Pesquisar
Close this search box.

Política versus ciência

Análise: lei de internação involuntária em Criciúma ignora dados científicos

O prefeito de Criciúma, Vagner Espindola, sancionou uma lei de internação involuntária para dependentes químicos após se disfarçar de morador de rua. A medida, porém, é contestada por OMS, OPAS e dados científicos que apontam eficácia de menos de 2% e riscos aos direitos humanos.

Publicado em

A ação do prefeito Vagner Espindola resultou em uma lei municipal para internação forçada, medida que enfrenta ceticismo de especialistas e da comunidade científica.
A ação do prefeito Vagner Espindola resultou em uma lei municipal para internação forçada, medida que enfrenta ceticismo de especialistas e da comunidade científica.

Medida, que seguiu experiência de Vagner Espindola nas ruas, vai na contramão de dados da OMS e OPAS, que apontam baixa eficácia e graves riscos de violações de direitos.

A decisão nascida de uma experiência de 20 horas nas ruas, e amplificada por vídeos virais nas redes sociais, colocou Criciúma no centro de um dos mais acalorados debates sobre saúde pública no Brasil. Ao sancionar uma lei municipal que autoriza a internação involuntária de dependentes químicos, o prefeito Vagner “Vaguinho” Espindola (PSD) adotou uma solução drástica para um problema local agudo. Contudo, a medida colide frontalmente com um consenso científico internacional que questiona sua eficácia e alerta para sérios riscos aos direitos humanos, dividindo profundamente especialistas no país.

 

O estopim político em Criciúma

 

A gênese da nova lei foi uma ação de marketing político sem precedentes. No dia 10 de julho, Vaguinho, disfarçado com barba e roupas velhas, viveu como um morador em situação de rua. A experiência, segundo ele, foi transformadora, marcada por momentos como o café oferecido por um menino de 10 anos e a dor de não ser reconhecido pela própria família. “Senti na pele o que é ser invisível”, declarou.

Advertisement

A divulgação da empreitada em suas redes sociais gerou forte comoção e serviu como capital político para uma resposta rápida. Em 14 de agosto, a Câmara de Vereadores aprovou o projeto de internação forçada. A justificativa se ampara na crise local: Criciúma viu sua população de rua crescer 175% desde 2021, o maior aumento em Santa Catarina. Apoiadores, como o delegado Gustavo Mesquita, viram no ato do prefeito “a verdadeira empatia do político”. Críticos, por outro lado, apontaram um “aspecto teatral” na ação.

 

O que diz a ciência: baixa eficácia e altos riscos

 

Enquanto a solução de Criciúma parece direta, ela ignora décadas de estudos e posicionamentos de autoridades globais em saúde. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em 2013, já considerava “inadequada e ineficaz” a priorização da internação involuntária, afirmando que a abordagem está na “contramão do conhecimento científico”. Um ano antes, um conjunto de agências da ONU, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), recomendou o fechamento de centros de reabilitação obrigatórios, por “não haver comprovação de que os tratamentos contra a vontade do paciente são eficazes”.

Leia Também:  Cartilha do TSE orienta uso de inteligência artificial na campanha de 2026

Os números sobre a eficácia são contundentes. Uma pesquisa de 2019 apresentada pela Fundação Perseu Abramo revelou que a taxa de sucesso da internação involuntária “não chega a 2%”. Em comparação, a internação voluntária alcança no máximo 10%, enquanto estratégias de redução de danos, que oferecem suporte sem exigir abstinência total, mostram eficácia entre 25% e 27%. Outro dado alarmante, relatado por especialistas da Casa de Saúde Saint Roman, aponta que 95% das recaídas ocorrem justamente entre pacientes internados contra a própria vontade.

Advertisement

 

Um abismo entre médicos e psicólogos

 

Se no cenário internacional há um consenso, no Brasil o tema abre uma fenda entre conselhos profissionais. O Conselho Federal de Medicina (CFM) é favorável à medida em casos específicos. Para Emmanoel Fortes, do CFM, “internação involuntária é necessária em casos de risco de vida a si próprio, de terceiros”. Em 2021, o órgão regulamentou o funcionamento de clínicas, definindo a internação como um processo com “etapas essencialmente médicas”. Essa visão é compartilhada por psiquiatras como Rodrigo Lanceloti Alberto, que defende a prática quando “essas pessoas estão correndo risco”.

Na outra ponta, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) se opõe veementemente. O órgão critica projetos que ampliam a internação compulsória por contrariarem “os princípios da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial”. O CFP já denunciou em 2017 “violações de direitos humanos em todas” as comunidades terapêuticas inspecionadas no país, relatando a ausência de acompanhamento psicológico adequado e o “uso de medicação de contenção química”.

 

Advertisement

A lei que ampara a polêmica

 

A decisão de Criciúma, assim como a de outras cidades como Ipatinga (MG), encontra respaldo na Lei Federal 13.840, de 2019. A legislação alterou as regras do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas e permite a internação involuntária por até 90 dias, desde que solicitada por um familiar ou servidor público e formalizada por um médico responsável, com comunicação obrigatória ao Ministério Público em 72 horas.

Leia Também:  TSE confirma proibição de adesivo em carro de aplicativo

A própria sanção da lei, em 2019, gerou intenso debate. Na época, o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, da Unicamp, alertou que “não há solução simples para o problema da dependência química”. A nova legislação segue, no entanto, alimentando a criação de políticas municipais que, embora legais, são cientificamente questionáveis.

A iniciativa de Vaguinho Espindola, nascida de um gesto de forte impacto midiático, agora enfrenta o desafio da realidade. A cidade de Criciúma se torna um laboratório para uma política pública que, para dar certo, terá de superar não apenas a complexidade da dependência química, mas também o peso esmagador das evidências científicas que jogam contra ela.

 

Advertisement

Para entender melhor:

  • Internação Involuntária: Procedimento realizado sem o consentimento do paciente, mas a pedido de um terceiro e com autorização médica. Prevista em lei para casos onde a pessoa representa risco para si ou para outros e está incapaz de buscar ajuda.
  • Redução de Danos: Estratégia de saúde pública que visa minimizar as consequências negativas associadas ao uso de drogas, sem necessariamente exigir a abstinência. Inclui ações como troca de seringas, oferta de abrigo e suporte psicossocial.
  • Reforma Psiquiátrica: Movimento social e político que defende a substituição do modelo de tratamento baseado em hospitais psiquiátricos (manicômios) por uma rede de atenção psicossocial aberta, comunitária e que respeite os direitos dos pacientes.
  • Centro POP: Unidade pública que oferece serviços especializados para a população em situação de rua, como alimentação, higiene e encaminhamentos para a rede de assistência.

 

Quer se informar sobre meio ambiente em MT? Acesse o site www.lupamt.com

Entre para nosso grupo e mantenha-se informado, você pode entrar clicando aqui.

Ouça o Pod Lupa na mata:

https://open.spotify.com/show/2hN6KgAvPUf5NdcsvPilLK?si=hTBoSQMRSmmV9sYs-sjdlw

Advertisement

 

DESTAQUE

Dino manda PF apurar R$ 55,4 milhões em emendas Pix apontados pelo TCU

Published

on

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou nesta sexta-feira (7) que a Polícia Federal apure as irregularidades levantadas pelo Tribunal de Contas da União na execução das chamadas emendas Pix. O relatório do órgão de controle aponta R$ 55,4 milhões em possíveis danos ao erário entre 2020 e 2024.

Recebido pelo ministro em 31 de julho, o documento foi remetido ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, “a fim de que verifique a existência de indícios de crimes, e, se for o caso, proceda à juntada aos procedimentos já instaurados e/ou à abertura de novos”. Dino determinou ainda que a análise priorize as “hipóteses de danos ao Erário já apontados pela Egrégia Corte de Contas”.

Emendas Pix é o apelido dado às transferências especiais, modalidade que dificultava identificar tanto o parlamentar autor da destinação quanto quem recebia o dinheiro na ponta. Foi essa opacidade que levou o Supremo, uma vez provocado, a fiscalizar o mecanismo e a cobrar os critérios de rastreabilidade e transparência fixados na Constituição para a aplicação de recursos públicos. Dino relata a ação sobre o tema.

Leia Também:  Polícia Civil captura homem de 37 anos em Reserva do Cabaçal

Os números do relatório

A auditoria examinou cem transferências especiais destinadas a 74 entes federados, num total de R$ 198.109.222,97 em recursos fiscalizados. Desse volume, mais de R$ 26,3 milhões aparecem como prejuízo decorrente do comprometimento da transparência e da rastreabilidade.

Outros R$ 14,9 milhões foram para o pagamento de despesas “sem comprovação jurídica/fiscal idônea, estranhas à finalidade da transferência especial” ou “sem comprovação da quantidade ou do objeto realizado”. Um terceiro grupo, de R$ 14,1 milhões, reúne casos de “inexecução total ou parcial do objeto” e “superfaturamento de preços”.

Advertisement

Para Dino, os achados “demonstram a persistência de um estado de inconstitucionalidade, o qual justifica a necessidade de adoção de novas medidas para a conformação da execução das ‘emendas individuais’ aos parâmetros constitucionais de transparência e rastreabilidade”.

 

Leia também:

“Isso aqui é o matadouro”: vídeo mostra cães mortos e vivos em barracão sem luz do Zoonoses de Cuiabá

EXCLUSIVO:compras pela internet: o guia completo dos direitos do consumidor

Advertisement

EXCLUSIVO:Mato Grosso mata mais mulheres por serem mulheres;revela anunário

Leia Também:  TSE confirma proibição de adesivo em carro de aplicativo

EXCLUSIVO: ex-assessor acusa deputado Dr. João de confiscar salários e manter funcionários fantasmas;VÍDEO

Glifosato aparece em 31 de 75 ultraprocessados testados pelo Idec, saiba quais

Continuar lendo

GRANDE CUIABÁ

MATO GROSSO

POLÍCIA

ENTRETENIMENTO

ESPORTES

MAIS LIDAS DA SEMANA