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Guerra tarifária

Taurus invoca a Segunda Emenda dos EUA para escapar da tarifa contra o Brasil

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Taurus tarifa Estados Unidos

Em documento enviado ao governo americano, a fabricante diz que taxar suas pistolas encareceria o direito de se armar e apoia o pedido em US$ 330 milhões de investimentos nos Estados Unidos.

A Taurus quer que o governo dos Estados Unidos deixe as armas brasileiras de fora das tarifas em estudo contra o Brasil, e o argumento que escolheu para isso é a Segunda Emenda da Constituição americana. Em documento protocolado no dia 1º de julho junto ao Representante de Comércio dos Estados Unidos, a fabricante sustenta que taxar suas pistolas e revólveres encareceria o acesso dos americanos às armas e, com isso, ao próprio direito de portá-las.

O pedido tem assinatura de Bret Vorhees, presidente e CEO da Taurus Holdings, e fala em nome de um grupo que reúne a própria Taurus e a CBC — dona da Magtech e da CBC USA Ammunition. A carta pede uma coisa objetiva: que armas, munição, peças e máquinas de fabricação de origem brasileira sejam retiradas da lista de produtos que podem ser sobretaxados. O anexo lista dezenas de códigos aduaneiros, de pistolas semiautomáticas a pólvora e espoletas.

O que dá à peça um contorno incomum é a moldura jurídica. Uma empresa brasileira, respondendo a uma medida do governo dos Estados Unidos contra o Brasil, ergue como escudo um direito da Constituição americana — o de possuir e portar armas. A tese não é que a tarifa violaria a Segunda Emenda. É econômica: encarecer a arma afastaria o comprador, e afastar o comprador equivaleria, na leitura da empresa, a empurrá-lo para fora de um direito que ele não teria mais como exercer.

Por que os EUA foram atrás do Brasil

A investigação que a Taurus tenta driblar não trata de armas. Ela nasceu em 15 de julho de 2025, quando o Representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, abriu, por determinação de Donald Trump, uma apuração sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O alvo declarado eram práticas do Brasil em seis frentes: comércio digital e meios de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais consideradas injustas, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

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No centro da frente digital estão as plataformas americanas. Em 1º de junho deste ano, o USTR concluiu que as práticas brasileiras nas seis áreas se enquadram como não razoáveis — o critério legal que autoriza retaliação sob a Seção 301 — e restringem o comércio dos Estados Unidos. O órgão descreveu ordens judiciais brasileiras que mandaram redes sociais americanas derrubar conteúdo político e suspender perfis de residentes nos Estados Unidos, às vezes em escala global, sob sigilo e com multas por descumprimento. Em ao menos um caso, uma plataforma foi tirada do ar.

Essa apuração corre em paralelo a outra medida, mais dura e já em vigor. Em 30 de julho de 2025, Trump assinou uma ordem executiva que declarou emergência nacional diante do que classificou como ameaça vinda do governo brasileiro e impôs 40% de tarifa adicional sobre boa parte dos produtos do país, a partir de 6 de agosto. Somada à tarifa recíproca de 10% editada no dia seguinte, a sobretaxa chegou a 50% para muitos bens brasileiros. Numa carta a Luiz Inácio Lula da Silva em 9 de julho daquele ano, Trump ligou a medida tanto aos ataques a empresas digitais americanas quanto ao processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. No mesmo período, o Tesouro americano sancionou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e o Departamento de Estado revogou vistos do magistrado e de aliados.

A distinção importa para entender o que a Taurus está pedindo. A empresa não comenta as tarifas de 40% e 10% já aplicadas, e sim a ação da Seção 301, que ainda estava em fase de proposta quando a carta foi protocolada. É essa lista futura de retaliação que ela quer ver esvaziada de armas. No Congresso americano, parte dos parlamentares vê a investigação como politicamente motivada, e não como uma disputa comercial legítima. O governo brasileiro rejeita as acusações e defende a Organização Mundial do Comércio como foro para resolver o impasse.

Uma em cada cinco armas importadas

O peso que a Taurus coloca sobre a mesa é o de fornecedora quase incontornável. Pelos números da ATF, a agência federal americana que fiscaliza armas, reproduzidos no documento, as importações brasileiras responderam por 20,2% de todas as pistolas e revólveres importados pelos Estados Unidos — fatia atribuída inteiramente à divisão de armas do grupo. Em munição, a proporção é parecida: o Brasil abastece cerca de 19% de tudo o que os Estados Unidos importam, e essa parcela vem toda da CBC.

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A conta ainda inclui a República Tcheca, segunda maior origem das importações americanas de munição, com cerca de 12%, abastecida em sua maior parte pela Sellier & Bellot, também do grupo. Juntas, as duas origens representam perto de 31% de toda a munição importada pelos Estados Unidos. Em armas, a Taurus se coloca como peça sem substituto à altura: “Taurus/CBC is the only manufacturer capable of supplying affordable firearms in every category of the market” (a Taurus/CBC é a única fabricante capaz de fornecer armas acessíveis em todas as categorias do mercado). Nenhum fabricante americano teria hoje capacidade para repor esse volume em tempo hábil, sustenta a carta, e erguer essa capacidade exigiria investimento alto e anos de maturação. Enquanto isso não acontece, uma tarifa sobre o produto brasileiro se converteria em preço mais alto e prateleira vazia.

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O documento recorre à memória recente do mercado para reforçar o ponto. Nas ondas de demanda de 2012 e 2013 e de 2020 e 2021, os fabricantes americanos acumularam pedidos represados por doze meses ou mais, com falta de produto que a produção local não deu conta de suprir. É esse colchão que a Taurus diz oferecer ao mercado americano — um importador que preenche a folga entre o que a indústria doméstica produz e o que o consumidor demanda nos picos.

Encarecer a arma, encarecer o direito

O coração retórico da carta está na equação entre preço e direito, e a empresa não deixa meio-termo: “pricing everyday Americans out of the firearms market means pricing them out of their Second Amendment rights” (precificar os americanos comuns para fora do mercado de armas significa precificá-los para fora de seus direitos da Segunda Emenda). O direito de possuir e portar armas, no raciocínio da empresa, traz consigo requisitos práticos — a arma que se possa pagar e a munição suficiente para treinar e manter proficiência. Uma medida que torne esses dois itens caros demais não seria, nessa leitura, uma decisão comercial neutra.

O grupo também tenta descolar seu produto do motivo da briga: “None of these acts and practices relate to the Brazilian firearms industry in general or Taurus/CBC in particular” (nenhum desses atos e práticas se relaciona com a indústria brasileira de armas em geral, nem com a Taurus/CBC em particular), diz o documento. A Taurus não atua em comércio digital nem em meios de pagamento, não se beneficia dos acordos tarifários preferenciais com México e Índia, não está ligada às acusações de corrupção ou de pirataria, não opera nos setores de cana e etanol e não tem parte em desmatamento. A conclusão que oferece ao USTR é direta: taxar arma não corrige nenhuma das distorções apontadas, porque a arma não está entre elas.

Há ainda um flanco tributário. Armas e munição já pagam nos Estados Unidos um imposto federal específico — 10% sobre armas curtas, 11% sobre armas longas e munição —, cuja arrecadação sustenta programas de conservação da vida silvestre e de segurança no manejo de armas. Uma tarifa da Seção 301 incidiria antes da venda, e o imposto, depois. A empresa chama isso de dupla tributação e lembra que a arrecadação do imposto já caiu 15,1% em 2025, ante 2024.

O comprador de baixa renda no centro do argumento

A Taurus faz questão de dizer quem, na sua leitura, pagaria a conta. Não seria o atirador de alto poder aquisitivo, e sim o comprador de entrada — aquele que procura a arma mais barata e tem menos margem para absorver aumento. É justamente o segmento que o grupo diz atender melhor, e a carta o descreve diante de uma escolha sem saída: “entry-level buyers often face a binary choice: pay substantially more or forgo the purchase altogether” (os compradores de entrada muitas vezes enfrentam uma escolha binária: pagar bem mais ou desistir da compra).

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Os números apresentados apontam para esse público. Em 2025, as vendas de armas no segmento de baixo custo caíram 13,8%, contra uma retração de 4,4% no mercado como um todo — queda que a carta associa à tarifa de 10% imposta em abril daquele ano. Do lado da munição, a Magtech diz que 97% do que importa é destinado a treinamento, e que o cartucho 9mm de entrada, sozinho, responde por cerca de 85% do volume. Esse é o produto que abastece atiradores esportivos, estandes de treinamento e, pelos mesmos canais de varejo, polícias estaduais e municipais que compram com orçamento anual fechado.

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O raciocínio se estende à segurança pública. Munição mais cara significaria menos cartuchos comprados dentro do mesmo orçamento, o que reduziria a frequência de treino de agentes e a prontidão operacional. O acesso à munição barata de treinamento aparece na carta não como detalhe, mas como pré-requisito para manter o padrão mínimo de proficiência de quem usa arma no trabalho.

US$ 330 milhões em jogo

O último argumento é o do próprio bolso da Taurus — e do que ela diz já ter apostado em solo americano. O grupo declara mais de US$ 330 milhões em investimentos comprometidos nos Estados Unidos, que uma tarifa poria em risco por dois caminhos: encarecendo insumos e máquinas importados para as novas operações e drenando a receita de importação que financia esses projetos.

A maior aposta está em Oklahoma. A CBC ergue ali uma fábrica de munição de US$ 300 milhões, descrita como sua primeira planta totalmente integrada e o maior projeto do grupo fora do Brasil — e apontada como o maior investimento privado brasileiro anunciado nos Estados Unidos em 2025. A unidade produziria nitrocelulose, insumo básico da munição que os Estados Unidos hoje importam em boa parte e fabricam em uma única planta ativa, a Radford Army Ammunition Plant, na Virgínia. O projeto prevê até 7.000 toneladas anuais, volume que poderia superar o que o país importa. A carta enquadra a fábrica como reforço à base industrial de defesa americana. O projeto recebeu o reconhecimento SelectUSA, concedido pela embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

Na Geórgia, a Taurus opera desde 2019 a unidade de Bainbridge, onde diz ter investido mais de US$ 37 milhões, produzido mais de 3 milhões de armas e criado cerca de 230 empregos. A empresa está transferindo para lá parte da produção antes feita no Brasil, movimento que, pela carta, depende de acesso transitório a insumos e máquinas da matriz brasileira enquanto a operação americana não amadurece. Taxar esse fluxo agora, argumenta a empresa, penalizaria o que o próprio governo diz querer: “effectively penalizing an ongoing effort to ‘build more in America,’ which U.S. policy is intended to encourage” (penalizando, na prática, um esforço contínuo de ‘produzir mais na América’, o que a política dos EUA busca justamente incentivar).

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O USTR realizou audiência pública sobre a ação proposta nos dias 6 e 7 de julho, já com o prazo de comentários encerrado. A lei dá ao governo americano até 15 de julho de 2026 para decidir sobre a retaliação. Ao anunciar a determinação, em junho, o órgão informou que seguia negociando com o Brasil em busca de acordo. Até o fechamento desta reportagem, não havia definição sobre quais produtos entrariam na lista final — nem sobre se as armas da Taurus ficariam de fora dela.

 

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Títulos da França na Copa: seleção vai à semifinal e mira o tri

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títulos da França na Copa

Bicampeã mundial, a seleção francesa venceu o Marrocos por 2 a 0 e pode igualar a Argentina; marroquinos deixam o torneio ainda sem conquista

A França venceu o Marrocos por 2 a 0 nesta quinta-feira (9), em Foxborough, nos Estados Unidos, e avançou à semifinal da Copa do Mundo. A classificação recolocou em foco os títulos da França na Copa: são dois, e a seleção agora persegue o terceiro, que a igualaria à Argentina, atual campeã.

Os gols saíram no segundo tempo, num intervalo de seis minutos. Aos 15, Kylian Mbappé abriu o placar. Aos 21, Ousmane Dembélé ampliou. Antes disso, ainda na etapa inicial, o goleiro marroquino Yassine Bounou havia defendido um pênalti cobrado pelo próprio Mbappé, o que manteve o duelo aberto até a reta final. O Marrocos terminou com leve vantagem na posse de bola, 52% a 48%, mas finalizou pouco: a França somou 22 chutes, oito no alvo, contra cinco dos marroquinos, um deles na direção do gol.

Os títulos da França na Copa e a chance de igualar a Argentina

A seleção francesa soma dois títulos de Copa do Mundo. O primeiro veio em 1998, em casa, com a vitória por 3 a 0 sobre o Brasil, no Stade de France, em jogo marcado por dois gols de Zinedine Zidane. O segundo, vinte anos depois, na Rússia, com o 4 a 2 diante da Croácia. Aos troféus se juntam dois vice-campeonatos, ambos decididos nos pênaltis: em 2006, contra a Itália, após 1 a 1, e em 2022, contra a Argentina, depois do 3 a 3 no tempo normal e na prorrogação.

Naquela final no Catar, Mbappé marcou três vezes e ainda assim viu a taça ficar com os argentinos, que converteram as cobranças e conquistaram o tricampeonato. Foi a segunda vez que a França perdeu uma decisão de Copa nos pênaltis, repetindo o roteiro de 2006 diante dos italianos.

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Se levantar a taça em 2026, a França chega ao terceiro título e iguala a própria Argentina, atual campeã. Passaria a integrar o grupo das seleções com três ou mais conquistas, hoje formado por Brasil, com cinco, Alemanha e Itália, com quatro cada, e os argentinos, com três. Uruguai e a própria França têm dois. Inglaterra e Espanha, um.

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Oitava semifinal, terceira seguida

A vitória sobre o Marrocos levou a França à oitava semifinal de Copa em sua história, e à terceira consecutiva, marca inédita para o país. Nas sete anteriores, os franceses avançaram à decisão em quatro (1998, 2006, 2018 e 2022) e pararam nesta fase em três (1958, 1982 e 1986).

A seleção comandada por Didier Deschamps disputou as duas últimas decisões de Copa, com o título de 2018 e o vice de 2022. Agora tenta a terceira final seguida, algo que nenhuma geração francesa havia alcançado antes. O próprio Deschamps, capitão em 1998 e técnico desde 2012, tornou-se o rosto dessa sequência de campanhas longas.

Marrocos ainda persegue o primeiro título

O Marrocos encerrou a participação sem conquistar o Mundial, resultado que o país nunca obteve em sete edições disputadas. A melhor campanha continua sendo o quarto lugar de 2022, no Catar, quando os marroquinos se tornaram a primeira seleção africana e árabe a chegar a uma semifinal de Copa do Mundo.

Naquele torneio, a campanha decisiva veio no mata-mata. Nas oitavas, Bounou defendeu duas cobranças e o Marrocos eliminou a Espanha nos pênaltis. Nas quartas, um gol de cabeça de Youssef En-Nesyri derrubou Portugal por 1 a 0 e levou a seleção à semifinal inédita, onde caiu diante da França por 2 a 0. A derrota desta quinta-feira repete o placar e o adversário daquela campanha histórica.

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Antes de 2022, o teto marroquino em Copas eram as oitavas de final de 1986, no México, quando a equipe terminou em primeiro no grupo à frente de Inglaterra, Polônia e Portugal. A estreia do país no torneio havia ocorrido em 1970.

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Caminhos distintos até as quartas

Em 2026, França e Marrocos chegaram ao confronto por caminhos diferentes no mata-mata. Os franceses passaram pelo Paraguai nas oitavas, com vitória por 1 a 0, em gol de pênalti de Mbappé. Os marroquinos precisaram das penalidades para despachar a Holanda nos dezesseis avos e depois golearam o Canadá por 3 a 0 nas oitavas.

A queda nas quartas encerra a trajetória marroquina na terceira participação consecutiva do país em Copas, série iniciada em 2018 e igualmente inédita. Antes de sediar a edição de 2030, ao lado de Portugal e Espanha, a seleção deixa o Mundial de 2026 com a tarefa de mostrar que a campanha de 2022 não foi episódio isolado.

A França volta a campo na próxima terça-feira (14), pela semifinal, em Dallas, às 16h de Brasília. O adversário sairá do confronto entre Espanha e Bélgica, que se enfrentam nesta sexta-feira (10), em Los Angeles.

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