina que está sendo aplicada agora, em população que já acumulou imunidade de infecções e doses anteriores. Ainda assim encontra proteção adicional contra desfecho grave.

Parte dessa literatura foi produzida no Brasil. O projeto conduzido em Serrana, no interior paulista, publicado na Scientific Reports em fevereiro de 2026, testou a CoronaVac em desenho de ensaio randomizado por etapas e mediu efetividade contra hospitalização e morte, além de sinal de proteção indireta com o avanço da cobertura. O ensaio clínico de fase 3 da mesma vacina com profissionais de saúde brasileiros saiu na revista Vaccine em 2025. Estudos de efetividade cruzando registros nacionais foram publicados na Nature Medicine e na Lancet Regional Health Americas.

Advertisement

Esses trabalhos também registram os limites. A proteção contra infecção sintomática é menor do que a proteção contra doença grave e cai à medida que os meses passam desde a dose, o que ficou mais visível na era da variante ômicron. Eventos adversos graves existem, ainda que raros, e a miocardite após vacinas de RNA mensageiro em homens jovens é o caso mais documentado. O mesmo estudo de larga escala que identificou esse risco registrou que a infecção pelo coronavírus se associou a risco maior de miocardite e de outras complicações cardiovasculares do que a vacinação.

O site que ninguém assina

O post mais antigo que o vereador publicou no próprio perfil é de 31 de julho, dois dias depois da audiência, em colaboração com dois perfis da rede, e é também o que revela de onde vem o número que ele repetiria no vídeo. O post abre com uma cartela: “FAUCI ALEGOU FRAUDULENTAMENTE QUE A IVERMECTINA NÃO FUNCIONAVA PARA QUE O GOVERNO PUDESSE INJETAR EM TODA A POPULAÇÃO TERAPIAS GÊNICAS AUTORIZADAS PARA USO DE EMERGÊNCIA.” Segue com o senador Ron Johnson interpelando Fauci. E fecha com um gráfico.

O gráfico traz o título “Ivermectin for COVID-19”, a linha “106 estudos com mais de 200 mil pacientes”, os números de 52% de redução de risco em 54 ensaios randomizados e 47% de redução de mortalidade em 53 estudos, e um endereço no rodapé: c19early.org.

Na audiência, Johnson descreve a mesma fonte: um site “que estava rastreando os estudos controlados randomizados”, que mostraria “60, 70 por cento de eficácia da ivermectina”. É o mesmo intervalo que o vereador citaria dois dias depois, no vídeo, ao falar de um estudo que Fauci teria engavetado.

Vale então olhar o site. Ele não tem autor. Todas as análises são assinadas por um coletivo chamado “@CovidAnalysis”, e a página de perguntas frequentes afirma que se trata de “pesquisadores com doutorado baseados nos Estados Unidos” cujo trabalho pode ser encontrado “em revistas como Science e Nature”. Nenhuma dessas afirmações pode ser conferida. A consulta ao registro dos três domínios da rede, feita pela reportagem, devolve titular oculto nos três. Não há entidade, controlador ou financiador identificado.

Advertisement

Também não há revisão por pares, e o próprio site explica por quê: “Por que não publicar num periódico? Nenhum periódico aceita atualizações em tempo real.” A busca nas bases de literatura biomédica por “c19early” e pelo nome anterior do endereço só devolve artigos de terceiros criticando o site.

O método está publicado, e é ali que a conta se desfaz. O site declara que inclui todo estudo que compare ivermectina com um grupo de controle, sem protocolo registrado previamente. Declara que, quando um estudo mede várias coisas, ele usa “o desfecho mais grave” para o cálculo agregado, de modo que morte, ventilação mecânica, internação, recuperação, número de casos e depuração viral entram no mesmo número, um desfecho por trabalho. E declara que rejeita as ferramentas padronizadas de avaliação de qualidade, as mesmas que a medicina baseada em evidência usa há décadas, por considerá-las “inadequadas para este domínio”. Há ainda uma passagem que se explica sozinha: o site diz manter na análise estudos negativos que, segundo ele mesmo, “normalmente seriam retratados”.

Três periódicos revisados por pares tratam do endereço pelo nome. O Clinical Microbiology and Infection, da sociedade europeia de microbiologia clínica, o descreve como “um site contendo várias meta-análises sem credibilidade”. O BMJ Evidence-Based Medicine registra que os sites da rede conduzem meta-análises “sem seguir qualquer diretriz metodológica ou de relato” e sem registro de protocolo, o que gerou “confusão para clínicos, pacientes e até para tomadores de decisão”. O Virology Journal aponta que reportam efeito benéfico “com base em ensaios de baixa qualidade não revisados por pares”. No Brasil, o Aos Fatos verificou a rede em fevereiro de 2021 e apontou que ela dá o mesmo peso a um ensaio randomizado duplo-cego (o padrão-ouro da pesquisa clínica: os pacientes são sorteados entre remédio e placebo, e nem eles nem os médicos sabem quem recebeu o quê, o que elimina boa parte dos vieses) e a um relato de caso (a descrição do que aconteceu com um único paciente, sem grupo de comparação nenhum). Somar os dois como se valessem o mesmo é tratar a prova mais forte e a mais fraca da medicina como equivalentes.

Há um episódio que mede a solidez do conjunto. O maior estudo que sustentava a eficácia da ivermectina foi retirado do ar em 14 de julho de 2021 pelo servidor onde estava depositado, depois que um estudante de medicina de Londres, que o recebera como trabalho de curso, encontrou plágio, e outro pesquisador identificou que pelo menos 79 registros de pacientes eram cópias de outros registros do mesmo arquivo. O c19early apagou o estudo no dia seguinte, e o registro de alterações do site documenta isso. A queda derrubou junto uma meta-análise publicada em periódico indexado, que acabou retratada, e levou outra a receber expressão de preocupação editorial. Reportagem da BBC de outubro daquele ano concluiu que mais de um terço de 26 grandes ensaios com o medicamento tinham erros graves ou sinais de fraude.

Leia Também:  Vento de até 60 km/h coloca Cuiabá e mais 50 cidades de Mato Grosso em alerta nesta sexta

O que o post da fila está defendendo

Entre os posts criados pelo vereador, sem coautor algum, está uma imagem gerada por inteligência artificial que mostra uma fila de militantes do PT esperando para pedir desculpas a Jair Bolsonaro sobre a vacina da covid-19, com o card “candidato a deputado federal Ranalli” aplicado por cima. A fila pressupõe que houve erro de quem criticou. Vale então examinar o que exatamente se pede que seja reconhecido como acerto.

Advertisement

Na compra de vacinas, o relatório final da CPI da Pandemia registra que foram 81 correspondências da Pfizer ao governo brasileiro entre 17 de março de 2020 e 23 de abril de 2021, “das quais 90% não obtiveram respostas”. O representante da empresa para a América Latina detalhou aos senadores as ofertas de 14, 18 e 26 de agosto de 2020, de 30 milhões ou 70 milhões de doses, a dez dólares cada, com uma primeira remessa ainda naquele ano. O contrato só foi assinado em 19 de março de 2021. O Brasil registrou 704.045 mortes por covid-19 até julho deste ano, segundo dados notificados à Organização Mundial da Saúde.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Epidemiologia em 2023 modelou o que teria acontecido com decisões diferentes. Usando dados dos sistemas de informação do Ministério da Saúde entre março de 2020 e junho de 2022, os autores calcularam que a antecipação da vacinação em 40 dias, somada a mais doses e a um nível mais alto de medidas não farmacológicas, teria evitado 391.647 mortes.

No isolamento, a posição estava no pronunciamento em cadeia nacional de 24 de março de 2020, transcrito no relatório da CPI. Ali, autoridades estaduais e municipais foram chamadas a “abandonar o conceito de terra arrasada, como proibição de transporte, fechamento de comércio e confinamento em massa”, e o então presidente disse que, no caso dele, por seu “histórico de atleta”, uma contaminação não passaria de “gripezinha” ou “resfriadinho”.

No tratamento, houve política federal. O documento do Ministério da Saúde de 20 de maio de 2020 prescrevia cloroquina ou hidroxicloroquina com azitromicina para casos leves, moderados e graves, e admitia no próprio texto que “até o momento não existem evidências científicas robustas que possibilitem a indicação de terapia farmacológica específica para a COVID-19”. Em janeiro de 2021 veio o aplicativo TrateCov, que sugeria sempre a mesma lista de sete medicamentos e foi auditado pelo Tribunal de Contas da União. Só em cloroquina e hidroxicloroquina o governo federal empenhou 41 milhões de reais em 2020, dos quais 96% em dezembro daquele ano.

A ciência respondeu a essas duas apostas com ensaios de grande porte. O RECOVERY, no Reino Unido, comparou 1.561 pacientes tratados com hidroxicloroquina a 3.155 em cuidado usual e encontrou mortalidade em 28 dias de 27,0% contra 25,0%, sem benefício. O TOGETHER, conduzido em 12 unidades públicas de saúde de Minas Gerais e publicado no New England Journal of Medicine, testou ivermectina em 679 pacientes contra 679 que receberam placebo e não encontrou redução de internações. A revisão Cochrane sobre ivermectina conclui que, para pacientes ambulatoriais, a evidência disponível indica que o medicamento não tem efeito benéfico.

Advertisement

A conta do atraso na compra também já foi feita, dentro da própria CPI. Em depoimento de 24 de junho de 2021, o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas, apresentou análise estimando que o atraso na aquisição das vacinas da Pfizer e da CoronaVac resultou em 95,5 mil mortes, e relatou que outros pesquisadores, calculando o ritmo que a campanha teria tido com a compra em tempo, chegaram a 145 mil mortes atribuíveis à demora do governo federal. Senadores governistas contestaram a metodologia na mesma sessão, e o embate está registrado na cobertura oficial da Agência Senado.

15.078 vidas perdidas em Mato Grosso

O estado onde os posts foram publicados registrou 15.078 mortes por covid-19 entre 2020 e o primeiro semestre deste ano, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade, que conta pela data do óbito. Pela contagem por notificação, do Ministério da Saúde, foram 15.281 mortes e 933,8 mil casos confirmados até agosto do ano passado. Só Cuiabá enterrou 3.816 pessoas, com taxa de mortalidade 41% superior à média estadual, conforme os painéis do Ministério da Saúde.

A distribuição no tempo diz o resto. Foram 4.388 mortes em 2020 e 9.233 em 2021, ano que sozinho concentra 61,2% de tudo. Março de 2021 foi o mês mais letal, com 2.063 óbitos, seguido de abril, com 2.015. O primeiro semestre daquele ano matou 7.423 mato-grossenses, quase metade de toda a pandemia no estado, em seis meses. Era o período em que a vacinação começava e faltavam doses. A curva dos anos seguintes fecha o quadro: 1.191 mortes em 2022, 139 em 2023 e 94 em 2024, segundo o mesmo sistema.

  • Como ler o gráfico: cada barra é o total de mato-grossenses mortos por covid-19 no ano, pelo registro oficial de mortalidade. A linha tracejada marca a primeira dose de vacina aplicada no país, em 17 de janeiro de 2021. O pior ano é justamente 2021, em vermelho: a vacinação tinha acabado de começar, faltavam doses e a maior parte da população ainda estava desprotegida. De 2022 em diante, com a população vacinada, as mortes despencam de 9.233 para 1.191 e seguem caindo até as dezenas. Os anos de 2025 e 2026 têm dados preliminares.

Em 24 de março de 2021, o painel epidemiológico da Secretaria Estadual de Saúde apontava 98,05% de ocupação dos leitos públicos de UTI. O número está nos considerandos do decreto estadual que endureceu as restrições no dia seguinte.

Vale a comparação com o marco da vacinação. Até 16 de janeiro de 2021, véspera da primeira dose aplicada no país, Mato Grosso somava 4.667 mortes, ou 31% do total. As outras 10.411 vieram depois, concentradas justamente nos meses em que o imunizante ainda não havia chegado à maior parte da população.

Hoje o estado vacina menos que o país. O esquema primário de duas doses alcança 73,60% dos mato-grossenses, contra 86,81% na média nacional. O reforço chega a 38,56%, contra 56,76%. No segundo reforço, 11,48% contra 19,87%.

Advertisement

Três afirmações do vídeo de Alexandre Garcia, repostado por Ranalli: 100% não se sustentam

A fila de desculpas fabricada por inteligência artificial não circula sozinha. No dia 30 de julho, véspera das publicações em Mato Grosso, o jornalista Alexandre Garcia assinou coluna sobre a mesma audiência. O texto virou vídeo, republicado tanto pelo prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, quanto pelo vereador Ranalli.

Garcia escreve que “encheram-nos de mentiras, retiraram vídeos em que eu falava da ivermectina” e que agora se entenderia por que Joe Biden “brindou Anthony Fauci com uma anistia preventiva”. Pergunta, no texto: “que crime ele cometeu para estar sendo anistiado antes?”. E afirma que, na audiência, “mostraram todas as informações que ele já tinha sobre a ivermectina ser eficaz contra a Covid”, mas que Fauci “preferiu tocar a terapia genética e deixar as pessoas serem entubadas, hospitalizadas, quando não precisavam de nada disso”.

São três afirmações verificáveis. Conferidas contra os documentos, o resultado repete o do vídeo do vereador: 100% não se sustentam.

A primeira é o que teria sido exibido na sessão. Nem a página oficial do comitê nem a transcrição divulgada pelo gabinete de Lankford registram apresentação de dados sobre ivermectina. O interrogatório tratou de origem do vírus, financiamento de pesquisas, anotações pessoais e medidas de fechamento.

A segunda é a natureza do perdão. O documento assinado em 19 de janeiro de 2025 concede a Fauci perdão pleno e incondicional por quaisquer crimes “que ele possa ter cometido” entre 2014 e aquela data, no exercício dos cargos que ocupou. A fórmula é hipotética, e é a mesma que Gerald Ford usou em 1974 para perdoar Richard Nixon, que nunca chegou a ser indiciado. Pela Constituição americana, e conforme a Suprema Corte fixou em 1866, o perdão pode ser concedido antes de qualquer acusação. Perdão preventivo não pressupõe crime imputado, e a pergunta “que crime ele cometeu” parte de premissa que o direito daquele país não sustenta.

Advertisement

A declaração presidencial que acompanhou o ato antecipa a leitura que a coluna faz. Diz que a concessão dos perdões “não deve ser tomada como reconhecimento de que qualquer indivíduo tenha cometido irregularidade, nem sua aceitação deve ser mal interpretada como admissão de culpa por qualquer crime”. Há ainda uma imprecisão de tradução que faz trabalho no argumento: o ato foi um perdão, não uma anistia no desenho brasileiro. No direito dos Estados Unidos os dois termos designam o mesmo poder presidencial, e a distinção, segundo a Suprema Corte registrou em 1877, é de interesse filológico, não jurídico.

A terceira é a ivermectina, e sobre ela a resposta já estava dada antes da audiência: o ensaio TOGETHER e a revisão Cochrane, já descritos acima, não encontraram nem redução de internações nem efeito benéfico para pacientes ambulatoriais.

Encadeadas, as três alegações produzem o efeito que nenhuma delas sustenta sozinha: transformar o silêncio de um depoente em atestado de eficácia de um medicamento.

A OMS diz que não mandou em nada, e o post do vereador lê como confissão

Outra publicação do próprio vereador, de 31 de julho, traz Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, falando em inglês. Sobre a imagem, o letreiro: “FIZERAM A GENTE DE BOBO!”, com um emoji de palhaço. E a tarja: “OMS diz que não mandou em nada. Então fomos trancados em casa por quê?” São 24,8 mil visualizações, 417 comentários e 1,5 mil curtidas na varredura de 9 de agosto.

A fala é real. Tedros diz que a organização “não impôs nada a ninguém durante a pandemia de covid-19, nem confinamentos, nem obrigatoriedade de máscara, nem obrigatoriedade de vacina”, que ela “não tem esse poder”, “não o quer” e “não está tentando obtê-lo”, e que a função dela é apoiar governos com orientação baseada em evidência.

Advertisement

O que o post retira é a data e o motivo. A declaração não é de julho de 2026 nem tem relação com a audiência. Vem de janeiro daquele ano, da disputa entre a organização e o governo americano em torno da saída dos Estados Unidos da entidade, formalizada em 22 de janeiro. Em nota oficial de 24 de janeiro, a organização registrou que recomendou máscara, vacina e distanciamento, mas “em nenhum momento recomendou obrigatoriedade de máscara, obrigatoriedade de vacina ou confinamentos”, e que apoiou “governos soberanos a tomar decisões que acreditavam ser as melhores para seu povo, mas as decisões eram deles”. Tedros já dissera o mesmo em maio de 2025, na Assembleia Mundial da Saúde, ao defender o acordo de pandemia.

A inversão é de sentido. O letreiro trata a frase como revelação, como se a organização tivesse acabado de confessar algo. Ela é o oposto: é a afirmação, repetida há anos, de que a entidade não tem poder normativo sobre Estados soberanos. No Brasil, quem fechou comércio e decretou isolamento foram estados e municípios, e o Supremo Tribunal Federal reconheceu essa competência ao julgar a ADI 6341 e a ADPF 672. A resposta à pergunta do card, portanto, existe, e não é a que o card sugere.

Infartos em jovens e mortes de militares, os números conferidos

Um card publicado pelo vereador em 4 de agosto anuncia: “Brasil registra 234 mil casos de infarto e AVC em jovens após a pandemia”. O número existe, mas não é o que o card diz. São mais de 234 mil atendimentos ambulatoriais e internações por infarto, sem nenhum registro de AVC na conta, em menores de 40 anos, somados os anos de 2022 a 2024, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados pela imprensa em 2025. Atendimentos, não pessoas: um mesmo paciente pode gerar vários registros. Quando o Estadão Verifica pediu os mesmos dados ao ministério, a reconsolidação devolveu cerca de 210 mil. A reportagem que originou o número não menciona vacina, os especialistas ouvidos atribuem o aumento a obesidade, hipertensão, tabagismo, drogas e sedentarismo, e um estudo com mais de 8 milhões de adultos, publicado no European Heart Journal em 2024, encontrou efeito protetor da vacinação contra infarto, insuficiência cardíaca e AVC. Card idêntico, publicado por um deputado estadual do PL de Santa Catarina, já havia sido classificado como enganosa pelo Estadão Verifica em outubro de 2025. O que circula em Cuiabá é reciclagem.

Quanto à manchete, publicada por ele em 6 de agosto, de que as vacinas mataram mais americanos que as guerras, com legenda sobre militares mortos como cobaias: a aritmética resolve a primeira parte. Os Estados Unidos perderam cerca de 584,6 mil militares nas quatro guerras somadas, segundo o Departamento de Assuntos de Veteranos: 116,5 mil na Primeira Guerra, 405,4 mil na Segunda, 58,2 mil no Vietnã e cerca de 4,5 mil no Iraque. Para a manchete ser verdadeira, a vacina teria de ter matado mais de 585 mil americanos. O número de mortes com nexo causal confirmado pelas agências reguladoras americanas é 9, todas pela síndrome de trombose com trombocitopenia associada à vacina da Janssen, num universo de 54 casos confirmados, conforme o boletim do CDC de dezembro de 2021. A distância entre 9 e 585 mil é preenchida pela leitura enganosa do VAERS, o sistema americano de relatos espontâneos, aberto a qualquer pessoa e sem estabelecimento de causalidade.

A segunda parte tem certidão de nascimento. A narrativa dos militares mortos nasceu em 24 de janeiro de 2022, num painel do senador Ron Johnson, o mesmo da pilha de estudos de ivermectina, quando um advogado exibiu dados do banco médico militar DMED mostrando suposta explosão de doenças após a vacinação. A agência de saúde do Pentágono verificou e respondeu: os dados de 2016 a 2020 estavam corrompidos, e a “explosão” era artefato da base, que saiu do ar para correção. Não existe registro do Departamento de Defesa de morte de militar causada pela vacina. Entre os militares da ativa mortos pela covid no recorte checado à época, nenhum estava completamente vacinado.

Advertisement

Atletas, infartos e o século inteiro

Dois vídeos publicados pelo vereador, em colaboração com perfis da rede, levam a discussão para o coração. Num deles, o influenciador Gabriel Silva afirma que “desde a Covid até o momento que a gente tá hoje, morreu mais pessoas de problemas de coração, de AVC, enfim, problemas relacionados ao coração do que no último século”, e emenda: “isso tudo tem relação com as vacinas da porra da Covid”. No outro, o criador de conteúdo Leonardo Vicari abre dizendo que é “doloroso falar isso, mas a galera antivacina estava certa”, sobre uma cartela que informa: “Entre 2021 e 2022, 1.598 atletas morreram de parada cardíaca. Em 50 anos (1970-2020), foram 1.312.”

A alegação central se desfaz na primeira conferência. A doença isquêmica do coração é a maior causa de morte do mundo há décadas e matou 9,1 milhões de pessoas em 2021, ou 13% de todos os óbitos, segundo a Organização Mundial da Saúde. Não há como o período posterior a 2020 ter superado o século inteiro em mortes cardíacas, porque essas mortes sempre estiveram no topo da lista.

O mesmo documento traz o dado que os vídeos não mencionam. Nos países de alta renda, as mortes por doença isquêmica caíram 15% entre 2000 e 2021, e as por AVC caíram 18%. O crescimento em números absolutos no mundo se explica sobretudo pelo envelhecimento da população, e as taxas ajustadas por idade vêm caindo.

Houve, sim, excesso de mortalidade cardiovascular durante a pandemia. Os dados oficiais o atribuem à própria doença, por efeito direto da infecção e por efeito indireto, com atendimento interrompido e sistema sobrecarregado. Nenhum desses caminhos passa pela vacina.

O risco cardíaco da vacina existe e tem tamanho conhecido. A FDA aprovou em junho de 2025 atualização de bula registrando cerca de 8 casos de miocardite por milhão de doses na população geral e cerca de 27 por milhão em homens de 12 a 24 anos, o grupo mais afetado, na semana seguinte à aplicação. Uma coorte nórdica de 23 milhões de pessoas e um estudo com 99 milhões de vacinados em vários países confirmaram esse sinal e não encontraram excesso de mortalidade cardiovascular. E um trabalho publicado na Nature Medicine encontrou risco de miocardite maior depois de um teste positivo para o coronavírus do que depois da vacina.

Advertisement

Sobre os números do card, a reportagem não localizou fonte. O vídeo não a indica, e as cifras de 1.598 e 1.312 atletas não constam de registro oficial nem de literatura revisada por pares.

O número que a rede carrega

Entre os perfis que assinam as publicações do vereador circula uma alegação de outra ordem. Na grade do @stalinsincero, um letreiro em branco sobre fundo preto anuncia, sob o antetítulo “SENADO DOS EUA”, que “FAUCI SE CALA NO SENADO; MÉDICO DIZ QUE VACINA DA COVID CAUSOU 73,9% DAS MORTES ANALISADAS EM AUTÓPSIAS”. Na do @zero65news, uma caixa de moldura e letras amarelas informa que “um largo estudo de autópsia, revelou que 74% das mortes na pandemia são por causa dessa”.

Repare no que os dois letreiros não dizem. Não dizem o nome do médico. Não dizem o nome do estudo, da revista ou da instituição. A primeira o chama de “médico”, a segunda nem isso. O leitor recebe um número de três algarismos e um adjetivo, “largo”, e não recebe nenhum caminho para conferir. Foi preciso rastrear o número para chegar à fonte, e a fonte explica por que ela não aparece.

E a alegação não ficou nas grades alheias: o próprio vereador publicou, em 1º de agosto, o vídeo do senador Ron Johnson que a enuncia, post que soma 30,8 mil visualizações.

O 73,9% vem de uma revisão de 325 laudos de autópsia, assinada por nove autores, que contabilizou 240 mortes como atribuíveis à vacinação. O último autor é o cardiologista americano Peter Andrew McCullough. O que os letreiros não contam é o que aconteceu com esse trabalho depois de publicado.

Advertisement

A primeira versão foi postada em 5 de julho de 2023 num servidor de preprints operado pela editora do periódico The Lancet. Saiu do ar no dia seguinte, com aviso que continua visível na página: o texto foi removido “porque as conclusões do estudo não são sustentadas pela metodologia do estudo”. Vinte e quatro horas de vida, 146.945 visualizações do resumo. Servidor de preprints não é revista, e o material nunca foi publicado no The Lancet.

A segunda versão saiu em 21 de junho de 2024 na Forensic Science International, da Elsevier, e foi retirada pelo próprio periódico seis semanas depois. Hoje o registro internacional de identificação do artigo devolve o título precedido da palavra “Withdrawn”, retirado, e duas marcas de retratação. Os motivos declarados pela revista foram citação inadequada, desenho metodológico inadequado, erros, deturpação, falta de respaldo factual para as conclusões e falha em reconhecer evidência que contrariava o resultado. Os autores enviaram versão corrigida, e os revisores concluíram que ela não resolvia o problema.

A terceira versão está publicada desde novembro de 2024 numa revista que se declara revisada por pares, não é indexada na principal base de literatura biomédica do mundo e tem McCullough no próprio conselho editorial.

A falha central está em como a causalidade foi decidida. Três dos nove autores leram os casos e apontaram quais mortes seriam da vacina. Bastava que dois deles concordassem. Não houve protocolo validado de avaliação, não houve cegamento, não houve terceiro independente. E os autores dos laudos originais tinham dito outra coisa: o estudo colombiano que forneceu 105 dos 240 casos, o maior bloco isolado, concluíra que não havia relação entre a causa da morte e a vacinação. O de Singapura, que contribuiu com 24 casos, concluíra não haver relação causal definitiva. O alemão atribuíra 13 de 18 mortes a doenças preexistentes.

Um pediatra holandês do Radboud University Medical Center refez a conta seguindo o que cada autor original havia escrito. Chegou a 59 casos, ou 18,1%, entre prováveis e possíveis. Os demais eram improváveis, incertos ou sem relação.

Advertisement

O desenho impedia qualquer conclusão de frequência mesmo se a atribuição estivesse correta. O critério de inclusão foi selecionar estudos de autópsia que já apontassem a vacina como causa possível, o que define o resultado antes de começar. Dos 134 trabalhos localizados, 90 ficaram de fora, e só 25 exclusões vieram com justificativa. Não houve grupo de comparação de não vacinados, nem ajuste por idade ou doença prévia, num conjunto cuja idade média de óbito era de 70,4 anos. E os 325 laudos vêm de 14 países que aplicaram cerca de 2,2 bilhões de doses no período.

Seis dos nove autores são remunerados pela mesma empresa, que vende ivermectina e suplementos anunciados como desintoxicantes da proteína spike. McCullough é o diretor científico dela. Em outubro de 2022 o conselho americano que certifica internistas recomendou cassar as certificações dele em medicina interna e cardiologia por declarações públicas sobre supostos perigos das vacinas, e a revogação foi consumada em janeiro de 2025. A reportagem consultou a ferramenta pública de verificação do conselho em 3 de agosto. Ele obteve a certificação em medicina interna em 1991 e em cardiologia em 1997. As duas aparecem hoje como revogadas, e o campo de certificações em vigor traz uma palavra: nenhuma.

A posição dos reguladores segue no lugar oposto. Declaração conjunta de 38 autoridades reguladoras de medicamentos, com a Organização Mundial da Saúde como observadora, registra que a evidência acumulada em mais de 13 bilhões de doses mostra bom perfil de segurança, que os efeitos adversos graves ocorrem em menos de 1 caso a cada 10 mil pessoas e que não há evidência de excesso de mortalidade causado pelas vacinas. A Anvisa adverte, no próprio painel de notificações, que registro de suspeita não estabelece nem afasta causalidade. Estimativa publicada no JAMA Health Forum calcula que as vacinas contra covid-19 evitaram mais de 2,5 milhões de mortes entre 2020 e 2024.

Partes de bebês abortados

Um post de 2 de agosto mudou o registro. Sobre a imagem de Fauci calado, uma tarja amarela anuncia “ANTHONY FAUCI NA MIRA” e, logo abaixo, em caixa branca, a manchete: “O uso de partes de bebês abortados em pesquisas sobre vacinas contra a COVID-19”. Quem publicou foi Renan Paes, vereador em Piracicaba pelo PL, policial militar, primeiro mandato, pré-candidato a deputado estadual por São Paulo. O perfil dele tem 142 mil seguidores. Ranalli entra como o único coautor.

O vídeo reproduz a pergunta feita na audiência pela senadora Joni Ernst, republicana de Iowa. Ela afirma que Ralph Baric e colegas da Universidade da Carolina do Norte implantaram em camundongos pedaços de fígado, timo e pulmão de fetos de quase cinco meses, que batizaram os animais de forma repugnante e que escreveram ter criado um sanduíche de partes de corpos abortados. “Entenderam, pessoal? BLT. Um sanduíche BLT”, diz. E pergunta se partes humanas abortadas deveriam ser postas em camundongos para pesquisa de coronavírus. Fauci invocou a Quinta.

Advertisement

Boa parte disso tem base documental, e vale separar cada camada.

Os camundongos existem. BLT é acrônimo de bone marrow, liver, thymus, ou seja, medula óssea, fígado e timo. São animais imunodeficientes que recebem tecido humano para desenvolver um sistema imune capaz de responder como o nosso, e servem para estudar vírus que só infectam humanos. O estudo é de 2019, publicado na Nature Biotechnology, com financiamento do instituto que Fauci dirigia. E a palavra “sanduíche” está lá, na seção de métodos: os camundongos foram construídos implantando um sanduíche de tecido fetal humano de timo, fígado e timo sob a cápsula renal.

Leia Também:  Eclipse com "lua de sangue" poderá ser visto em Mato Grosso

O que a fala acrescenta é a piada. “Sanduíche” descreve o empilhamento cirúrgico, timo embaixo, fígado no meio, timo em cima. A sigla completa, BLT-L, inclui lung, pulmão. A coincidência com bacon, alface e tomate é da língua inglesa, não dos pesquisadores, e a leitura jocosa foi construída na tribuna do Senado. O artigo tampouco informa idade gestacional, de modo que os “quase cinco meses” não vêm dele.

Outras alegações da mesma fala se desmontam quando conferidas. Os camundongos enviados ao laboratório de Wuhan, documentados em artigo publicado na revista Cell em maio de 2020, eram transgênicos, com um gene humano inserido, e não continham tecido fetal algum. O laboratório de Montana comprou tecido fetal, sim, 26 vezes entre dezembro de 2016 e agosto de 2018, por 18,1 mil dólares no total, mas as ordens de compra declaram a finalidade: pesquisa de HIV. O estudo em que cresceu cabelo humano em camundongos é real, foi feito na Universidade de Pittsburgh, saiu na Scientific Reports em 2020 e usou tecido de 18 a 20 semanas obtido com consentimento escrito da doadora e aprovação do comitê de ética. Não trata de coronavírus nem de vacina. A menção a dedos remete a pesquisa de outra universidade.

Nada disso, porém, alcança o que a manchete afirma. As vacinas contra covid-19 não contêm tecido nem células fetais. Nenhuma bula, nenhum documento regulatório de Pfizer, Moderna, AstraZeneca, Janssen ou CoronaVac declara componente de origem fetal humana. Quem afirmou em público que a vacina continha essas partes não foi a senadora que fez a pergunta: foi o deputado John McGuire, republicano da Virgínia, em entrevista a um canal americano no dia seguinte à audiência.

Advertisement

Há um ponto verdadeiro que o post não distingue, e é o ponto em que a discussão realmente mora. Duas das vacinas usam linhagens celulares de origem fetal como fábrica na produção. Está escrito, em português, na bula brasileira: a vacina da Fiocruz é “produzida em células renais embrionárias humanas (HEK) 293 geneticamente modificadas”, e a da Janssen, “na linha celular PER.C6”. A HEK293 foi criada em 1973, na Holanda. A PER.C6, em 1995, a partir de tecido colhido em 1985. São linhagens imortalizadas, multiplicadas em cultura contínua há décadas a partir de bancos congelados. Nenhum tecido novo é colhido, e nenhum aborto novo é requerido para fabricar uma dose. Pfizer e Moderna não usam célula alguma na produção, porque o RNA mensageiro é sintetizado sem células. A CoronaVac é feita em células de rim de macaco.

A Igreja Católica examinou exatamente essa questão e a respondeu. Em nota de 21 de dezembro de 2020, aprovada pelo papa Francisco e disponível em português no site do Vaticano, a Congregação para a Doutrina da Fé registrou que “é moralmente aceitável utilizar as vacinas anticovid-19 que tiverem utilizado linhas celulares de fetos abortados no seu processo de investigação e produção”, porque a cooperação com o aborto original é remota e não configura cooperação formal. Três semanas depois, o papa disse em entrevista que “eticamente todos devem tomar a vacina” e que “não é uma opção, é uma ação ética”.

A alegação de que as vacinas contêm partes de bebês abortados circula no Brasil desde 2020 e foi verificada como falsa pela Agência Lupa, pelo Aos Fatos, pelo Projeto Comprova e pelo E-farsas, todos em julho daquele ano. O Instituto Butantan mantém no ar página específica dizendo que a versão sobre a CoronaVac é inverídica.

A alegada inocência na CPI

A mesma audiência alimentou outra afirmação, e essa é verificável. Em publicação da página ancapdapaulista, que circulou em rede com outros cinco perfis, o vereador entre eles, um influenciador afirma que “o Bolsonaro sempre esteve certo”, e a legenda diz que ele teria acabado de ser “inocentado da CPI da Covid”.

Comissão parlamentar de inquérito não inocenta ninguém. O artigo 58, parágrafo 3º, da Constituição atribui a ela poderes de investigação e determina que as conclusões sejam encaminhadas ao Ministério Público, “para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores”. Julgar, absolver ou inocentar não está entre suas atribuições. O relatório final da CPI da Pandemia, apresentado em outubro de 2021, seguiu no sentido oposto: pediu o indiciamento de Bolsonaro e de outras 65 pessoas.

Advertisement

O fato que deu origem à narrativa é outro. Em 14 de julho de 2026, o ministro Nunes Marques arquivou a Petição 9588, aberta em 2021 a partir de notícia-crime de quatro deputados do PSOL. O objeto era uma conversa telefônica entre Bolsonaro e o senador Jorge Kajuru sobre o escopo da CPI, tornada pública pelo próprio senador, e os tipos penais discutidos eram advocacia administrativa e corrupção ativa. A Procuradoria-Geral da República se manifestou pela atipicidade, registrando que “não se extrai da conversa vazada qualquer propósito criminoso por parte do noticiado”, e o ministro acolheu a manifestação.

Nenhuma passagem dessa decisão examina condução da pandemia, compra de vacinas ou mortes. Ela trata de uma ligação telefônica sobre o desenho de uma comissão. O inquérito aberto a pedido da CPI para apurar incitação ao crime por desinformação sobre vacinas e máscaras é outro processo, e seguia em curso no Supremo até maio deste ano, sem denúncia e sem arquivamento.

O Bolsonaro que se vacinou

Enquanto a fila fabricada por inteligência artificial espera para pedir desculpas a Jair Bolsonaro, o filho mais velho dele tomou a vacina. E é justamente esse filho que o pai escolheu para disputar a Presidência. Flávio Bolsonaro foi indicado por uma carta do ex-presidente em dezembro do ano passado e teve a candidatura confirmada na convenção nacional do PL, em 25 de julho, no Pacaembu, quatro dias antes da audiência em Washington.

O senador recebeu a primeira dose da AstraZeneca produzida pela Fiocruz em 22 de julho de 2021, aplicada pelo então ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e publicou o registro nas próprias redes, agradecendo ironicamente ao pai por garantir vacina nos braços dos brasileiros.

Ele não foi o único da família. Eduardo Bolsonaro vacinou-se em agosto de 2021, também com Queiroga aplicando a dose. Michelle Bolsonaro recebeu a Janssen em setembro daquele ano, em Nova York, durante a comitiva brasileira na Assembleia-Geral da ONU. Carlos Bolsonaro tomou duas doses de Pfizer pelo sistema público no Rio de Janeiro, a segunda em outubro de 2021, segundo certificado de vacinação cuja existência a assessoria dele confirmou.

Advertisement

Jair Bolsonaro não tomou, e disse isso em público. Em outubro de 2021, na Paraíba, afirmou que não havia se vacinado e convidou quem quisesse a seguir seu exemplo. Existe um registro de vacinação em nome dele no sistema do Ministério da Saúde, e a Controladoria-Geral da União concluiu, em relatório de janeiro de 2024, que o registro é falso: a apuração da CGU registrou que ele não estava em São Paulo na data indicada, que o lote apontado não estava disponível na unidade de saúde e que a enfermeira registrada como aplicadora negou ter feito o procedimento.

A Polícia Federal indiciou o ex-presidente em março de 2024 por inserção de dados falsos em sistema de informações e por associação criminosa. Um ano depois, a Procuradoria-Geral da República promoveu o arquivamento, por entender que a colaboração premiada de Mauro Cid não fora corroborada por prova independente, e o ministro Alexandre de Moraes acolheu a manifestação, ressalvada a reabertura caso surjam provas novas.

A esposa de Flávio completa o quadro. Fernanda Bolsonaro, dentista, foi vacinada no Distrito Federal em 2021, na rodada dos profissionais de saúde, e publicou o momento nas próprias redes: “Essa semana tomei minha 1ª dose da vacina contra Covid-19”. Em julho, reportagens registraram que ela se prepara para entrar na campanha do marido como aposta para o eleitorado feminino, com bandeiras de família e saúde pública. A mulher que pode ser a próxima primeira-dama do país é uma profissional de saúde vacinada que mostrou a própria dose ao público.

Na disputa deste ano, Flávio Bolsonaro incorporou o rótulo de “Bolsonaro vacinado” como marca de diferenciação em relação ao pai. Em dezembro, resumiu a distinção dizendo que o pai não quis tomar vacina e que ele tomou duas doses. Em julho, num evento de pré-campanha em Fortaleza, aplicou em si mesmo uma “vacina contra o PT” com uma seringa cenográfica.

A pauta já esteve no plenário da Câmara

As publicações não são a primeira aparição do tema na vida pública do vereador. Ele já passou pelo plenário, em proposição assinada.

Advertisement

Ranalli apresentou, em 16 de abril de 2025, o Projeto de Lei 151, que proibia “a imposição de multas ou penalidades contra pais ou responsáveis que não vacinarem seus filhos contra covid-19 no município de Cuiabá”. O texto chegou menos de um mês depois de a Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça decidir, em 21 de março daquele ano, que pais que deixam de vacinar os filhos contra a doença podem ser multados. Em 28 de maio, a Comissão de Constituição, Justiça e Redação da Câmara emitiu parecer contrário e recomendou a rejeição. O vereador retirou o projeto de pauta em junho e, em 27 de novembro, pediu a retirada de tramitação. Foram 225 dias e nenhum artigo em vigor.

O primeiro mandato dele começou em 1º de janeiro de 2025. Candidato a vereador em 2020, ficou na suplência e não exerceu cargo eletivo durante a pandemia, período que descreve no vídeo como aquele em que estava “nas ruas sem máscara, pedindo voto”. Nos 2.629 registros de proposições em nome dele no sistema da Câmara, a busca por “vacina” na ementa devolve dois resultados: o projeto arquivado e um pedido de urgência para trocar a geladeira que armazena vacinas e o ar-condicionado de uma unidade de saúde do Parque Atalaia.

Às vésperas do início da propaganda

As publicações circulam em período de pré-campanha. A propaganda eleitoral só é permitida a partir de 16 de agosto, conforme o artigo 36 da Lei 9.504/1997 e o calendário eleitoral fixado pela Resolução 23.760, de 2 de março de 2026. O registro de candidaturas vai até 15 de agosto, e o primeiro turno ocorre em 4 de outubro. Ranalli é pré-candidato pelo PL e, até o fechamento desta reportagem, seguia nessa condição.

A regra sobre inteligência artificial está na Resolução 23.610/2019, com a redação dada pela Resolução 23.755, de março de 2026. O artigo 9º-B impõe a quem usa conteúdo sintético na propaganda o dever de informar “de modo explícito, destacado e acessível, que o conteúdo foi fabricado ou manipulado e qual tecnologia foi utilizada”. O artigo 9º-C proíbe o uso de conteúdo fabricado ou manipulado para difundir fatos “notoriamente inverídicos ou descontextualizados com potencial para causar danos ao equilíbrio do pleito ou à integridade do processo eleitoral”.

A resolução não proíbe o uso de inteligência artificial na propaganda. O que ela faz é impor rotulagem e vedar empregos específicos, entre eles o conteúdo fabricado para difundir fato inverídico ou descontextualizado e o deepfake de áudio e vídeo que altere imagem ou voz de pessoa, viva, falecida ou mesmo fictícia. Usar a ferramenta é lícito. Usar sem informar que o material é fabricado, não.

Advertisement

Os dois dispositivos falam em propaganda eleitoral, que começa em 16 de agosto. A própria resolução, porém, trata da questão em artigo específico. O artigo 3º-C determina que a veiculação de conteúdo político-eleitoral “em período que não seja o de campanha eleitoral” se sujeita às regras de uso de tecnologias digitais previstas nos artigos 9º-B, caput e parágrafos, e 9º-C. O dever de rotular e as vedações valem antes de 16 de agosto por disposição expressa, e não por interpretação.

O artigo 3º-A aponta na mesma direção. Considera propaganda antecipada passível de multa aquela divulgada fora de época cuja mensagem contenha pedido explícito de voto “ou que veicule conteúdo eleitoral em local vedado ou por meio, forma ou instrumento proscrito no período de campanha”. São duas hipóteses alternativas, e a segunda dispensa o pedido de voto.

Ao julgar representações por desinformação em pré-campanha nas eleições de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral aplicou exatamente essa lógica e assentou que comportamentos com alguma conotação eleitoral proibidos durante a campanha “são igualmente proibidos na fase antecedente da pré-campanha, ainda que não envolvam pedido explícito de voto ou não voto”. Naqueles casos houve multa e ordem de remoção dos conteúdos.

A lei é omissa

Uma dúvida específica não tem resposta na norma: o que acontece se a publicação permanecer no ar depois de 16 de agosto, quando as regras da propaganda passam a valer. A Resolução 23.610/2019 não traz dispositivo sobre manutenção, permanência ou remoção de conteúdo publicado antes do início da propaganda.

O regulamento tratou de situação semelhante apenas para o dia da eleição. No capítulo de disposições penais, proíbe a publicação de novos conteúdos naquela data, mas ressalva que podem “ser mantidos em funcionamento as aplicações e os conteúdos publicados anteriormente”, e acrescenta que a vedação não inclui a manutenção da propaganda divulgada na internet antes do dia da eleição. A ressalva vale para aquela data e não se repete para o marco de 16 de agosto.

Advertisement

Os crimes possíveis, em tese

Não existe, no Brasil, tipo penal específico para desinformação sobre vacinas fora do contexto eleitoral. A discussão, porém, não termina aí. Três artigos do Código Penal, todos escritos décadas antes da internet, já foram invocados para condutas desse gênero, e o que a Justiça fez com cada um deles até agora ajuda a medir o alcance de cada via.

O mais testado é o artigo 286, que pune incitar publicamente a prática de crime, com pena de detenção de três a seis meses ou multa. Trata-se de crime formal: consuma-se com a incitação, sem exigir que o crime incitado ocorra, como assentou o Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais em novembro de 2025, ao manter condenação de quem conclamou seguidores em rede social contra um candidato. Na matéria de vacina, o precedente é conhecido. Em dezembro de 2022, a Polícia Federal concluiu haver elementos de autoria e materialidade de incitação ao crime na live em que Jair Bolsonaro associou a vacina contra a covid-19 ao desenvolvimento de aids. O relatório foi enviado ao Supremo, e o inquérito, aberto a pedido da CPI da Pandemia, seguia sem denúncia e sem arquivamento até maio deste ano, cinco anos depois de aberto.

O artigo 283 define o charlatanismo: inculcar ou anunciar cura por meio secreto ou infalível, com detenção de três meses a um ano e multa. Em tese, a figura dialoga com posts que apresentam um vermífugo como proteção garantida contra a doença. A reportagem não localizou condenação por desinformação vacinal com base nesse tipo.

O terceiro caminho, o artigo 268, que pune infringir determinação do poder público destinada a impedir a propagação de doença contagiosa, é o mais estreito. Tribunais o tratam como norma penal em branco, que só funciona acoplada a uma determinação sanitária específica e vigente. Foi com esse fundamento que a Turma Recursal Criminal do Rio Grande do Sul manteve, em 2023, o arquivamento de acusação baseada em decreto estadual da pandemia, e que a Justiça do Tocantins confirmou uma absolvição em 2025. Sem medida sanitária em vigor sendo descumprida, o tipo não alcança publicações.

Nada disso configura acusação. Nenhum órgão de persecução anunciou investigação sobre as publicações descritas nesta reportagem, e qualquer enquadramento dependeria de exame do conteúdo e da intenção, caso a caso, com as garantias do processo penal.

Advertisement

Fora do direito penal, a jurisprudência cível sobre desinformação em saúde está dividida. Em maio de 2026, o Tribunal de Justiça do Paraná manteve condenação por dano moral coletivo de 20 mil reais, com retirada das publicações e retratação, em ação civil pública sobre conteúdo desinformativo a respeito de vacinação municipal em rede social. Em fevereiro do mesmo ano, o Tribunal de Justiça do Pará afastou a responsabilização de um vereador por publicação tida como falsa sobre saúde pública, com fundamento na imunidade parlamentar material e na liberdade de expressão.

No Paraná, o acórdão discutiu os limites da liberdade de imprensa. No Pará, o fundamento da absolvição foi a imunidade parlamentar material. Vereadores são invioláveis por opiniões, palavras e votos no exercício do mandato e na circunscrição do município, conforme o artigo 29, inciso VIII, da Constituição. Deputados estaduais têm garantia equivalente, estendida pelo artigo 27. A proteção não é ilimitada e depende do vínculo com o exercício do mandato. Em maio de 2026, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal aplicou essa régua a um deputado distrital processado por vídeo publicado em rede social: a imunidade exige nexo claro, direto e objetivo entre a manifestação e o exercício das funções parlamentares, e postagem feita fora da Casa Legislativa não carrega esse vínculo automaticamente.

O que sobra quando o crime é só tese

O mapa das vias disponíveis é curto e cada uma tem um limite claro. A representação eleitoral depende de o post ter conteúdo político-eleitoral, discussão que, no caso do vereador, o card de candidatura aplicado sobre as imagens praticamente resolve. A ação de abuso exige prova de alcance que o Tribunal Superior Eleitoral não presume. A ação civil pública por dano moral coletivo tem legitimidade do Ministério Público e de entidades, existe decisão condenando por desinformação sobre vacinação e existe decisão absolvendo parlamentar pela mesma conduta. A remoção pela plataforma depende da política interna da empresa, e a Justiça tem respaldado quem age: em junho de 2025, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso considerou exercício regular de direito a suspensão de um perfil que divulgava informações falsas sobre vacinação infantil e negou indenização ao usuário bloqueado. A responsabilização penal comum, por fim, depende dos tipos genéricos descritos acima, que seguem sem condenação conhecida quando o assunto é vacina.

Sobra a via que não passa por tribunal nenhum. Nas duas casas legislativas em questão existe procedimento de decoro parlamentar, acionável por qualquer cidadão, e existe a avaliação do eleitor em outubro. Nenhuma delas exige que se prove crime.

O efeito da desinformação, medido

A ausência de sanção não neutraliza o efeito, e o efeito é medido. Um ensaio randomizado publicado na Nature Human Behaviour em 2021 comparou grupos expostos a informação factual e a desinformação sobre vacinas contra a covid-19: entre os que viram desinformação, a proporção de pessoas que diziam que definitivamente se vacinariam caiu 6,2 pontos percentuais no Reino Unido e 6,4 pontos nos Estados Unidos. A queda foi maior quando o conteúdo tinha aparência científica.

Advertisement

No Brasil, um experimento com 2.771 adultos publicado na revista Vaccine encontrou rejeição a vacinas conforme o país de origem, com resistência à vacina chinesa particularmente forte entre apoiadores de Jair Bolsonaro. A Organização Mundial da Saúde trata o fenômeno como infodemia e o define como excesso de informação, incluindo conteúdo falso ou enganoso, que gera confusão, comportamentos de risco e desconfiança nas autoridades sanitárias.

Os números de cobertura mostram o tamanho do que está em disputa. A terceira dose da pentavalente em crianças menores de 1 ano, que era de 96% em 2015, caiu a 68% em 2021 e voltou a 90% em 2024, recuando para 86% em 2025, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde e do Unicef. A meta é 95%. O número de crianças que não tomaram nenhuma dose da pentavalente caiu de 360 mil em 2023 para 50 mil em 2025, e o Brasil teve o segundo maior avanço mundial nessa cobertura entre 2019 e 2025.

O sarampo mede a fragilidade dessa recuperação. O país recebeu a certificação de eliminação da doença em 2016, perdeu em 2019 após transmissão sustentada por mais de um ano, e só recuperou o certificado em novembro de 2024. Em 2025 foram 38 casos confirmados. Em novembro daquele ano, as Américas perderam a verificação de região livre de transmissão endêmica, por causa do Canadá.

E há surto agora. Segundo divulgação da secretaria estadual da Saúde paulista, São Paulo concentra 15 dos 18 casos confirmados no país em 2026, sendo 12 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos, e é hoje o único estado com transmissão ativa. No dia 3 de agosto, durante a sequência de publicações mato-grossenses, a mesma secretaria abriu campanha que vai até 1º de setembro e que amplia a tríplice viral para todas as pessoas de 6 meses a 59 anos nesses três municípios, inclusive quem já se vacinou antes. Bebês de 6 a 11 meses recebem uma dose extra de proteção.

O outro lado

A reportagem procurou o vereador Rafael Ranalli, por mensagem, e enviou pedido de manifestação com perguntas sobre cada uma das publicações, sobre o estudo que ele afirma ter sido engavetado, sobre o uso mensal de ivermectina que relata no vídeo e sobre o projeto arquivado. O vereador comprometeu-se a responder por nota até 9 de agosto e não a havia enviado até o fechamento desta reportagem. A reportagem também procurou o jornalista Alexandre Garcia, autor da coluna que virou vídeo, e o prefeito de Cuiabá, Abílio Brunini, que republicou o material. Nenhum dos dois respondeu. Os demais autores de posts e as pessoas citadas nominalmente nesta reportagem têm o mesmo espaço aberto, e as manifestações que chegarem serão acrescentadas. As publicações analisadas são públicas, as verificações se apoiam nos documentos e registros indicados ao longo do texto, e nenhuma acusação é feita a quem quer que seja.

Advertisement

As publicações seguiam no ar em 9 de agosto. O prazo de registro de candidaturas termina em 15 de agosto, um dia antes de as regras da propaganda eleitoral entrarem em vigor.

Fontes e links para conferir

Sobre a audiência e o diário de Fauci: a página oficial da audiência no comitê do Senado americano e o registro dela no Congress.gov; o release do gabinete do senador Lankford, com a transcrição dos trechos citados, inclusive a anotação do sarampo; a divulgação do diário nas reportagens da CNN e da NPR; a declaração inicial de Fauci na análise do PolitiFact e na NBC News; e o documento do perdão presidencial.

Sobre a onda nacional de desinformação: o monitoramento da Agência Lupa e a tipologia do relatório Information Disorder, do Conselho da Europa.

Sobre a segurança e a efetividade das vacinas: o estudo de efetividade 2025-2026 na JAMA Network Open; a conclusão da Anvisa sobre o caso da adolescente; a revisão Cochrane sobre ivermectina e a página do Ministério da Saúde sobre o medicamento; o comunicado da Cochrane sobre a revisão de máscaras e o ensaio de Bangladesh na Science; o estudo retratado das autópsias no registro da Forensic Science International e no servidor de preprints; e a verificação de certificação médica do American Board of Internal Medicine.

Sobre a pandemia no Brasil e as mortes evitáveis: o painel de mortes da OMS; o relatório final da CPI da Pandemia e a apresentação oficial dele na Agência Senado; o depoimento do representante da Pfizer sobre as ofertas sem resposta e as estimativas de mortes pelo atraso na compra de vacinas; o estudo de cenários da Revista Brasileira de Epidemiologia; a auditoria do TCU sobre o TrateCov; e o relatório da CGU sobre o cartão de vacinação, com o arquivamento posterior no STF.

Advertisement

Sobre Mato Grosso: os óbitos por covid-19 no Sistema de Informações sobre Mortalidade e a cobertura vacinal no painel do Ministério da Saúde.

Sobre as regras eleitorais: a Resolução 23.610/2019 compilada, a Resolução 23.755/2026 e as notícias oficiais do TSE sobre inteligência artificial na campanha e o início da propaganda; e, sobre os enquadramentos em tese, o Código Penal compilado e o acórdão do TJPR sobre dano moral coletivo por desinformação vacinal.

Os posts analisados, as capturas de tela datadas e as transcrições integrais estão arquivados pela reportagem.

 

Leia também:

Advertisement

“Isso aqui é o matadouro”: vídeo mostra cães mortos e vivos em barracão sem luz do Zoonoses de Cuiabá

EXCLUSIVO:compras pela internet: o guia completo dos direitos do consumidor

EXCLUSIVO:Mato Grosso mata mais mulheres por serem mulheres;revela anunário

EXCLUSIVO: ex-assessor acusa deputado Dr. João de confiscar salários e manter funcionários fantasmas;VÍDEO

Glifosato aparece em 31 de 75 ultraprocessados testados pelo Idec, saiba quais

Advertisement

DESTAQUE

Eclipse com “lua de sangue” poderá ser visto em Mato Grosso

Published

on

O céu de agosto reserva dois eclipses, e apenas um deles interessa a quem vai olhar para cima em Mato Grosso. O eclipse solar total do dia 12 fica restrito ao hemisfério norte, sem qualquer visibilidade no Brasil. Já o eclipse lunar da virada de 27 para 28 de agosto será observável de todo o território nacional, a olho nu, sem equipamento e sem precisar sair da cidade.

Em Cuiabá e nas demais cidades do estado, a fase interessante começa às 22h33 do dia 27, quando a sombra da Terra passa a avançar visivelmente sobre o disco lunar. O ponto máximo ocorre às 0h12 do dia 28, já na madrugada de sexta-feira. Os horários seguem o fuso de Mato Grosso, uma hora atrás de Brasília, onde o mesmo instante marca 23h33 e 1h12. A fase parcial se estende por cerca de três horas e 18 minutos.

Tecnicamente, o fenômeno é um eclipse parcial. Na prática, chega perto do limite. Os cálculos da Nasa apontam magnitude umbral de 0,930, o que significa que 93% do diâmetro da Lua entrará na umbra, a parte central e mais escura da sombra terrestre. A porção encoberta não desaparece: ganha um tom avermelhado, resultado da luz solar que atravessa a atmosfera da Terra e é desviada para a superfície lunar.

“Este eclipse será apenas parcial, mas será quase total, já que 93% da Lua vai entrar na sombra escura da Terra”, afirmou a astrônoma Josina Nascimento, do Observatório Nacional, em entrevista divulgada pela instituição.

A posição da Lua no céu favorece o observador brasileiro. No momento de maior cobertura, o satélite estará alto, o que dispensa a busca por mirantes, morros ou horizontes abertos. Um quintal, uma varanda ou uma rua com pouca iluminação artificial bastam. A duração longa também dá margem a nuvens passageiras sem que a observação se perca.

Advertisement

Por que a Lua fica vermelha

Dentro da umbra, a Lua não fica no escuro absoluto. Ela continua recebendo luz do Sol, só que filtrada pela atmosfera da Terra. O ar espalha os tons azuis e deixa passar os avermelhados — o mesmo processo que tinge o céu no fim da tarde. Essa luz vermelha é desviada pela borda da atmosfera terrestre e vai parar na superfície lunar, o que dá ao disco eclipsado a cor de cobre.

Leia Também:  WhatsApp para de funcionar em alguns celulares a partir de 8 de setembro;veja se o seu esta na lista

A intensidade do tom varia. Quanto mais poeira, fumaça e nuvem houver na atmosfera no momento do eclipse, mais escura fica a Lua. Em anos de grandes erupções vulcânicas, o disco chega a quase sumir da vista.

O eclipse lunar só acontece na Lua cheia, quando Sol, Terra e Lua se alinham nessa ordem. Como a órbita lunar é inclinada cerca de cinco graus em relação ao plano da órbita terrestre, o alinhamento perfeito não se repete todo mês — daí a raridade relativa do fenômeno.

A sombra projetada pela Terra tem duas camadas. A penumbra é uma sombra branda, que escurece a Lua de forma quase imperceptível. A umbra é a região central, onde a luz solar direta fica bloqueada. O eclipse penumbral costuma passar despercebido; o parcial e o total acontecem quando a Lua penetra a umbra.

Segundo o Observatório Nacional, este será o último eclipse lunar de grande magnitude visível de todo o país até o fim da década. Os previstos para 2027 são penumbrais. Em 2028, os dois parciais terão coberturas bem menores, inferiores a 3% e a 33%.

Advertisement

O eclipse do Sol, e por que ele não chega aqui

O fenômeno do dia 12 é de outra natureza. Nele, a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol e projeta uma sombra estreita sobre a superfície do planeta. Só quem está dentro dessa faixa vê o Sol completamente encoberto.

Leia Também:  Eclipse com "lua de sangue" poderá ser visto em Mato Grosso

A trajetória começa no extremo norte da Sibéria, na Rússia, cruza o Oceano Ártico, passa pela Groenlândia e pela Islândia e atinge a Europa continental no fim da tarde. Na Espanha, a faixa de totalidade se estende da costa norte — com Oviedo, A Coruña e Bilbao — até as Ilhas Baleares, e uma pequena área de Portugal também é alcançada. No ponto de maior eclipse, em águas internacionais, a totalidade dura pouco mais de dois minutos.

Fora dessa faixa, o Sol aparece apenas parcialmente coberto. É o caso da França, de boa parte da Europa, do norte da África e de trechos da América do Norte. O Brasil fica fora de qualquer uma das duas condições.

O eclipse solar total resulta de uma coincidência geométrica. O Sol tem diâmetro cerca de 400 vezes maior que o da Lua, mas está aproximadamente 400 vezes mais distante. Os dois discos, vistos da Terra, acabam com tamanho aparente semelhante.

Proteção só é exigida no eclipse solar

A diferença de segurança entre os dois fenômenos é absoluta. O eclipse lunar não oferece risco algum: pode ser acompanhado a olho nu, com binóculo ou telescópio, do começo ao fim.

Advertisement

Já o eclipse solar exige filtro certificado pela norma ISO 12312-2 ou máscara de solda com vidro número 14. Óculos escuros comuns, chapas de raio X, filmes fotográficos, vidros escurecidos e telas de celular não protegem a retina. A exposição direta sem filtro adequado pode causar lesão permanente na visão.

Quem quiser acompanhar o eclipse solar de longe encontra transmissões ao vivo. A Agência Espacial Europeia exibe o fenômeno em seu canal no YouTube, e o Observatório Nacional também transmite os dois eventos gratuitamente pela mesma plataforma.

Continuar lendo

GRANDE CUIABÁ

MATO GROSSO

POLÍCIA

ENTRETENIMENTO

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA