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Crise de lealdade

Eleitos pelo agro, deputados de direita defendem Trump e arriscam colapso da economia de Mato Grosso

Políticos da extrema-direita em Mato Grosso, eleitos com votos do agronegócio, apoiam publicamente Donald Trump, mesmo com a ameaça de tarifas do presidente americano que podem prejudicar a economia do estado. A matéria expõe a contradição entre a lealdade ideológica e os interesses econômicos de seus eleitores.

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Parlamentares de Mato Grosso enfrentam dilema entre o alinhamento ideológico com Donald Trump e a defesa do agronegócio local, ameaçado por tarifas.
Parlamentares de Mato Grosso enfrentam dilema entre o alinhamento ideológico com Donald Trump e a defesa do agronegócio local, ameaçado por tarifas. Imagem ilustrativa (IA).

Políticos da extrema-direita no estado, eleitos com o apoio do campo, defendem o ex-presidente americano enquanto ele ameaça a economia local com tarifas de 50%, expondo uma contradição que pode custar caro.

No coração do Brasil, onde a soja se estende como um mar verde até o horizonte, uma tempestade política se forma. Deputados de Mato Grosso, eleitos sob a bandeira do conservadorismo e com forte apoio do agronegócio, se veem em uma encruzilhada. De um lado, a lealdade ideológica a Donald Trump. Do outro, a ameaça de um “tarifaço” de 50% sobre produtos brasileiros, uma medida que poderia devastar a economia que os sustenta. É uma contradição que racha partidos, desafia a lógica e coloca em xeque o futuro político de seus protagonistas.

A lealdade dividida

A dissonância política em Mato Grosso ecoa de forma estridente na Assembleia Legislativa. Um dos casos mais simbólicos é o do deputado estadual Gilberto Cattani (PL), um fervoroso seguidor de Jair Bolsonaro e discípulo de Olavo de Carvalho. Conhecido por posições polêmicas, como comparar mulheres a vacas, Cattani preside, ironicamente, a Comissão de Direitos Humanos da casa. Ele chegou a criticar publicamente o senador Wellington Fagundes (PL-MT), seu colega de partido, por considerar que havia “exageros” na postura de Eduardo Bolsonaro em sua cruzada pró-Trump nos EUA. Para Cattani, a ideologia vem antes de tudo. “Ser de direita é viver os valores que defendemos, até a morte se for preciso”, declarou, revelando o nível de radicalismo que informa suas decisões.

A esquizofrenia política se aprofunda com o deputado Xuxu Dal Molin (União Brasil). Em julho, ele foi o autor de uma moção de aplausos a Donald Trump, aprovada pela casa, em reconhecimento ao “posicionamento do presidente americano em defesa da democracia brasileira”. Pouco tempo depois, contudo, o mesmo plenário que celebrou Trump se viu forçado a votar uma moção de repúdio contra as tarifas propostas por ele, numa manobra que beira o surreal.

O eco de Brasília

Na bancada federal, a situação não é diferente. Parlamentares eleitos para defender os interesses de Mato Grosso se alinharam à narrativa que culpa o governo Lula pela crise diplomática, apoiando, na prática, a retaliação americana. José Medeiros (PL), ex-senador cassado por irregularidades eleitorais, e a Coronel Fernanda (PL), primeira procuradora da Mulher do estado na Câmara, estão no grupo que defendeu a ação de Trump. A parlamentar, que baseia sua atuação na defesa da segurança e das famílias, agora se vê apoiando uma medida que ameaça diretamente o sustento de milhares de famílias mato-grossenses.

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Na mesma linha, o Coronel Assis (União Brasil), ex-comandante da PM mato-grossense, atribuiu a crise a falas do presidente Lula que teriam, segundo ele, prejudicado as relações com Washington. Para eles, a defesa do alinhamento ideológico parece se sobrepor à proteção da principal atividade econômica de seu estado. Como explicar isso aos produtores rurais que financiaram suas campanhas e garantiram seus mandatos?

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Fogo amigo em Washington

O ápice da contradição, no entanto, veio de fora do estado, mas com forte impacto local. Eduardo Bolsonaro (PL-SP) admitiu abertamente que estava trabalhando para sabotar a missão de senadores brasileiros que tentava negociar o fim das tarifas nos Estados Unidos. “Eu trabalho para que eles não encontrem diálogo”, confessou ao SBT, numa declaração que chocou até mesmo apoiadores de seu pai.

A reação foi imediata e dura. A senadora por Mato Grosso, Margareth Buzetti (PSD), que declarou voto em Jair Bolsonaro em 2022, não poupou palavras. “A culpa de o Bolsonaro estar de tornozeleira é desse moleque”, disparou, responsabilizando Eduardo pelas complicações jurídicas do ex-presidente. Buzetti criticou diretamente o boicote à missão suprapartidária: “O Senado tem uma comissão, tentou montar uma missão externa para negociar nos EUA, e simplesmente Eduardo Bolsonaro estava boicotando”.

Pragmatismo versus paixão

Enquanto alguns mergulham de cabeça na guerra ideológica, outras vozes tentam trazer um pouco de pragmatismo ao debate. A deputada federal Gisela Simona (União Brasil) buscou um tom mais técnico, argumentando que as tarifas fazem parte de uma disputa econômica global, e não de uma perseguição política. “Outros países também foram taxados. Essa tarifa faz parte de uma disputa econômica”, afirmou. Na outra ponta, o deputado Emanuelzinho (MDB), aliado do governo Lula, foi enfático ao condenar a taxação, classificando o apoio a Trump como uma “maldade com o Brasil”.

A tensão expõe a fratura dentro do próprio campo conservador. De um lado, o pragmatismo de figuras como a ex-ministra da Agricultura e senadora Tereza Cristina (PP-MS), que integrou a comitiva negociadora, mostrando ser possível separar ideologia de interesse nacional. De outro, o radicalismo de uma ala que parece disposta a sacrificar a economia local no altar de suas convicções políticas.

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Para entender melhor:

  • Tarifaço: Termo informal usado no jornalismo e na linguagem popular para se referir a um aumento grande e repentino de tarifas ou impostos sobre produtos, especialmente os importados.
  • Moção de Aplausos/Repúdio: São instrumentos formais do Poder Legislativo (Câmaras de Vereadores, Assembleias e Congresso) para expressar oficialmente um sentimento coletivo de aprovação (aplauso) ou desaprovação (repúdio) a um ato, pessoa ou declaração. Não têm força de lei, mas servem como posicionamento político.
  • Comitiva Suprapartidária: Uma delegação oficial formada por políticos de diferentes partidos. Sua criação indica que o assunto em questão é considerado de interesse nacional, acima das disputas político-partidárias.
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A conta que não fecha

No fim do dia, a conta dessa incoerência pode chegar salgada para o eleitor. Mato Grosso é o maior produtor de grãos do país, e o agronegócio é a mola mestra de sua economia. O setor, que historicamente apoia e elege a direita conservadora, agora assiste a seus representantes defenderem políticas que ameaçam seus lucros e empregos. Essa distopia política já provoca rachas internos. O senador Wellington Fagundes, do mesmo partido de Bolsonaro, admitiu que a postura de Eduardo está sendo “discutida internamente” e que “exageros também não são aceitáveis”.

Cattani, por sua vez, já parece antecipar as cobranças, apelando para o futuro: “O ano que vem, se Deus quiser, os mato-grossenses vão saber escolher os seus senadores e os seus deputados para que nós possamos ter uma maioria e mudar esse quadro”. A frase soa como um reconhecimento da fragilidade da posição atual. Este episódio serve como um duro teste de maturidade para a extrema-direita brasileira. A resposta que os políticos de Mato Grosso darão a esse dilema pode definir não apenas suas carreiras, mas o próprio futuro desse segmento político no estado e no país.

 

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Câmara de Cuiabá repudia fala de Valdir Barranco e defende direito de intervir em temas nacionais

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Presidente Paula Calil (PL) critica postura do deputado petista, que questionou conhecimento técnico de vereadores sobre indicação ao STF.

A Câmara Municipal de Cuiabá divulgou nota para rebater declarações do deputado estadual Valdir Barranco (PT), proferidas na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Sob a presidência de Paula Calil (PL), o Legislativo municipal manifesta indignação contra a postura do parlamentar, que tentou desqualificar a atuação dos vereadores em pautas de repercussão nacional e direcionadas ao governo federal.

O embate expõe uma disputa sobre os limites de atuação parlamentar municipal. A reação ocorre após Barranco insinuar que os vereadores carecem de conhecimento técnico para opinar sobre temas externos, a exemplo da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

Autonomia e prerrogativas

O documento oficial destaca que o município atua como ente federativo autônomo, amparado pelo artigo 18 da Constituição Federal. O texto argumenta que o mandato de um vereador incorpora a função de representação política e de manifestação institucional sobre assuntos que afetam a coletividade, extrapolando a produção legislativa estritamente local.

“A tentativa de reduzir ou ridicularizar essa atuação não será tolerada”, informa a nota. A Casa legislativa ressalta que o direito à manifestação encontra amparo nos princípios fundamentais da República e que o Regimento Interno assegura a apresentação de moções e requerimentos como instrumentos de expressão política. Desqualificar as opiniões dos vereadores alegando falta de eficácia jurídica direta configura, na visão da presidência, um desrespeito ao princípio democrático.

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Cobrança por respeito

A presidência da Câmara classifica o discurso de Barranco como incompatível com o decoro parlamentar. A manifestação cita que a Constituição do Estado de Mato Grosso veda práticas que atentem contra a independência e a harmonia entre as esferas de governo.

O Legislativo encerra o texto exigindo responsabilidade no trato público. A orientação institucional aponta que as divergências políticas precisam permanecer restritas ao debate qualificado, com a rejeição de ataques que atinjam a dignidade dos mandatos locais. O documento não registra posicionamento de Valdir Barranco sobre a reação dos vereadores.

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Leia a íntegra da nota:

A Câmara Municipal de Cuiabá, por intermédio de sua presidente Paula Calil (PL), vem a público manifestar profunda indignação diante das declarações, durante um pronunciamento na Assembleia Legislativa, feitas pelo deputado estadual Valdir Barranco (PT) de forma desrespeitosa e incompatível com o decoro parlamentar esperado. Em sua fala, Barranco, em tom ‘inflamado’, tentou desqualificar a atuação institucional deste Poder Legislativo, especialmente no que se refere às manifestações dirigidas a temas de interesse nacional e ao governo federal.

A postura adotada por tal parlamentar, ao insinuar ausência de conhecimento técnico por parte dos vereadores da capital, quando da então indicação presidencial do advogado-geral da União, Jorge Messias, a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, não apenas afronta a honra dos agentes políticos legitimamente eleitos, como também revela desconhecimento acerca das bases constitucionais que regem a atuação do Poder Legislativo municipal.

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Nos termos da Constituição Federal, o município é um ente federativo autônomo (Art. 18 da CF/88), dotado de capacidade política, administrativa e normativa. A atuação parlamentar não se restringe à produção legislativa estritamente local, sendo também inerente ao mandato a função de representação política, de fiscalização e de manifestação institucional sobre temas de interesse da coletividade, inclusive aqueles de repercussão nacional.

O direito à manifestação política e institucional encontra amparo, ainda, nos princípios fundamentais da República (art. 1º, incisos II e V), que asseguram a cidadania e o pluralismo político como pilares do Estado Democrático de Direito. Nesse contexto, qualquer tentativa de cercear ou desqualificar o posicionamento de representantes legitimamente eleitos configura grave afronta a esses fundamentos.

No âmbito estadual, a Constituição do Estado de Mato Grosso igualmente reconhece a autonomia municipal e a harmonia entre os poderes, vedando práticas que atentem contra a independência e o respeito institucional entre as esferas de governo.

Ademais, o Regimento Interno da Câmara Municipal de Cuiabá assegura aos vereadores o pleno exercício de suas prerrogativas parlamentares, incluindo a apresentação de moções, requerimentos e demais manifestações formais, instrumentos legítimos de expressão política e de posicionamento institucional do Poder Legislativo municipal.

Essas manifestações não se confundem com atos administrativos vinculantes, mas constituem expressão legítima da vontade política de representantes eleitos, refletindo demandas, opiniões e interesses da população cuiabana. Desqualificá-las sob o argumento de ausência de eficácia jurídica direta revela não apenas simplificação indevida do papel do Parlamento, mas também desrespeito ao princípio democrático.

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A Câmara Municipal de Cuiabá reafirma que seus vereadores exercem mandato conferido pelo voto popular, com legitimidade para se manifestar sobre quaisquer temas de interesse público, independentemente da esfera federativa envolvida. A tentativa de reduzir ou ridicularizar essa atuação não será tolerada.

Por fim, este Poder Legislativo exige respeito institucional e responsabilidade no discurso público, reiterando que divergências políticas devem ser tratadas no campo do debate qualificado, jamais por meio de ataques que desmereçam a dignidade do mandato parlamentar e, por consequência, da própria população representada.

 

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