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“Estudo” europeu não comprova que fones de ouvido causam distúrbios endocrinológicos

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fones de ouvido desreguladores endócrinos
Relatório europeu encontrou bisfenóis em todas as 180 amostras de 81 modelos de fones analisados, mas não mediu se as substâncias migram para o corpo humano. Foto: ilustrativa.

Relatório da ONG tcheca Arnika detectou bisfenóis e outros compostos em todos os 81 modelos testados, mas não mediu migração para o corpo humano

A ONG tcheca Arnika e quatro organizações parceiras da Europa Central publicaram em fevereiro um relatório, não um estudo cinentífico, que identificou substâncias classificadas como desreguladoras endócrinas em todos os 81 modelos de fones de ouvido analisados em cinco países da União Europeia. Os autores descrevem os fones como uma via de exposição química a adultos e crianças, mas as medições apresentadas no próprio estudo não comprovam que esses compostos migram para o corpo humano em quantidade capaz de interferir no sistema hormonal.

O estudo “The Sound of Contamination”, segunda edição publicada em março de 2026, foi coordenado pela Arnika, com sede em Praga, e teve financiamento do programa LIFE da União Europeia e do Ministério do Ambiente da República Tcheca. Os pesquisadores desmontaram 81 aparelhos comprados em mercados da República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Eslovênia e Áustria, gerando 180 amostras de plásticos duros, macios e de revestimento de cabos. As amostras foram analisadas por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massa. A lista de substâncias investigadas inclui bisfenóis (como o BPA), ftalatos, parafinas cloradas de cadeia curta (SCCP) e média (MCCP) e retardantes de chama bromados e organofosforados.

O que foi medido e o que não foi medido

Bisfenóis foram detectados em todas as 180 amostras. O BPA apareceu em 177 delas. O BPS, substituto comercial mais usado, em 137. A concentração máxima registrada de um único bisfenol foi de 351 mg/kg, encontrada na parte dura de plástico de um fone infantil vendido sob a marca My First Care, da linha Care Buds. O valor está acima do limite de 10 mg/kg proposto pela Agência Europeia de Produtos Químicos (Echa), proposta que ainda tramita e não é norma legal vigente.

Todas as concentrações relatadas se referem ao conteúdo dentro do plástico do produto, não ao que o usuário absorve pela pele. As amostras com maior carga de bisfenóis estavam nas carcaças rígidas, ou seja, nas partes que não ficam em contato direto com a pele. As estruturas macias, como almofadas e pontas de silicone, tiveram resultados melhores: 71% ficaram na faixa verde do sistema de semáforo usado pela ONG.

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Os autores afirmam que os bisfenóis “provavelmente migram” das resinas epóxi de componentes internos dos aparelhos. Não há, no estudo, medição direta dessa migração para a pele, para o suor ou para o sangue dos usuários. O próprio resumo executivo registra que os produtos “não representam perigo agudo ou iminente” e limita a discussão à hipótese de efeitos cumulativos de exposição crônica.

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A barreira química que o relatório não discute

Em vídeo publicado no canal Nunca vi 1 Cientista (vídeo no final da matéria), a divulgadora científica descreveu a cadeia de condições físico-químicas necessárias para que um composto presente no plástico de um produto de consumo pudesse alterar o sistema hormonal humano. “Mesmo que no plástico das partes que encostam na pele tivesse as tais substâncias supostamente disruptoras endócrinas, elas teriam que um sair de dentro da composição química do plástico, onde elas estão presas por ligações químicas. Depois elas teriam que atravessar a barreira da pele, que como o próprio nome diz, é uma barreira. E aí, por fim, elas teriam que cair no sangue em quantidade suficiente para exercer exatamente a mesma função que os seus hormônios exercem”, afirmou.

Nenhum dos três estágios descritos no vídeo (desprendimento da matriz polimérica, passagem pela barreira cutânea e concentração plasmática suficiente para efeito endócrino) foi quantificado pela equipe da Arnika.

Classificação por cor e casos extremos

Do total de 180 amostras, 43% receberam classificação verde, 14% amarela e 43% vermelha. No critério específico de bisfenóis, 36 amostras (20%) foram classificadas como vermelhas.

Dois produtos receberam rótulo vermelho por concentrações de trifenilfosfato (TPhP), retardante de chama organofosforado, acima do limite de 0,1% exigido para notificação pelo artigo 33 do Regulamento Reach da União Europeia: Marshall Motif II ANC e Skullcandy Grom Kids Bluetooth, este último um modelo infantil. A maior concentração de retardante de chama em toda a amostragem foi de 3.514 mg/kg de resorcinol bis(difenilfosfato), ou RDP, no modelo Haylou Bluetooth over-ear, substância ainda não regulada pela União Europeia.

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A maior concentração de uma única substância em todo o estudo apareceu num fone infantil vendido na plataforma Temu, com 4.950 mg/kg de DEHP, ftalato classificado como carcinogênico, mutagênico ou tóxico à reprodução (CMR). As parafinas cloradas de maior concentração apareceram em outro produto infantil também comprado na Temu, com 1.299 mg/kg de SCCP, abaixo do limite legal de 1.500 mg/kg fixado pelo Regulamento de Poluentes Orgânicos Persistentes da UE.

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Marca conhecida não garante produto mais limpo

O relatório comparou 58 fones de marcas conhecidas (como Apple, Sony, Sennheiser e JBL), 8 de marcas de varejo europeias e 16 sem marca, vendidos em plataformas como Temu, Shein e Action. Entre os de marca, 48% receberam classificação vermelha. Entre os sem marca, apenas 20%.

Pedido de exclusão dos produtos

Mesmo sem nenhuma prova científica, a Arnika e as organizações parceiras, dTest (República Tcheca), VKI (Áustria), Associação dos Consumidores Conscientes (Hungria) e ZPS (Eslovênia), pedem que a União Europeia proíba o grupo dos bisfenóis como um todo em produtos de consumo, reapresente a proposta alemã de restrição retirada em 2023 e inclua os retardantes bromados aromáticos no Reach. A revisão do Regulamento Reach prevista para os próximos meses deve incluir também a discussão sobre a adoção do Fator de Avaliação de Mistura (MAF), mecanismo que considera o efeito cumulativo de múltiplas substâncias. Até o fechamento desta reportagem, a Comissão Europeia não havia se manifestado sobre as recomendações do estudo.

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CONSUMIDOR

App da ANP para postos dá nota de 0 a 5 e recebe denúncia de preço abusivo

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app da ANP para postos

Ferramenta gratuita já lista estabelecimentos autorizados em Mato Grosso; a parte da nota ligada ao monitoramento de qualidade no estado ainda depende de licitação

Cards com passo a passo no final da matéria.

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) lançou em 13 de julho o app da ANP para postos, chamado ANP com VC – Postos, que exibe uma nota de 0 a 5 para cada estabelecimento e abre canal direto de denúncia, inclusive por preço abusivo. A ferramenta é gratuita, roda em celular e computador e já lista postos autorizados em cidades de Mato Grosso. A nota não é dada pelo consumidor: sai de um cálculo da própria agência, feito com o histórico de fiscalização e o monitoramento de qualidade dos combustíveis.

Quem dá a nota

O nome sugere participação do público, e é aí que mora a confusão. O “VC” não quer dizer que o motorista atribui estrelas ao posto. A classificação exibida na tela é administrativa: nasce do histórico de qualidade de cada estabelecimento nos últimos cinco anos, com base nos resultados das ações de fiscalização e do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC). Punições mais recentes pesam mais na conta.

Os dois componentes têm naturezas diferentes. O PMQC dá um retrato amplo da qualidade do combustível no mercado e não gera autuação. Já a fiscalização mira estabelecimentos com indício de irregularidade e pode terminar em multa e outras sanções. A nota junta esse histórico em um número só.

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No mapa, cada posto ganha uma cor conforme a nota, do vermelho, na pontuação zero, ao verde, na pontuação cinco. Quem abre o aplicativo libera a localização ou digita a cidade e vê os postos próximos em lista ou em mapa. Também dá para procurar um endereço específico pelo CNPJ.

O que o app da ANP para postos exibe de cada estabelecimento

Ao clicar em um posto, o usuário encontra os resultados das fiscalizações dos últimos cinco anos, que medem a qualidade do combustível e a exatidão do volume entregue pelas bombas, além das análises do PMQC, dos dados cadastrais e da situação da autorização. A página informa ainda a origem do combustível vendido, a empresa que de fato abasteceu aquele posto.

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Esse último dado costuma passar despercebido pelo consumidor. Segundo a ANP, ele aumenta a transparência, porque “mesmo postos que exibem marca comercial de uma distribuidora podem vender produto de outro fornecedor, como de uma usina de etanol, de transportador-revendedor-retalhista (TRR) ou mesmo de outra distribuidora, desde que informado de forma clara ao consumidor”.

A denúncia fica em dois botões dentro do próprio aplicativo, um para preço abusivo e outro para irregularidades em geral. O que o cidadão registra pode alimentar as ações de fiscalização seguintes. A instalação acontece pelo endereço oficial do serviço, com um botão que adiciona o aplicativo ao celular ou ao computador, e a agência publicou um vídeo com o tutorial de navegação.

Cobertura em MT

Em Mato Grosso, a camada mais simples do aplicativo já responde: os postos autorizados aparecem na busca, e a base cadastral de revendedores em operação, mantida pela agência, é pública e pode ser exportada. Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis, Sinop, Tangará da Serra e Primavera do Leste estão entre as cidades que já constam nesse cadastro.

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O ponto sensível é o PMQC. O novo modelo do programa, em que os próprios agentes regulados pagam pelas análises de laboratório, começou por Goiás e pelo Distrito Federal. A expansão para Mato Grosso e Tocantins foi aprovada pela diretoria da ANP em dezembro de 2024 e ficou condicionada a uma licitação para credenciar os laboratórios. Em maio de 2026, a agência conduzia essa licitação para Goiás, Distrito Federal, Mato Grosso e Tocantins. Na prática, a fatia da nota que depende do monitoramento de qualidade tende a chegar mais rala nos postos mato-grossenses do que nos estados onde o programa já roda há mais tempo.

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Há também um limite jurídico que o próprio dado de fiscalização carrega. Quem foi autuado tem direito ao contraditório e à ampla defesa, e só o julgamento definitivo do processo confirma se a infração de fato ocorreu. A nota serve como sinal regulatório para orientar a escolha, não como condenação do posto.

Lançamento no aperto contra a fraude

O aplicativo estreou um dia antes de o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovar, em 14 de julho, uma resolução que endurece o combate à adulteração de combustíveis. A norma foi apresentada como resposta ao avanço de esquemas de adulteração e lavagem de dinheiro no setor. Entre as exigências estão a escrituração eletrônica certificada das operações de compra, venda e estoque nos postos, mais rastreabilidade da cadeia e atuação coordenada entre ANP, Ministérios Públicos, Procons, polícias, órgãos fazendários e o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

A ANP divulgou a lógica geral da nota e informou que infrações recentes pesam mais no resultado. A fórmula detalhada e os pesos aplicados no cálculo não foram publicados.

A conclusão da licitação dos laboratórios do PMQC deve definir quando o componente de qualidade do programa passará a pesar por inteiro nas notas dos postos de Mato Grosso. Até o fechamento desta reportagem, o aplicativo era distribuído apenas pelo site oficial da agência, sem versão publicada nas lojas de aplicativos.

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