CASO DAS JOIAS
PGR pede ao STF arquivamento do inquérito das joias contra Jair Bolsonaro
Procurador-geral Paulo Gonet contraria Polícia Federal e alega falta de legislação para configurar crime de peculato; decisão final cabe a Alexandre de Moraes.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) o arquivamento do inquérito que apura o desvio de R$ 6,8 milhões em joias recebidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. O parecer, assinado pelo procurador-geral Paulo Gonet e protocolado na quinta-feira (5), contraria a conclusão da Polícia Federal e argumenta não haver base legal para caracterizar o crime de peculato no caso dos presentes diplomáticos.
A manifestação da PGR evidencia uma lacuna na legislação brasileira, que não define com clareza se presentes de alto valor entregues a chefes de Estado pertencem ao patrimônio da União ou ao acervo pessoal do governante. Caso o relator do processo, ministro Alexandre de Moraes, homologue o pedido, Bolsonaro e outras 11 pessoas indiciadas se livram da responsabilização penal neste episódio, embora o ex-presidente continue cumprindo pena de 27 anos de prisão por outras condenações.
Lacuna legislativa
Para recomendar o arquivamento, Paulo Gonet baseou-se no princípio jurídico de que não há crime sem lei anterior que o defina. Segundo o procurador-geral, a ausência de uma regra formal sobre a propriedade das joias sauditas inviabiliza a acusação de peculato, que exige a apropriação indevida de um bem público indiscutível.
“Não existe normação, por via de lei em sentido formal, sobre a destinação e a dominialidade de presentes recebidos pelo presidente da República de autoridades estrangeiras”, escreveu Gonet no documento de 16 páginas. O procurador argumentou que, “enquanto subsistir a lacuna legislativa”, punir a conduta na esfera penal é incompatível com o Estado Democrático de Direito.
A PGR utilizou como base interpretações do próprio Tribunal de Contas da União (TCU). Em 2024, o órgão de controle avaliou um caso semelhante envolvendo um relógio recebido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2005 e concluiu que o item não precisaria ser devolvido ao erário exatamente pela ausência de regulamentação específica.
Divergência com a Polícia Federal
O posicionamento do Ministério Público Federal colide com a investigação da Polícia Federal, encerrada em julho de 2024. A corporação indiciou o ex-presidente, seus ex-assessores e militares — incluindo o tenente-coronel Mauro Cid e seu pai, o general Mauro Cesar Lourena Cid — por peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa.
A apuração policial rastreou quatro lotes de presentes, incluindo itens das marcas Chopard e Rolex, que teriam sido levados aos Estados Unidos para venda em casas de leilão. Segundo a PF, o esquema visava o lucro direto do ex-chefe do Executivo.
“Identificou-se ainda que os valores obtidos dessas vendas eram convertidos em dinheiro em espécie e ingressavam no patrimônio pessoal do ex-presidente da República, por meio de pessoas interpostas e sem utilizar o sistema bancário formal”, aponta o relatório final da corporação.
Apesar de esvaziar a denúncia, Gonet fez questão de elogiar o inquérito. Em seu parecer, classificou que a corporação, “com o seu afanoso procedimento investigatório, propiciou visão nítida e exaustiva dos fatos relevantes”.
Próximos passos e contexto prisional
O arquivamento definitivo depende agora do ministro Alexandre de Moraes, que pode acatar o parecer da PGR ou solicitar novas diligências. Embora a decisão elimine o risco penal imediato no caso das joias, ela não altera a situação carcerária de Bolsonaro.
O ex-presidente está preso no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, após ser condenado pela Primeira Turma do STF em setembro de 2025. A pena de 27 anos e três meses de reclusão refere-se à liderança de organização criminosa voltada à tentativa de golpe de Estado e aos ataques às sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. No mesmo dia em que o parecer da PGR chegou à Corte, a Turma formou maioria para negar o cumprimento da pena em regime domiciliar.
Advogados dos investigados celebraram a manifestação. Defensores do coronel Marcelo Câmara e do comandante Marcelo Vieira afirmaram que o inquérito não deveria ter sido instaurado. Independentemente do desfecho penal, o TCU ainda pode decidir na esfera administrativa se cobrará ou não o ressarcimento dos itens ao Estado brasileiro.
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CIDADES
Polícia Civil prende líderes de facção em operação contra o tráfico em Sinop
Ação cumpre 12 mandados judiciais em Sinop e Cuiabá para desarticular gerentes e responsáveis pela disciplina interna do crime organizado.
A Polícia Civil de Mato Grosso deflagrou, na manhã desta quinta-feira (23), a Operação Magazine para desarticular a cúpula de uma facção criminosa que opera na região de Sinop (500 km de Cuiabá). Ao todo, 12 mandados judiciais são cumpridos, incluindo seis prisões temporárias e seis buscas domiciliares expedidas pelo Núcleo de Justiça 4.0 do Juiz das Garantias.
De acordo com informações da Polícia Civil, os alvos da investigação ocupam postos estratégicos de comando, atuando como “gerentes” e “disciplinas”. Estes membros são responsáveis por coordenar a distribuição de entorpecentes, arrecadar valores ilícitos — prática conhecida como “recolhe” — e aplicar punições a integrantes que descumprem as ordens da organização.
O delegado titular da Draco de Sinop, Eugênio Rudy Júnior, explicou em nota que o grupo atuava de forma “estruturada e hierarquizada”. “A operação representa mais uma ofensiva da Polícia Civil contra as facções criminosas na região norte do Estado, visando desarticular a estrutura do grupo criminoso em Sinop e enfraquecer sua capacidade de atuação”, afirmou o delegado (TB-1).
As investigações apontam que a organização não se limitava ao tráfico de drogas. Havia também forte atuação no comércio de armas de fogo e movimentação financeira suspeita, com indícios de lavagem de dinheiro realizada por meio de transferências bancárias. Em Sinop, os agentes percorrem bairros como Jardim Boa Esperança, Jardim Imperial, Jardim Ipê e Oliveiras em busca de provas e ativos financeiros.
A ofensiva é coordenada pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco) de Sinop, com suporte da Delegacia de Roubos e Furtos (Derf) e da Polinter de Cuiabá. A ação está inserida na Operação Pharus, parte do Programa Tolerância Zero do planejamento estratégico estadual para 2026.
Nacionalmente, os trabalhos integram o cronograma da Rede Nacional de Unidades Especializadas de Enfrentamento das Organizações Criminosas (Renorcrim), articulada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública para promover respostas unificadas contra o crime organizado em todo o país.
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