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SAÚDE DA PELE

O que ninguém vê hoje, a pele revela depois

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Envelhecimento da pele

Por Cíntia Procópio

A pele não esquece. Essa é uma das primeiras coisas que aprendi ao longo dos anos de consultório, observando rostos que contam histórias muito antes de qualquer palavra ser dita. Histórias de cuidado, de descuido, de pressa, de escolhas. Porque, no fim das contas, a pele é um reflexo do que fazemos com o nosso corpo e com a nossa rotina todos os dias.

Existe uma ideia muito comum de que o envelhecimento da pele acontece de repente. Mas não é assim. Ele é construído aos poucos, em pequenas decisões que, isoladamente, parecem inofensivas. Aquela noite mal dormida que vira hábito. O protetor solar esquecido em dias nublados. O estresse constante que ninguém vê, mas o organismo sente. A alimentação desregulada, a hidratação insuficiente, o cigarro ocasional que vira rotina. Tudo isso vai se acumulando, camada por camada, exatamente como a pele.

A ciência já demonstrou, de forma bastante consistente, que grande parte do envelhecimento cutâneo não é apenas genética. Ele é, sobretudo, comportamental. Chamamos isso de envelhecimento extrínseco, aquele provocado por fatores externos, como radiação solar, poluição e estilo de vida. E é justamente aí que mora um ponto importante, o que está ao nosso alcance.

Não se trata de buscar uma pele perfeita. Essa ideia, além de irreal, é injusta. Trata-se de entender que a pele responde ao cuidado. Ela reage quando é protegida, nutrida e respeitada. E também reage quando é negligenciada. É uma via de mão dupla, sempre.

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Quando uma paciente me pergunta qual é o melhor tratamento para manter a pele bonita, a resposta raramente está em um único procedimento ou produto. Ela está na constância. Está no hábito. Está na disciplina suave de cuidar de si, mesmo quando ninguém está olhando. Porque não é o que fazemos uma vez que transforma a pele. É o que fazemos todos os dias.

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O uso diário de filtro solar, por exemplo, é uma das escolhas mais simples e mais potentes que alguém pode fazer. Não há tecnologia mais avançada em consultório que consiga compensar anos de exposição solar sem proteção. Da mesma forma, o sono de qualidade influencia diretamente na regeneração celular. A pele se recupera à noite. Quando o descanso falha, os sinais aparecem e persistem.

O estresse também tem um papel relevante. Ele interfere na produção de hormônios, aumenta processos inflamatórios e pode desencadear ou agravar condições como acne, dermatites e até queda de cabelo. Ou seja, cuidar da pele não é apenas aplicar produtos. É olhar para o todo.

E talvez esse seja o ponto mais importante. A pele não é um órgão isolado. Ela conversa com o corpo inteiro. E o corpo inteiro responde às escolhas que fazemos.
É claro que a dermatologia evoluiu muito. Hoje contamos com tecnologias capazes de melhorar textura, firmeza, manchas e estimular colágeno. Mas nenhum desses recursos substitui aquilo que é construído no dia a dia. Eles potencializam, corrigem, refinam. Mas a base sempre vem dos hábitos.

Gosto de dizer às minhas pacientes que o futuro da pele não começa daqui a dez anos. Ele começa hoje. Começa nas escolhas mais simples, aquelas que muitas vezes passam despercebidas. Beber água, proteger-se do sol, dormir melhor, gerenciar o estresse, cuidar da alimentação. Parece básico. Mas é justamente no básico que mora o resultado.

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No consultório, vejo com frequência pessoas buscando soluções rápidas para questões que foram construídas ao longo de anos. E não há julgamento nisso. Todos nós, em algum momento, deixamos de priorizar o cuidado. Mas também é verdade que sempre há tempo de recomeçar. A pele tem uma capacidade impressionante de resposta quando recebe os estímulos certos.

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Cuidar da pele, no fundo, é um exercício de responsabilidade consigo mesma. Não por estética apenas, mas por saúde, por bem-estar, por longevidade. É entender que o espelho reflete mais do que aparência. Ele reflete escolhas.

E, se tem algo que a dermatologia ensina todos os dias, é que pequenas escolhas, repetidas com consistência, têm um poder silencioso e profundo. Elas não transformam apenas a pele. Transformam a forma como nos sentimos dentro dela.

Cíntia Procópio é dermatologista, especialista em rejuvenescimento com naturalidade.

 

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Prender não resolve tudo: por que conversar com os agressores ainda é uma estratégia indispensável

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Hoje a Lei Maria da Penha completa 20 anos. A data dá ao Agosto Lilás um significado que vai além da homenagem: é tempo de reconhecer conquistas e perguntar o que ainda falta para que as mulheres vivam sem violência. Para quem atua na linha de frente, uma resposta é evidente: proteger a vítima e responsabilizar o agressor são deveres inegociáveis, mas a prevenção exige também intervir nas crenças e nos comportamentos que alimentam a violência.

Por Jefferson Dias Chaves, delegado de polícia

A violência começa antes da agressão física. Muitas histórias têm origem na vigilância de mensagens, no afastamento forçado de amigos e familiares, em humilhações, ameaças e controle financeiro — condutas que restringem a liberdade e tendem a se agravar. Por isso, a prevenção não pode esperar o episódio mais grave: precisa reconhecer o ciclo desde os primeiros indícios e oferecer à mulher acolhimento, proteção e acesso rápido à rede de atendimento.

Também é preciso olhar para a formação dos homens. Comportamentos abusivos são aprendidos e reforçados em famílias, grupos de convivência e ambientes digitais. Quando os meninos aprendem que demonstrar vulnerabilidade é fraqueza, que controlar é amar ou que a parceira lhes deve obediência, constrói-se um repertório perigoso. Enfrentar esse processo não reduz a responsabilidade individual; pelo contrário, cria condições para que ela seja reconhecida antes que a violência se agrave.

Os grupos reflexivos são parte dessa resposta. A Lei Maria da Penha prevê, no art. 22, inciso VI, que o juiz pode determinar o comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação. Em 2022, a Recomendação nº 124 do CNJ orientou os tribunais a instituir programas de reflexão e responsabilização. Aplicados como medida protetiva de urgência, esses grupos não substituem as demais providências, tampouco a investigação, o processo ou a pena. Seu propósito é confrontar escolhas, identificar padrões de controle e construir respostas não violentas para conflitos e frustrações. Não são espaços de desculpa, nem de culpabilização da vítima, nem de absolvição do agressor.

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A eficácia, porém, depende de estrutura. Programas sem equipe qualificada, sem critérios de segurança e sem articulação com a rede de proteção produzem pouco efeito. Quando há método, o resultado aparece: em Mato Grosso, onde os grupos reflexivos já funcionam em 25 comarcas, a reincidência entre os homens que não passam por eles gira em torno de 10% e cai para menos de 5% entre os que participam dos encontros, segundo a Coordenadoria Estadual da Mulher do Tribunal de Justiça. Cair pela metade não é chegar a zero — e é justamente por isso que a expansão precisa vir acompanhada de protocolos, formação continuada, monitoramento e indicadores de reincidência. Responsabilização séria exige método e não pode, em nenhuma hipótese, comprometer a segurança das mulheres.

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Há anos, o projeto “Papo de Homem para Homem”, da Polícia Civil de Mato Grosso, leva rodas de conversa a escolas, empresas e comunidades. Criado em 2014, na Delegacia Especializada de Defesa da Mulher de Várzea Grande, ganhou escala a partir de 2022, quando um termo de cooperação com o Tribunal de Justiça passou a encaminhar às atividades homens submetidos a medidas protetivas — só em 2024 foram 316. Coordenei a Polícia Comunitária quando o comparecimento aos encontros deixou de ser convite e passou a ser determinação judicial. A diferença apareceu na sala: quem vem por obrigação chega fechado, e é justamente esse homem que o programa precisa alcançar.

A experiência confirma que campanhas abrem portas, mas que mudanças profundas pedem continuidade. Os grupos reflexivos podem formar a coluna vertebral de uma atuação em três frentes: preventiva, com adolescentes; responsabilizante, com homens encaminhados pela Justiça; e comunitária, com quem procura mudar antes de causar novos danos.

Segurança pública não se resume a algemas e viaturas. Uma polícia forte também identifica riscos, qualifica o atendimento e trabalha em rede. Prevenir não é ser complacente; é usar inteligência e experiência para evitar novas vítimas.

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Prender pode ser necessário. Proteger é urgente. Mas, para romper o ciclo, precisamos também disputar a cultura que o sustenta. Todo homem deve aprender a reconhecer limites, respeitar a autonomia das mulheres e assumir as consequências de seus atos. A maturidade de uma política pública se mede não só por sua capacidade de reagir, mas por quantas violências consegue impedir.

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Jefferson Dias Chaves é delegado de classe especial da Polícia Civil e atua em Mato Grosso. Entre 2021 e 2023, esteve à frente da Coordenadoria de Polícia Comunitária da Polícia Judiciária Civil, período em que o projeto “Papo de Homem para Homem” passou a receber homens encaminhados pela Justiça. Também foi secretário de Defesa Social em Londrina, no Paraná.

 

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